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Sentimento Dum Ocidental

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by

Miguel Cardoso

on 28 March 2014

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Transcript of Sentimento Dum Ocidental

FIG.1 Cesário Verde.
José Joaquim Cesário Verde nasceu no dia 25 de Fevereiro de 1855 em Lisboa, na Rua da Padaria, freguesia da Madalena, e foi baptizado na Sé no dia 2 de Junho do mesmo ano.
Biografia

Análise do poema
O Sentimento dum Ocidental - "Ave Maria"

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.


Cesário Verde
O Sentimento Dum Ocidental
E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!
Análise do poema (cont.)
TEMA:
Passeio pela cidade de Lisboa
Nas primeiras estrofes do poema, cujo título, “Ave Maria”, sugere o cair da tarde e o início da noite, momento no qual as pessoas se reunem para fazer as suas orações e o sujeito poético inicia a sua caminhada, fazendo uma descrição subjectiva da cidade, sem contudo deixar de transparecer as suas impressões interiores.
São evidentes as
referências a sentimentos e as sensações do sujeito poético:
"Há tal soturnidade, tal melancolia"; "Despertam-me um desejo absurdo de sofrer" (est.1); "O gás extravasado enjoa-me, perturba" (est. 2); "E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!" (est.7). A relação entre o espaço exterior e os sentimentos do sujeito poético são de causa-consequência: na 1ª estrofe - "Nas nossas ruas ao anoitecer / Há tal soturnidade, tal melancolia" (percepção subjectiva da realidade como causa);
O sujeito poético faz com que os andaimes se assemelhem às gaiolas e os carpinteiros se parecem com morcegos, retratando novamente a relação entre o mundo conhecido e o mundo construído pelo poeta.

O poema depara-se com transformações, as quais revelam uma cidade escondida pela escuridão e que com o surgimento da iluminação provocam impressões novas e o levam a criar imagens diferentes voltadas para a realidade.

A ideia de evasão está presente na 3ª estrofe - aí o poeta refere-se aos "que se vão", exclamando, no mesmo verso, "Felizes!". E logo de seguida,o pensamento do poeta "acompanha" imaginariamente essas partidas "Ocorrem-me em revista exposições, países: / Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!", estabelecendo um percurso mental por várias capitais, acabando por abranger todo o mundo, isto é, tudo o que não faz parte desta realidade que percorre fisicamente.


Análise do poema (cont.)
Sensações:
- sensações visuais: «as sombras», «de neblina», «reluz viscoso o rio», «cardume negro», «correndo com firmeza», «troncos varonis»
- sensações auditivas: «o bulício», «miam gatas»
- sensações olfactivas: «a maresia», «o gás extravasado enjoa-me», «o peixe podre»
Recursos Estilísticos
"As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos..."
Verso 14 e 15
Comparação
"...ao cair das badaladas"
Verso 15
Metáfora
Estrutura Externa
O poema é composto por decassílabos e três alexandrinos.

Embora abundem as frases independentes ou coordenadas que coincidem com um só verso, é muito mais elevado o número de frases constituídas por dois versos.

Rima interpolada e emparelhada, segundo o esquema rimático ABBA.
Estrutura Interna
4 secções;

11 quadras cada um;

Trata-se de um registo das “percepções e
impressões de um observador caminhando nas
ruas nocturnas da cidade”, desde o anoitecer (“Avé-Marias”), continuando na “Noite Fechada”, depois já com a iluminação pública acesa (“Ao Gás”) e, finalmente, altas horas da noite (“Horas Mortas”).

"Reluz, viscoso, o rio"
Verso 34
Sinestesia
"E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras"
Verso 35
Metáfora
Cenário:

"Nas nossas ruas", "o Tejo" (est. 1); "o céu", "os edifícios" (est.2); "ao fundo" (est. 3); "as edificações (...) emadeiradas" (est. 4); "por boqueirões, por becos", "pelos cais" (est. 5); "De um couraçado inglês", "em terra (...) alguns hotéis da moda", "Num trem de praça", "nas varandas", "Às portas" (est. 8); "os arsenais, as oficinas", "o rio" (est. 9).
Personagens:
"os que se vão" (est. 3); "os mestres carpinteiros" (est. 4); "os calafates" (est.5); "dois dentistas", "um trôpego arlequim", "os querubins do lar", "os lojistas" (est.8) ; "as obreiras", "as varinas" e "os filhos" (est. 9 e 10).

Análise do poema (cont.)
"Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia" (
visão impressionista
- sensações visuais, auditivas e olfactivas; "Que"- introduz oração consecutiva); "Despertam-me um desejo absurdo de sofrer" ( consequência - o desencadear de um sentimento, de um estado psicológico que, por sua vez, vai condicionar a forma como encara a realidade objectiva); na 2ª estrofe - "O céu parece baixo e de neblina (visão subjectiva) / O gás extravasado enjoa-me, perturba" (sensação física provocada pelo gás, provoca um estado de perturbação psicológica).
Análise do poema (cont.)
Na quinta e sexta estrofes, percebe-se que o sujeito poético, atingido pela maresia evoca as crónicas navais e seus heróis e faz menção ao couraçado inglês, o qual representava o domínio estrangeiro sobre Portugal.

Cesário Verde trabalha com tipos característicos da cidade e principalmente com o universo feminino, revelando sua posição e situação na época.
Em “Ave Maria” tem-se as mulheres trabalhadoras que às seis horas vão para casa como muitas outras.

Análise do poema (cont.)
Sob o ponto de vista estilístico, na estrofe nove, é possível verificar uma descrição dinâmica e impressionista através de: sugestão de movimento dada pelos verbos - "Vazam-se os arsenais e as oficinas", "apressam-se as obreiras", "Correndo com firmeza, assomam as varinas"; percepção sensorial - "Reluz, viscoso, o rio" (sinestesia), "E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras"; recurso à metáfora (elaborada a partir da associação entre as personagens e os seus "instrumentos" de trabalho - "cardume negro"; predominância de orações coordenadas assindéticas.
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