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O Alegre Canto da Perdiz

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Ricardo Goulart

on 22 November 2013

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Transcript of O Alegre Canto da Perdiz

O Alegre Canto da Perdiz
Paulina Chiziane
Trajetória
Nascida em Manjacaze, Província de Gaza no sul de Moçambique, em 1955. Viveu sua infância no campo (sua família falava as línguas chope e ronga), aprendendo o português somente na escola e depois mudou-se para os subúrbios de Maputo. Iniciou a Graduação Superior em Linguística, sem concluí-la;

Considerada a primeira romancista negra moçambicana;

Ela se auto define como uma “contadora de histórias”, já que suas primeiras inspirações vêm dos “contos a beira da fogueira”;

Participou da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), que ainda comanda o país;

Depois da desilusão com as relações políticas do poder, começa a dedicar-se à escrita, com suas publicações e com o Trabalho na Cruz Vermelha.
Principais Obras
Na mão de Deus (2013)
O Alegre Canto da Perdiz (2008)
Niketche. Uma história de poligamia (2002)
O Sétimo Juramento (2000)
Ventos do Apocalipse (1993)
Balada de Amor ao Vento (1990)

Temas frequentes de sua obra
Vivências de tempos difíceis, da esperança, do amor, da mulher e de uma África passada e presente, um país destruído, da miséria de seu povo, da superstição, dos rituais religiosos e da morte.
Moçambique
Guerra Colonial (1961 – 1964)
Guerra civil em Moçambique (1975-1992)

A Obra
TÍTULO:
Em entrevista a Gil Filipe no Jornal Notícias (maio de 2008), a escritora pontua: “Dizem umas vozes muito idosas (...) que os montes Namuli foram criados no ovo de uma perdiz. Então, é daí que achei formidável criar o título a partir desta mitologia e destas estórias de uma terra também formidável.”(CHIZIANE apud. BRAGA, 2008)

TEMAS ABORDADOS:
Especificamente, nesta obra levanta questões para reflexão sobre a realidade das sociedades africanas:

Relações entre dominados e dominadores;
Conflitos intra e inter-étnicos;
Choque de interesses do universo colonial, ou seja, mecanismos de sustentação e reprodução, dominação, coerção e exploração (racismo, assimilação, casamento prematuro, a prostituição infantil, conflitos de gerações, violência doméstica);
Loucura;
Diversos mitos de origem matriarcal africanos.

ESTRUTURA:
O romance é dividido em 35 capítulos, ora narrado em primeira pessoa, ora em terceira.


LINHAS GERAIS:
A narrativa traz a história de vida da mulher zambeziana, representada pelas personagens Serafina, Delfina, Maria das Dores e Maria Jacinta. No decorrer do romance constrói-se um discurso feminino, enfatizando o estado em que se encontravam as mulheres, principalmente durante a colonização; vistas apenas como objetos de consumo, privadas de individualidades. Entrelaçada com esta trama faz uma releitura da origem dos povos, da história da África, reforçando o papel feminino na criação humana.
Zambézia
A trama desenrola-se em Zambézia, província do centro-norte de Moçambique, onde Paulina Chiziane viveu durante anos e trabalhou como assessora da “Direções Provinciais da Mulher e Coordenação da Ação Social – DPMAS”, apesar de seus vastos recursos naturais e do seu potencial agrícola, registra um dos mais elevados índices de pobre¬za do país: “a maioria de sua população (86,5%) vive nas zonas rurais. O nível de pobreza é de 69,4%, afetando principalmente mulheres e crianças que vivem no campo” (UNFPA apud. BRAGA, 2006). Meninas e me¬ninos, a partir dos 10 anos, fazem os ritos de iniciação. Para as meninas, isso significa que já são aptas para casar, e o casamento precoce origina o abandono da escola, muitas vezes, antes de completarem o primeiro grau de ensino.
“Longe é a distância entre o teu percurso e o teu cordão umbilical. Longe é o útero da tua mãe de onde foste expulso para nunca mais voltar. É a distância para o teu próprio íntimo onde nem sempre consegues chegar. Longe é o além para onde muitos partem e deixam eternas saudades. O longe é gêmeo do perto, tal como o princípio é gêmeo do fim. Porque tudo muda na hora da meta. O ali será aqui, na hora da chegada. O futuro será presente. O amanhã será hoje.” (p.23)

“Quanto tempo dura uma memória? Podem os pés humanos percorrer o perímetro do mundo? Quantos passos se percorrem, em mais de vinte anos? Perder um filho é uma dor que mata. Perder três é algo que sepulta no mais profundo dos infernos.” (p.32)

“Quando passaram pelo oceano Índico, começaram a sentir vontades. De repousar. Ou de urinar. De pisar em terra firme e olhar para o mar. Talvez. Ou foram atraídos pelo maravilhoso canto das sereias. Atracaram. Descobriram que a terra era imensa, com hipopótamos, crocodilos, elefantes e muitos pretos. A terra tinha onze sereias. O’hipiti, que chamaram ilha de Moçambique. Nampula. Inhambane. Cabo Delgado. Zambézia. Maputo. Niassa. Tete. Gaza. Sofala. Manica. De todas as sereias, a Zambézia era a mais bela.” (p.62)
“Apreciava os casarões coloniais. Apartamentos. Prédios. Hotéis. A vida dos brancos é fantástica. Eles mataram as árvores, mataram os bichos e construíram cidades luminosas. Fascina-os a eletricidade, que torna as noites iluminadas apesar de ofuscar o brilho da lua. A imagem dos casarões antigos projecta um futuro de grandezas na sua mente e ela jura: terei a grandeza das sinhás e das donas, apesar de preta!” (p.77)

“Olha para as ruas. Raparigas da sua idade, filha dos negros assimilados, vão pra escola, aprumadas. Calçadas. Aprendem coisas que poderia aprender se o pai aceitasse mudar de vida. Mas a porta da escola fechou-se. Porque é negra e é bela. Donzela.” [...] (p.78)

“ – Por que não me fizeste com um branco, mãe? Felizes são as mulatas e as brancas, que nasceram com diamantes no corpo.” (p.84)

“Parto, olimpíada original onde mãe e filho se batem pela posse da vida. Neste combate, o bebê deve salvar a barreira dos olhos fechados e projetar-se no mundo vencendo todos os espetáculos. Desafiar o corpo da mãe. Torturá-lo. Rasgá-lo. Sangrá-lo. Derrubá-lo. Vencê-lo. Tirar-lhe a vida se for preciso.” (p.146)



“Moyo recebe o preço do amor na ponta do punhal que José dos Montes faz circular com arte sobre o seu corpo. O assassino recebe o preço da ansiedade, da dor e do desespero. Por isso retira por mal tudo o que for negado por bem. Com a ponta de um metal pesquisa materialidades. Relíquias de ouro e prata. Estrados, pedestais, coroas de louros de campeões. Descobre que a carcaça vazia não tinha nada, e que era tão igual à carcaça de um bovino. Com muito sangue, muito músculo, ossos, tripas, estrume. Simples matéria. Nem o sangue azul dos nobres. O cérebro, simples geleia, é menos consistente que o branco cérebro dos cocos. Decide então desvendar o mistério da vida. De que lado vinha o saber deste morto? Do coração, da cabeça ou do sexo? [...] Esgaravata o corpo inteiro, em vão. Em nenhuma célula encontrou um diamante. Nem uma pérola. Nem a imitação de uma estrela. Mas o corpo vivo tinha brilho e mistério. Nas suas buscas descobre o grande mistério da imaterialidade do ser e do saber: nada se constrói na morte de outrem. Envolveu-se numa tragédia inútil, condenando-se ao julgamento imaterial dos deuses na hora do juízo final.” (p.176)


“O meu estatuto é maior a partir de agora! Mãe de mulata. Concubina de um branco.” (p.186)
“O ser humano despe-se das suas roupas, mas nunca se despe dos seus atos. As imagens amargas estão gravadas nas córneas como tatuagens.” (p.189)

“[...] Na densa escuridão ouviu-se uma perdiz com forma de mulher cantando gurué, gurué! O mundo inteiro se espantou porque só as corujas cantam de noite. O canto da perdiz numa noite sem lua era mau agouro. [...] Era uma mulher com voz de perdiz, ululando triunfos no miradouro do mundo, dançando nua no ponto mais alto do monte. Espalhando pela atmosfera cheiro de erotismo, de sexo, cheiro de pornografia cafreal. Os olhos do mundo perguntaram ao mesmo tempo: - Quem és tu que galgas as encostas do monte com a leveza da luz e ululas triunfos nas montanhas de glória? – Eu sou Delfina, a rainha! [...] – Sou a primeira negra a viver na cidade alta, ao lado dos brancos. Estou no dilúvio da fortuna, agora sou rica, gurué, gurué!” (pp. 222 e 223)

“ - Comprei roupa para a Maria das Dores. – Fica para a Jacinta. – É grande. – Há-de usar quando crescer. – Delfina, por que tratas as crianças com esta diferença? – Soares, estes filhos são os meus e não os nossos. – Não sentiste as dores do parto, não sangraste por cada um destes filhos negros? – Tudo é diferente, não vês? O céu é diferente. As estrelas diferentes. O paraíso é diferente. Os mulatos nasceram com a lua no ventre. O mundo é deles. Por isso todos querem ser como eles. Os pretos branqueando-se e os brancos bronzeando-se.” (p.230)

“Quem não se ajoelha perante o poder do império não poderá ascender ao estatuto de cidadão. Se não conhece as palavras da nova fala jamais se poderá afirmar. Vamos, jura por tudo que não dirás mais uma palavra nesta língua bárbara. Jura, renuncia, mata tudo, para nasceres outra vez. Mata a tua língua, a tua tribo, a tua crença. Vamos, queima os teus amuletos, os velhos altares e os velhos espíritos pagãos. José faz o juramento perante um oficial de justiça, que mais se parece com um juramento à bandeira. Com pouca cerimônia, diante de um oficial meio embriagado.” (p.117)

“O colonialismo é macho, engravidou o ventre da tua mulher. Roubou o beijo da tua namorada e o sorriso dos teus filhos. Oh, o chicote do branco é uma carícia, não dói. O chicote verdadeiro é o que assobia nas mãos do teu irmão. Chapada de branco é esponja sobre a pele, não é nada. A mão do preto tem calos, cicatrizes, tatuagens, espinhos. Dura como ferro. Pica, fende, fere, quebra. E dói ainda mais porque é teu irmão. A injúria do branco é estrangeira, passageira. Mas a do teu irmão é espinhosa, o preto José passou para o lado dos brancos.” (pp. 132 e 133)

“Um homem é estrada. Guilhotina. Cela de uma prisão. Um par de algemas. Um fuzil, uma bala, uma farda militar, uma cova nas entranhas da terra. Um foguetão rasgando os caminhos do desconhecido. Com o nascimento do filho homem, a ilusão da continuidade. O apelido de uma família. Que importância tem um apelido, se o mundo é autônomo e o homem anônimo?” (p. 142)

“O homem ergue-se e segura Maria das Dores pela mão. Arrasta-a com firmeza até o interior da palhota com uma máscara de vitória no rosto. Já estava preparado, de armas limpas e posicionadas para o combate. Foi direto à ação sem palavras inúteis. Lança sobre ela toda a energia de um homem no auge da vida, pássaro sedento na frescura do lago. Mergulha. Era o criador amassando o barro, moldando uma escultura à medida da sua inspiração. Ser mulher é mesmo assim, não custa. Basta uma facada, uma dor e um grito: - Pai! – suspira Maria das Dores. Morre tudo naquele instante. A infância. A inocência. Apagam-se todas as estrelas em sinal de luto.[...] (pp.255 e 256)

“Do outro lado Delfina treme, encharcada de medo e suor. Ela ouve tudo. O grito da filha. Os gemidos do homem. O grunhido de uma bestialidade saciada. A princípio sorriu, pensando na dívida saldada. Maria das Dores era um bicho caçado, era pasto, sangrando no cativeiro. Mas também se entristece. Aquela filha já era mulher. Uma mulher que veio dela. Herdeira dos seus genes, do seu destino e dos seus amores endiabrados. Que aguardava o fim da tortura naquele ato de sexo, iniciação, sexo vingança, sexo negócio.” (p.256)

Referências Bibliográficas
Website: A voz da América. Entrevista: Paulina Chiziane - O Brasil e a África precisam se reencontrar. Acesso em: 20/11/2013, às 13h 25min. http://www.voaportugues.com/content/escritora-chiziane-brasil-mocambique/1681994.html

BRAGA, Juliana Primi. Entre dois mundos: um olhar sobre a loucura feminina nos romances O Alegre Canto da Perdiz, de Paulina Chiziane e A Louca de Serrano, de Dina Salústio. Universidade da USP. Acesso em: 21/11/2013 às 16h33min. http://periodicos.pucminas.br/index.php/cadernoscespuc/article/view/4686/4852

CHIZIANE, Paulina. O Alegre canto da perdiz. Portugal: Editorial Caminho, 2008.

MIRANDA, Maria Geralda de. O Alegre Canto da Perdiz. (resenha) Centro Universitário Augusto Motta / UNISUAM. Acesso em: 20/11/2013 às 14h15min. http://www.omarrare.uerj.br/numero12/maria.html

Website: A voz da América. Entrevista: Paulina Chiziane - O Brasil e a África precisam se reencontrar. Acesso em: 20/11/2013, às 13h 25min. http://www.voaportugues.com/content/escritora-chiziane-brasil-mocambique/1681994.html

Website: Moçambique para todos. Artigo: GOLÇALVES, Adelto. O feminismo negro de Paulina Chiziane. Acesso em 20/11/2013, às 16h05min. http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/2012/12/o-feminismo-negro-de-paulina-chiziane.html

Website: Rádio Voz da Rússia. Guerra civil retorna à Moçambique. Acesso em 21/11/2013, às18h25min. http://portuguese.ruvr.ru/2013_10_25/A-guerra-civil-retorna-a-Mocambique-9816/

Website: Rota das Letras – Festival Literário de Macau. Entrevista Paulina Chiziane, escritora moçambicana. Acesso em 21/11/2013, às 17h. http://portuguese.cri.cn/2021/2013/03/19/1s164056.htm

IMAGEM: Acesso em 20/11/2013, às 16h05min. http://literaciaafricanidades.blogspot.com.br/2010_12_01_archive.html
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