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Sobre "Antígona": Sófocles e Jean Anouilh

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Marcos Euzebio

on 30 April 2013

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Transcript of Sobre "Antígona": Sófocles e Jean Anouilh

Antígona Sófocles e Jean Anouilh A Cena das Leis Antígona Sófocles (497/6-406-5 a.C) "Antígona" (circa 440 a.C.): última parte da "Trilogia Tebana", com "Édipo Rei" e "Édipo em Colona".
A obra de Sófocles estabelece o mito: filha perfeita, irmã devotada.
Durante séculos, a imagem da filha que acompanha o pai desventurado foi a que teve mais fortuna.
Cristianização do mito. O "elogio" do humano, pelo Coro. Antropocentrismo "trágico"

"Há muitas coisas terríveis, mas nenhuma é mais terrível que o homem."
πολλὰ τὰ δεινὰ κοὐδὲν ἀνθρώπου δεινότερον πέλει.
(...)
"Palavras e pensamentos
fugazes como o ar e as leis
a si mesmo ensinou; e do gelo
e da chuva inóspitos,
de tudo se defende; e, assim armado,
nada do que pode acontecer receia.
(…)
Senhor de arte e de engenho que ultrapassam qualquer sonho,
[σοφόν τι τὸ μηχανόεν τέχνας ὑπὲρ ἐλπίδ᾽ ἔχων]
pode preferir tanto o mal como o bem."
(332-67) Os guardas voltam com Antígona: ela fizera as honras fúnebres.

Fala do guarda:
"Acusada, tudo ela confessa, tudo:
nem o crime de hoje, nem o de ontem nega.
E eu fico contente e triste ao mesmo tempo:
se é um prazer livrar-se a gente de um castigo,
é bem duro ter que desgraçar os outros.
Mas, confesso, sou daqueles, infelizmente,
que, salvando a pele, o resto pouco importa."
(434-440) A cena das leis:

Creonte pergunta porque Antígona não obedeceu às ordens que ele dera:

"Por que não foi Zeus quem a ditou, nem foi
a que vive com os deuses subterrâneos
- a Justica - quem aos homens deu tais normas.
Nem nas tuas ordens reconheço força
que a um mortal permita violar
aquelas não escritas e intangíveis leis dos deuses.
Estas não são de hoje, ou de ontem: são de sempre;
ninguém sabe quando foram promulgadas.
A elas não há quem, por temor, me fizesse
transgredir, e então prestar contas aos Numes. Bem sei, como não? que hei de morrer um dia
mesmo sem decreto teu; e se tombar,
morta antes do tempo,
então antes melhor;
para quem, como eu, vive entre tantos males,
como não será de só proveito a morte?
Para mim, morrer não é sofrer; seria
sofrimento, sim, se eu acaso deixasse
insepulto o que nasceu de minha mãe.
Isso me doeria. O resto não importa.
Posso parecer uma louca, talvez:
mais louco, porém, é o que me julga louca."
(450-470) A oposição Creonte-Antígona:

Antígona – Presa, que mais queres tu que a minha morte?
Creonte – Nada mais. Tendo isso, tenho o que desejo.
Antígona – O que esperas, pois? Não há palavra tua que me agrade ou
possa vir a agradar-me: como tudo o que eu disser te desagrada. Que mais
nobre glória poderia eu ter que a de dar à terra o corpo de um irmão?
Esses, que aí estão, todos me aplaudiriam, se não lhes travasse a língua a
covardia. Esta, entre outras, é a vantagem dos tiranos: dizer e fazer tudo o
que bem entendem.
Creonte – E o outro, que o matou, não era teu irmão?
Antígona – Sim, de um mesmo pai e de uma mesma mãe.
Creonte – Por que o ofendes pois, honrando ao outro impiamente?
Antígona – Não é o que diria o que está sepultado. Creonte – Sim, se ao ímpio rendes honra igual à dele. Antígona – Não era um escravo: era igual, era irmão. Creonte – Vinha contra a terra que o outro defendia. Antígona – Pouco importa: a lei da morte iguala a todos. Creonte – Mas não diz que o mau tenha o prêmio do justo. Antígona – Não será talvez piedade isso entre os mortos? Creonte – Mesmo morto, nunca é amigo um inimigo. Antígona – Não nasci para o ódio: apenas para o amor. [οὔτοι συνέχθειν, ἀλλὰ συμφιλεῖν ἔφυν.]
Creonte – Se amar é o que queres, vai amar os mortos! Enquanto eu viver, mulheres não governam.”
(p. 497-525). Ismênia quer acompanhar Antígona na morte:
ela nega-lhe esse "prêmio".

"O Hades bem conhece a culpada. Eu não sei
das amigas de palavras ser amiga."
[λόγοις δ᾽ ἐγὼ φιλοῦσαν οὐ στέργω φίλην.]
(543)

Creonte: vai mandar matar a noiva do próprio filho?
"Não lhe faltam terras férteis a lavrar." (569) Coro: elogio da eudaimonia.

"Felizes os que não provararam na vida a desgraça!
(…)
Amanhã, no futuro
como ontem, no passado,
valerá esta lei: nada entra
de grande na vida mortal sem sofrimento.
(…) Sabedoria é a ilustre
sentença que assim reza:
Um dia o mal parece bem
àquele que a a divindade
está levando à ruína."
(563, 612-614, 620-624). O conflito Creonte-Hemon:

Hemon apresenta-se como filho obediente.
Creonte: a tarefa do filho é obedecer o pai.

Isto, ó filho, é que hás de ter sempre em teu peito:
não opor-se nunca à vontade paterna.
Só por isso os homens querem procriar
e manter no lar filhos dóceis, que saibam
ir contra o inimigo e prestar ao amigo
a homenagem que prestam ao pai.
(…)
Nunca sacrifiques, filho, tais princípios
sónpelo prazer que uma mulher te dá;
lembra-te de que é sempre de gelo o abraço
de uma esposa má em nosso lar.
(…)
Renuncia, pois, a essa mulher perversa:
manda-a procurar um esposo no inferno".
(640-654) Dramaturgo que viveu no período do apogeu de Atenas, no século de Péricles e da expansão da sofística.
Antígona: obedece a Deus, não a Zeus.

Antígona: um tipo de Joana D'Arc...

Simone Weil: "A lei-não escrita a qual ela obedeceu nada mais é que o amor extremo, absurdo, que levou Cristo à cruz." (Escritos de Londres, 1942). A partir do século XIX, a jovem que se coloca contra o poder estabelecido passou a ser a descrição preferida da personagem.

A "cena das leis" retoma a um lugar que fora obscurecido anteriormente.

Gerard de Nerval: Antígona era uma bela narrativa de "resistência antiga ou moderna". "A cena das leis apresenta a luta sublime da consciência contra a força e a sabedoria contestável dos poderosos" (L'Artiste, 26 de maio de 1844) Hegel: Antígona e Creonte estão certos e errados.
As leis do sangue, as leis não-escritas não podem tudo. Do mesmo modo, as leis da vida pública não podem ser exclusivas. É preciso uma "conciliação trágica" entre elas (Estética, 1840).
Creonte reabilitado: uma Antígona "prussiana".

Maurice Barrès: "Que eu ceda ao prestígio de Antígona, não há mais sociedade (…). Depois dela, cada um de nós, ao fazer o que lhe passa pela cabeça, pode invocar as leis não-escritas (Le Voyage de Sparte, 1906)

Jean Cocteau: "O instinto me empurra sempre contra a lei. Essa é a razão secreta pela qual traduzi Antígona." (Carta a Jacques Maritain, 1926).

Antígona "anarquista". Jean Anouilh, 1944: uma transcriação de Antígona, sem a cena das leis e sem Tirésias. Dessacralização da tragédia, Antígona como menina, elogio da infância.

Creonte: um burocrata perdido em suas tarefas, um adulto, ou seja, um infeliz. Um líder que precisa enfrentar "a realidade das coisas", mesmo que isso o faça sujar as mãos.

A Antígona de Anouilh: a grande negadora. Nova descrição da heroína: Antígona é quem diz "Não!"
Prenúncio do "É proibido proibir!" dos anos
sessenta, e do existencialismo pós II Guerra.

Os adultos são os que dizem "Sim", são os que vivem uma vida inautêntica, mergulhados na facticidade (Heidegger), são os homens "de má-fé", que ignoram a liberdade radical humana.

Antígona: uma tragédia sem a presença dos deuses. Não há maravilhas na narrativa. A única "maravilha", em sentido ambíguo, é o homem. Antígona e Ismênia conversam. A peça começa sem o "párados", a intervenção do coro.
Éteocles deve direito à sepultura. Polinices, não.
Antígona pretende cumprir os ritos fúnebres.
Oposição: a coragem/insensatez de Antígona, a covardia/sabedoria de Ismênia.
Antígona: terá ódio pela irmã --->
"Nada iguala a glória de uma bela morte." (97)
Coro: explica a luta e a morte dos dois irmãos e
anuncia a chegada de Creonte. Creonte é um patriota: "Aquele que ousa sobrepor um amigo à pátria, esse eu julgo um nulo" (182-183)

Sua determinação: "Nunca em minha estima hão de ter direito igual os maus e os justos" (208)

Um guarda chega e avisa: alguém fez o que fora proibido. Polinices recebeu as honras fúnebres.

Creonte: o dinheiro corrompeu o homem.
"Não há planta mais daninha que o dinheiro/ entre os homens: ele é que subverte o Estado, que arrebata ao lar o chefe de família/ ele é que fascina e perverte os bons, e os induz, enfim, à desonestidade" (295-9) O homem e a "razão" (phrén, phrénos):

"Pai, os deuses deram a razão (phrénas) ao homem
como o maior bem dentre quantos existem.
Ora, não direi, nem saberei dizê-lo,
que, falando assim, falaste certo ou não.
É que outros também poderão estar certos.
(…)
Não te obstines, pois, nesta única atitude:
que tu falas certo, e certo é só o que dizes.
O que pensa ser o único a ter razão,
[ὅστις γὰρ αὐτὸς ἢ φρονεῖν μόνος δοκεῖ]
ter na alma e na língua o que ninguém mais tem,
[ἢ γλῶσσαν, ἣν οὐκ ἄλλος, ἢ ψυχὴν ἔχειν]
esse, posto às claras, tem no fundo o vácuo.
Para um homem, seja um sábio, não é nódoa
sempre aprender mais, ou mudar de opinião.
(683-711) Creonte não aceita ser corrigido por um jovem:

Creonte: Somos nós, então, que, na idade em que estamos temos de aprender com gente dessa idade?
Hemon: O que é justo, sim. Se sou moço, o que vale
são meus atos: não o tempo que vivi.
(…)
Creonte: Não foi crime, acaso, aquilo que ela fez?
Hemon: O que o povo diz em Tebas é que não.
(…)
Creonte: Devo governar pela opinião dos outros?
Hemon: Não há Estado algum que só pertença a um homem.
Creonte: A cidade, então, não é de quem governa?
Hemon: Talvez, se esse rei governasse um deserto.
(726-739)

Ameaça a Creonte: Hemon afirma que Antígona "não morrerá sozinha". Antígona à caminho da morte: lamenta seu destino. Ambiguidade (antes, desejara a morte).
"Humanidade" de Antígona. "Ethos" feminino.

"Vêde, cidadãos de minha própria pátria:
vêde-me partindo
para a última viagem.
(…)
Sem que um hino nupcial antes me houvesse
celebrado; sim, o Aqueronte é meu noivo.
(…)
E fui presa e vou - sem haver conhecido
nem o leito, nem o cântico nupcial,
nem o esposo, nem os filhos por criar."
(815, 916-920) A Chegada de Tirésias.

Tirésias: adivinho e sacerdote. Percebeu o mau-agouro no vôo das aves e nos sacrifícios que não ardiam.
Creonte deve recuar de sua decisão.

Tirésias: "Haverá quem compreenda (…) que a sabedoria (euboulia) é o maior dos bens."
Creonte: Como a insensatez (mè phroneîn) ainda é o maior dos males.
Tiresias: E este, justamente, é o mal de que padeces."
(1048-1052)

A impiedade de Creonte: enterrou uma pessoa viva, e mantém insepulta uma pessoa morta.
Inversão da lei natural, da ordem não-escrita.

Tirésias: "Não tens, e nem tem os deuses tal direito." (1072)

Creonte cede: "Penso que o melhor ainda é passar a vida respeitando e honrando as boas leis" (1113-1114). Um mensageiro chega ao palácio:
Creonte, agora, é um homem desgraçado.

"A fortuna eleva e a fortuna derruba,
incessantemente, o infeliz e o feliz.
Não há quem prediga a constância das coisas.
Creonte, ainda há pouco, era digno de inveja (…)
Pois perdeu tudo isso. E quem perde a alegria [ἡδονή]
esse, para mim, é um homem que não vive:
é um cadáver animado, nada mais."
[1158-1167] Chega Eurídice, mulher de Creonte e mãe de Hemon:
quer saber o que houve.

O mensageiro diz: Creonte fora libertar Antígona, e a encontrara morta nos braços de Hemon:

"O fundo do antro, eis o que vimos:
ela, estrangulado por um laço feito
com seu véu de linho enrolado ao pescoço;
e ele que, sobre ela atirado, abraçava-a
chorando sozinho a sua noiva morta,
a ordem de seu pai e o pobre amor desfeito"
(1220-1225) Creonte pede que o filho saia dali. Hemon cospe-lhe na cara:

"Mas o filho, olhando o firme e cheio de ódio,
cospe-lhe na cara e, sem lhe dar resposta,
saca a espada de dois gumes e erra o golpe
contra o pai que foge. E então, desesperado,
volta o seu furor contra si mesmo: atira-se
sobre a arma que até a metade entra em seu peito.
(…)
Morto junto à morta, enlaçados assim
cumprem o ritual de suas núpcias no Hades,
como exemplo aos homens de que para os homens
o maior dos males é a insensatez [ἀβουλίαν]."
(1231-1243) Eurídice sai.
Coro: "Tenho medo dos grandes silêncios
como tenho medo dos clamores vãos."
(1251-1252)

Creonte entra com o corpo do filho.
Outro mensageiro entra e avisa que Eurídice se matou, maldizendo Creonte.

Mensageiro:
"Essa, ao pé do altar, com uma lâmina afiada,
apagou seus olhos (…)
contra ti imprecou todo o mal, pois mataste o seu filho."
(1300-1305) Creonte: deseja a morte para si.
Mas ainda isto exige ação.

Creonte:
"Venha a mim a mais bela das sortes
a que apague minha última luz:
a melhor! Eia! Eia!
E que nunca mais veja outro dia!"

Coro:
"Isso é apenas futuro. O presente exige
atos. O futuro espera quem o espera."

(…)
Creonte: (…)
"Já tudo ao redor de mim é ruína.
Tudo oscila.
Abateu-me um destino implacável." Coro:
"Há muito que a sabedoria [phronein] é a causa
primeira de ser feliz [eudaimonia]. Nunca aos deuses
ninguém deve ofender. Aos orgulhosos
os duros golpes, com que pagam suas
orgulhosas palavras,
na velhice ensina a ser sábios."
(1329-1350)

FIM DA ANTÍGONA DE SÓFOCLES A Antígona de Jean Anouilh Jean Anouilh (1910-1987)

Antígona: criança, desejo de pureza, ânsia por uma vida autêntica. Rebeldia. Enterra o irmão com a pazinha de areia com que brincavam na praia, quando crianças.

Ela não se opõe ao edito de Creonte em respeito às leis divinas, mas por sua própria vontade.

Creonte: não é um sujeito obstinado, não é um amante do poder. É apenas um administrador. Na verdade, não quer problemas com Antígona.

Creonte: ordem e aparência. Antígona: transgressora.

1944: apresentada sob o regime de Vichy. Ambiguidade: Antígona representa a Resistência Francesa, e Creonte um Marechal Pétain não tão mau?
Apresentação de Antígona:
"É aquela magrinha que está sentada ali." (p. 29). Ela não é bonita. Bonita é Ismênia.

Antígona volta dos ritos fúnebres que fez para Polinices. Sua ama a interroga sobre onde esteve. Ela diz que olhava o jardim vazio:

Antígona: "O jardim ainda estava dormindo. Eu o peguei de surpresa, ama. Eu o vi sem que ele desconfiasse. É lindo um jardim que ainda não pensou nos homens" (p.33) Antígona e Ismênia: a mulher precoce e a menina que se recusa a crescer.

Ismênia: "Sua felicidade está aqui pertinho de você e só falta pegá-la. Você está noiva, é jovem, é bonita.
Antígona: Não, não sou bonita.
Ismênia: Bonita como nós, não, mas de outro jeito. Você bem sabe que é você que os moleques encaram na rua; que é você que as meninas olham passar, de repente caladas, sem poder desgrudar os olhos de você até que tenha virado a esquina."
(p. 45) Antígona e Hemon:

Antígona: Desculpe, Hemon, por nossa briga de ontem à noite e por tudo o mais. Eu estava errada. Eu imploro que me perdoe.
Hemon: Você bem sabe que, mal você tinha batido a porta, eu já tinha perdoado. Seu perfume ainda estava lá e eu já tinha perdoado.
(…)
Antígona: Você me perguntou assim que chegou porque eu tinha vindo com um vestido de Ismênia, seu perfume e seu batom. Era uma bobagem. Não acreditava que você me desejasse realmente e tinha feito tudo isso para ser um pouco como as outras meninas, para que você me desejasse.
Hemon: Era por isso?
Antígona: Era. E você riu e nos brigamos e meu mau humor foi maior, eu saí. Mas eu fui até você para que você me possuísse ontem à noite, para que eu fosse sua mulher antes. (…) Eu queria ser tua mulher assim porque eu te amo assim - isso será terrível para você, ai, meu querido, perdão! - que eu nunca, nunca poderei me casar com você.
(p. 50, 55-56) A confissão de Antígona:

"Sim, fui eu. Com uma pazinha de metal que servia para fazer castelos de areia na praia, durante as ferias. Era justamente a pa de Polinices. Ele tinha gravado o nome dele no cabo." (p. 69) Creonte tenta dar um jeito na situação:

Creonte: Você contou seu intento a alguém?
Antígona: Não.
Creonte:Você encontrou alguma pessoa no caminho?
Antígona: Não, ninguém.
Creonte: Tem certeza.
Antígona: Tenho.
Creonte: Então escute: você vai voltar para seus aposentos, deitar-se, dizer que está doente, que desde ontem você não saiu. Sua ama confirmará tudo. Eu mandarei sumirem com esses três homens.
Antígona: Para quê? Uma vez que o senhor sabe muito bem que vou começar de novo.

(Silêncio. Eles se olham.)

Creonte: Por que você tentou enterrar seu irmão?
Antígona: Porque era meu dever.
Creonte: Mas você sabia que eu tinha proibido.
Antígona (lentamente): Era meu dever mesmo assim. Os que não são enterrados erram eternamente sem jamais encontrar descanso. Se quando ainda era vivo meu irmão tivesse voltado esgotado de uma caçada, eu lhe teria levado seus chinelos, teria feito sua comida, teria preparado sua cama. Hoje, Polinices encerrou a caçada dele. Ele volta para a casa onde meu pai e minha mãe, e Etéocles também, o estão esperando. Ele tem direito ao descanso eterno."
(p. 72) Creonte é um daqueles "que dizem sim":

Antígona: O senhor é odioso!
Creonte: Sim, minha pequena. É a profissão que assim o exige. O que podemos discutir é se é preciso fazê-lo ou não. Mas se fazemos é necessário fazer assim.
Antígona: E por que o senhor faz?
Creonte: Um dia de manhã eu acordei rei de Tebas. E Deus é testemunha do quanto eu quis mais da vida do que ser poderoso…
Antígona: Seria preciso dizer não, então!
Creonte: Realmente, eu poderia. Mas me senti de repente como um trabalhador que recusa uma tarefa. Isso não me pareceu correto. E eu disse sim.
Antígona: Bem, então pior para o senhor. Eu não disse sim. A sua política, a sua necessidade, as suas desculpas esfarrapadas fariam o que comigo? Eu ainda posso dizer "não" a tudo de que não gosto e pagar pelos meus atos. E o senhor, com sua coroa, com seus guardas, com toda a sua parafernália, pode apenas me matar porque disse "sim".
(…)
Creonte: Então tenha piedade de mim e não morra. O cadáver de seu irmão que apodrece sob minha janelas é o preço para que a ordem reine em Tebas. Meu filho ama você. Não me obrigue a pagar com você também. Já paguei o bastante.
Antígona: Nada disso! O senhor disse "sim". O senhor nunca mais vai parar de pagar!
(p. 80-82) O valor da vida

Creonte: Nada tem mais valor que a vida. E você ia desperdiçá-la. Entendo você. Se eu tivesse vinte anos faria como você. (…) A vida não é o que você acha que ela é. É uma água que os jovens deixam escoar entre suas mãos abertas sem saber. Feche suas mãos, feche suas mãos depressa. Segure-a. Você vai ver; ela se tornará uma coisinha sólida e simples que comemos aos pouquinhos sentados ao sol. (…) Você ainda vai me desprezar, mas descobrir isso, você verá, é a irrisória consolação do envelhecer; talvez a vida não seja exatamente a felicidade."
(p.90) Antígona e a ânsia pela vida plena

Antígona: O senhor me enoja com essa sua felicidade! Com sua filosofia de vida de que é preciso amar custe o que custar. Até parece aqueles cães que abanam o rabo a todos os que encontram. E é esse pequeno quinhão para cada dia, se não formos muito exigentes. Quanto a mim, quero tudo, e agora - e que seja inteiro - ou então, nada feito! Não ser modesta e me contentar com um pedacinho caso eu tenha me comportado bem. Quero garantias de tudo aqui e agora e que isso seja tão bonito como quando eu era criança - ou então morrer.
(p. 92-93) Creonte e Hemon

Coro: Será que não se pode ganhar tempo, deixá-la fugir amanhã?
Creonte: A multidão já esta sabendo, ela está berrando ao redor do palácio. Não posso.
Hemon: Pai, a multidão não é nada. O senhor é quem manda.
Creonte: Sou o senhor dela antes da lei. Não depois.
Hemon: Pai, sou seu filho, você não pode deixar que a tirem de mim.
(…)
Creonte: Você terá de aceitar, Hemom. Cada um de nós tem um dia, mais ou menos triste, mais ou menos distante, em que se deve enfim aceitar ser um homem. O seu dia chegou. E aí está você diante de mim com essas lágrimas no canto dos olhos e seu coração em pedaços - meu menino, pela última vez… Daqui a pouco, quando você tiver ultrapassado, quando você tiver vencido esse umbral, tudo estará acabado.
(…)
Hemon: Pai, não é verdade! Não é você, não é hoje! Nós não estamos os dois ao pé desse muro onde é preciso apenas dizer sim. Você ainda é poderoso como quando eu ainda era criança. Ah, eu lhe suplico, pai, eu admiro você, eu ainda admiro você! Eu vou ficar sozinho demais e o mundo ficará muito despido se eu não puder mais admirar você.
Creonte: Nós estamos todos sozinhos, Hemon. O mundo está despido. E você já me admirou por tempo demais. Olhe para mim, isso é tornar-se um homem, ver o rosto de seu pai face a face um dia. Creonte diante da morte de Antigona, Hemon e Eurídice:

Creonte: Finalmente mandei deitá-los um ao lado do outro! Eles agora estão lavados e descansados. Eles estão apenas um pouco pálidos, mas tão calmos. Como dois amantes no dia seguinte à primeira noite. Acabou para eles.

O coro: Não para você Creonte. Ainda lhe falta saber algo. Eurídice, a rainha, sua esposa…

Creonte: Aquela boa mulher que sempre está falando de seu jardim, de suas compotas, de seus tricôs, de seus eternos tricôs para os pobres. É estranho como os pobres tem essa eterna necessidade de tricôs. Como se eles só precisassem de tricôs…

O coro: Os pobres de Tebas sentirão frio nesse inverno, Creonte (…). Creonte: Ela também. Todos eles estão dormindo. Tudo bem. O dia foi duro. Como deve ser bom poder dormir.
Coro: E você está sozinho agora, Creonte.
Creonte: Bem sozinho, sim. (Silêncio. Ele põe sua mão no ombro de seu pajem). Menino…
Pajem: Senhor?
Creonte: Eu vou dizer para você. Os demais não sabem; estamos aqui, diante da obra, não podemos, no entanto, cruzar os braços. Dizem que é um trabalho sujo, mas se não o fizermos, quem irá fazê-lo?
Pajem: Não sei, senhor.
Creonte: É claro que você não sabe. Você tem sorte! O que seria preciso é nunca saber. Você quer realmente ser grande?
Pajem: Ah, Isso sim, senhor!
Creonte: Você é louco, menino. Não deveríamos nunca ser grandes. (A hora soa ao longe). Cinco horas. O que temos mesmo hoje às cinco horas?
Pajem: Reunião do conselho, senhor.
Creonte: Bom, se temos reunião do Conselho, menino, devemos comparecer.

(p. 113-114). O Enredo O Enredo Antígona é a que diz "não".
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