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Barroco

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by

Alexandre Martinês

on 25 November 2013

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Transcript of Barroco

Como sempre ocorre no trânsito entre estéticas literárias contíguas, a arte barroca nasceria do movimento cultural imediatamente anterior [...] por nítida bipolaridade, é fácil compreender o quanto lhe deve a nova corrente literária: o bifrontismo renascentista, configurado pela coexitência de valores medievo-cristão e novidades pagãs e terrenas [...] por desenvolvimento interno e progressiva conscientização
MASSAUD MOISÉS
O Barroco representa não um declínio, mas o desenvolvimento natural do Classicismo renascentista para um estilo posterior; esse estilo, diferentemente do clássico, já não é táctil porém visual, isto é, não admite perspectivas não visuais, e não revela sua arte, mas a dissimula. A mudança executa-se consoante uma lei interna e os estágios de seu desenvolvimento em qualquer obra podem ser demonstrados graças a cinco categorias.
1 linear x pictória
2 plano x profundidade
3 coordenada x subordinada
4 fechado x aberto
5 claridade absoluta x claridade relativa
Afrânio Coutinho
A paisagem e os objetos afetam o artista barroco pela multiplicidade dos seus aspectos mais aparentes, logo cambiantes, com os quais a imaginação estética vai compondo a obra em função de analogias sensoriais.
ALFREDO BOSI
As Aparências Enganam
Elis Regina

As aparências enganam,
aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio
se irmanam na fogueira das paixões
Os corações pegam fogo e depois
não há nada que os apagues
e a combustão os persegue,
as labaredas e as brasas são
O alimento, o veneno e o pão, o vinho seco, a recordação
Dos tempos idos de comunhão, sonhos vividos de conviver
GREGÓRIO DE MATOS
ESTÉTICA
DO
BARROCO
Cultismo - Gongorismo
Conceptismo - Quevedismo
Dualidade: claro x escuro
Carnavalização
Carne X Espírito
Disseminação e Recolha
Espelhismo
Chave de ouro
Efemeridade
Cultismo
Estilo: descritivo
elementos sensoriais
atribui semelhanças

sinestesia
metáfora
antítese
paradoxo
hipérbato
"O todo sem a parte não é o todo;
A parte sem o todo não é parte;
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo o todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica todo."

(Gregório de Matos)
CONCEPTISMO - QUEVEDISMO
Estilo: Dissertativo
desenvolver um conceito

Dialética de Hegel:
Tese / Antitese / Síntese

Silogismo
Sofisma
"Quem teme o inferno pelas penas do fogo, teme-o por amor de si; quem teme o inferno pelas injúrias de Deus, teme-o por amor de Deus; e quem teme o inferno não por amor de Deus, senão por temor de si, vai para o inferno: porém quem teme o inferno não por amor de si, senão por amor de Deus, não o pode Deus lançar no inferno."
(Pe. A. Vieira)
CLARO X ESCURO
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.
O Amor é finalmente
Um embaraço de pernas,
Uma união de barrigas,
Um breve tremor de artérias.
Uma confusão de bocas,
Uma batalha de veias,
Um reboliço de ancas,
Quem diz outra coisa, é besta
CARNAVALIZAÇÃO
Pequei Senhor: mas não porque hei pecado,
Da vossa Alta Piedade me despido:
Antes, quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida, já cobrada,
Glória tal, e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra História,

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada;
Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória
É a vaidade, Fábio, nesta vida,
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.

É planta, que de abril favorecida
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida

É nau enfim, que em breve ligeireza
Com a presunção de Fênix generosa,
Galhardias apresta, alento preza:

Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?
disseminação e recolha
CHAVE DE OURO
efemeridade
Que falta nesta cidade?................Verdade
Que mais por sua desonra?...........Honra
Falta mais que se lhe ponha..........Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,numa cidade, onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.

Quem a pôs neste socrócio?..........Negócio
Quem causa tal perdição?.............Ambição
E o maior desta loucura?...............Usura.

Notável desventurade um povo néscio, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura.
ESPELHISMO
CARNE X ESPÍRITO
1636 - 1696
Tem-se na produção literária de Gregório de Matos a sátira mais irreverente que alterna com a contrição do poeta devoto; a obscenidade do capadócio mal se casa com a pose idealista de alguns sonetos petrarquizantes. Mas essas contradições não devem intrigar quem conhece a ambiguidade da vida moral que servia de fundo à educação ibérico-jesuíta. O desejo de gozo e de riqueza são mascarados formalmente por uma retórica nobre e moralizante, mas afloram com toda brutalidade nas relações com as classes servis que delas saem mais aviltadas.
ALFREDO BOSI
ESTILO
POESIA

SACRA

SATÍRICA

ERÓTICA - FESCENINA

GRACIOSA

FILOSÓFICA

ENCOMIÁSTICA
A JESUS CRUCIFICADO, ESTANDO O POETA PARA MORRER

Meu Deus, que estais pendente de um madeiro,
em cuja lei protesto de viver,
em cuja santa lei hei de morrer
animoso, constante, firme e inteiro:

neste lance, por ser o derradeiro,
pois vejo a minha vida anoitecer,
é, meu jesus, a hora de se ver
a brandura de um pai, manso cordeiro.

Mui grande é o vosso amor e o meu delito,
porém pode ter fim todo o pecar,
e não o vosso amor que é infinito.

Esta razão me obriga a confiar,
que, por mais que pequei, neste conflito
espero em vosso amor me salvar.
POESIA SACRA
À cidade da Bahia

Triste Bahia! oh! quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mim abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh! Se quisera Deus que, de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!
POESIA SATÍRICA
POESIA GRACIOSA
À mesma D. Ângela

Anjo no nome, Angélica na cara,
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e anjo florente,
Em quem, senão em vós se uniformara?

Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?

Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que tão bela e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, Que me tenta, e não me guarda.
POESIA ERÓTICA - FESCENINA
Teve o poeta notícias que Sebastião da Rocha Pitta, sendo rapaz, se estragava com Brites

Brás pastor inda donzelo,
querendo descabaçar-se
viu Betica a recrear-se
vinda ao prado de amarelo:
e tendo duro o pinguelo,
foi lhe metendo já nu,
fossando como Tatu:
gritou Brites, inda bem,
que tudo sofre,
quem tem rachadura junto ao cu.”
POESIA FILOSÓFICA
Defendendo o Bem Perdido
O bem que não chegou a ser possuído, Perdido causa tanto sentimento,
Que, faltando-lhe a causa do tormento, Faz ser maior tormento o padecido.

Sentir o bem logrado, e já perdido,
Mágoa será do próprio entendimento; Porém, o bem que perde um pensamento Não deIxa a outro bem restituído.

Se o lôgro satisfaz a mesma vida
E, depois de logrado, fica engano
A falta que o bem faz em qualquer sorte.

Infalível será ser homicida
O bem que sem ser mal, motiva o dano;
O mal que sem ser bem, apressa a morte.
b A rr O c O
PADRE aNTôNio VieiRa
1608 - 1697
ESTILO
Sebastianismo
Dialética
Oratória
TeMaS
Luta pela liberdade dos índios
Críticas socias e políticas
Império e Fé
Existe um Vieira brasileiro, um Vieira português e um Vieira europeu, e essa riqueza de dimensões deve-se não apenas ao caráter suprenacional da Companhia de Jesus que ele tão bem encarnou, como à sua estatura humana em que não me parece exagero reconhecer traços de gênio.
No fulcro da personalidade do Padre Vieira estava o desejo da ação. A religiosidade, a sólida cultura humanística e a perícia verbal serviam, nesse militante incansável, a projetos grandiosos, quase sempre quiméricos, mas todos nascidos da utopia contrarreformista de uma Igreja Triunfante na Terra, sonho medieval de um Império português e missionário tornaria afinal realidade.
ALFREDO BOSI
sermões
sermões
eSTRuTuRa
TeMa:

motivos nos quais se fundamenta o sermão.

iNTRoiTo:
antecipação da estrutura e da sequência de ideias. Relaciona a passagens bíblicas.

iNVoCaÇão:

pedido de inspiração, feito geralmente à Virgem Maria.

aRGuMeNTo:

parte do sermão em que se procura provar, com argumentos as ideias fundamentais.

PeRoRaÇão:

fechamento do sermão, no qual o ensinamento principal é resgatado e os fiéis são conclamados a praticá-lo.
pÉrOlA dEstOrcIdA
pÉrOlA dIstOrcIdA
sIlOgIsmO 2ª fIgUrA
grEgÓrIO dE mAtOs E gUErrA
ÍndIOs
Pe. Vieira
cOntrArrEfOrmA
SEXAGÉSIMA
SANTO ANTÓNIO AOS PEIXES
BOM LADRÃO
MANDATO
BOM SUCESSO DAS ARMAS DE PORTUGAL CONTRA AS DE HOLANDA
DOMINGA DA QUARESMA
EPIFANIA
ROSÁRIO
QUARTA-FEIRA DE CINZAS
TEMA
Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris.
Lembra-te homem, que és pó, e em pó te hás de converter.
I
O pó futuro, em que nos havemos de converter, é visível à vista, mas o pó presente, o pó que somos, como poderemos entender essa verdade? A resposta a essa dúvida será a matéria do presente discurso.
INTROITO
Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para crer: outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura, mas a futura veem-na os olhos, a presente não a alcança o entendimento. E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es, tu in pulverem reverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de converter.
Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura. O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, veem-no os olhos; o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o veem, nem o entendimento o alcança. Que me diga a Igreja que hei de ser pó: In pulverem reverteris, não é necessário fé nem entendimento para o crer. Naquelas sepulturas, ou abertas ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há é o nada que havemos de ser: tudo pó. Vamos, para maior exemplo e maior horror, a esses sepulcros recentes do Vaticano. Se perguntardes de quem são pó aquelas cinzas, responder-vos-ão os epitáfios, que só as distinguem: Aquele pó foi Urbano, aquele pó foi Inocêncio, aquele pó foi Alexandre, e este que ainda não está de todo desfeito, foi Clemente. De sorte que para eu crer que hei de ser pó, não é necessário fé, nem entendimento, basta a vista.
Mas que me diga e me pregue hoje a mesma Igreja, regra da fé e da verdade, que não só hei de ser pó de futuro, senão que já sou pó de presente: Pulvis es? Como o pode alcançar o entendimento, se os olhos estão vendo o contrário? É possível que estes olhos que veem, estes ouvidos que ouvem, esta língua que fala, estas mãos e estes braços que se movem, estes pés que andam e pisam, tudo isto, já hoje é pó: Pulvis es? Argumento à Igreja com a mesma Igreja: Memento homo. A Igreja diz-me, e supõe que sou homem: logo não sou pó
INVOCAÇÃO
O homem é uma substância vivente, sensitiva, racional. O pó vive? Não. Pois como é pó o vivente? O pó sente? Não. Pois como é pó o sensitivo? O pó entende e discorre? Não. Pois como é pó o racional? Enfim, se me concedem que sou homem: Memento homo, como me pregam que sou pó: Quia pulvis es? Nenhuma coisa nos podia estar melhor que não ter resposta nem solução esta dúvida. Mas a resposta e a solução dela será a matéria do nosso discurso. Para que eu acerte a declarar esta dificultosa verdade, e todos nós saibamos aproveitar deste tão importante desengano, peçamos àquela Senhora, que só foi exceção deste pó, se digne de nos alcançar graça. Ave Maria.
ARGUMENTAÇÃO
O homem foi pó e há de ser pó, logo é pó, pois tudo o que vive não é o que é, é o que foi e o que há de ser. O exemplo da vara de Arão que se converte em serpente. Deus se definiu a Moisés como aquele que é o que é, porque só ele é o que foi e o que há de ser. Se alguém puder afirmar o mesmo de si próprio também é digno de ser adorado.
Enfim, senhores, não só havemos de ser pó, mas já somos pó: Pulvis es. Todos os embargos que se podiam pôr contra esta sentença universal são os que ouvistes. Porém como ela foi pronunciada definitiva e declaradamente por Deus ao primeiro homem e a todos seus descendestes, nem admite interpretação nem pode ter dúvida. Mas como pode ser? Como pode ser que eu que o digo, vós que o ouvis, e todos os que vivemos sejamos já pó: Pulvis es? A razão é esta. O homem, em qualquer estado que esteja, é certo que foi pó, e há de tornar a ser pó. Foi pó, e há de tornar a ser pó? Logo é pó. Porque tudo o que vive nesta vida, não é o que é: é o que foi e o que há de ser. Ora vede.
No dia aprazado em que Moisés e os magos do Egito haviam de fazer prova e ostentação de seus poderes diante do rei Faraó, Moisés estava só com Arão de uma parte, e todos os magos da outra. Deu sinal o rei, mandou Moisés a Arão que lançasse a sua vara em terra, e converteu-se subitamente em uma serpente viva e tão temerosa, como aquela de que o mesmo Moisés no deserto se não dava por seguro. Fizeram todos os magos o mesmo: começam a saltar e a ferver serpentes, porém a de Moisés investiu e avançou a todas elas intrépida e senhorilmente, e assim, vivas como estavam, sem matar nem despedaçar, comeu e engoliu a todas. Refere o caso a Escritura, e diz estas palavras: Devoravit virga Aaron virgas eorum: a vara de Arão comeu e engoliu as dos egípcios (Ex 7, 12) — Parece que não havia de dizer: a vara, senão: a serpente.
A vara não tinha boca para comer, nem dentes para mastigar, nem garganta para engolir, nem estômago para recolher tanta multidão de serpentes. A serpente, em que a vara se converteu, sim, porque era um dragão vivo, voraz e terrível, capaz de tamanha batalha e de tanta façanha. Pois, por que diz o texto que a vara foi a que fez tudo isto, e não a serpente? Porque cada um é o que foi e o que há de ser. A vara de Moisés, antes de ser serpente, foi vara, e depois de ser serpente, tornou a ser vara; a serpente que foi vara e há de tornar a ser vara não é serpente, é vara: Virga Aaron. É verdade que a serpente naquele tempo estava viva, e andava, e comia, e batalhava, e vencia, e triunfava, mas como tinha sido vara, e havia de tornar a ser vara, não era o que era: era o que fora e o que havia de ser: Virga.
PERORAÇÃO
Cristãos e senhores meus, por misericórdia de Deus ainda estamos em tempo. É certo que todos caminhamos para aquele passo, é infalível que todos havemos de chegar, e todos nos havemos de ver naquele terrível momento, e pode ser que muito cedo. Julgue cada um de nós, se será melhor arrepender-se agora, ou deixar o arrependimento para quando não tenha lugar, nem seja arrependimento. Deus nos avisa, Deus nos dá estas vozes; não deixemos passar esta inspiração, que não sabemos se será a última. Se então havemos de desejar em vão começar outra vida, comecemo-la agora: Dixi: nunc caepi [23].
Comecemos de hoje em diante a viver como quereremos ter vivido na hora da morte. Vive assim como quiseras ter vivido quando morras. Oh! que consolação tão grande será então a nossa, se o fizermos assim! E pelo contrário, que desconsolação tão irremediável e tão desesperada, se nos deixarmos levar da corrente, quando nos acharmos onde ela nos leva! É possível que me condenei por minha culpa e por minha vontade, e conhecendo muito bem o que agora experimento sem nenhum remédio? É possível que por uma cegueira de que me não quis apartar, por um apetite que passou em um momento, hei de arder no inferno enquanto Deus for Deus? Cuidemos nisto, cristãos, cuidemos nisto. Em que cuidamos, e em que não cuidamos? Homens mortais, homens imortais, se todos os dias podemos morrer, se cada dia nos imos chegando mais à morte, e ela a nós, não se acabe com este dia a memória da morte.
Resolução, resolução uma vez, que sem resolução nada se faz. E para que esta resolução dure e não seja como outras, tomemos cada dia uma hora em que cuidemos bem naquela hora. De vinte e quatro horas que tem o dia, por que se não dará uma hora à triste alma? Esta é a melhor devoção e mais útil penitência, e mais agradável a Deus, que podeis fazer nesta quaresma. Tomar uma hora cada dia, em que só por só com Deus e conosco cuidemos na nossa morte e na nossa vida. E porque espero da vossa piedade e do vosso juízo que aceitareis este bom conselho, quero acabar deixando-vos quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora. Primeiro: quanto tenho vivido? Segundo: como vivi? Terceiro: quanto posso viver? Quarto: como é bem que viva? Torno a dizer para que vos fique na memória: Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é bem que viva? Memento homo!
As aparências enganam,
aos que odeiam e aos que amam
Porque o amor e o ódio
se irmanam na geleira das paixões
Os corações viram gelo e, depois,
não há nada que os degele
Se a neve, cobrindo a pele,
vai esfriando por dentro o ser
Não há mais forma de se aquecer,
não há mais tempo de se esquentar
Não há mais nada pra se fazer,
senão chorar sob o cobertor
As aparências enganam,
aos que gelam e aos que inflamam
Porque o fogo e o gelo
se irmanam no outono das paixões
Os corações cortam lenha e, depois,
se preparam pra outro inverno
Mas o verão que os unira,
ainda, vive e transpira ali
Nos corpos juntos na lareira,
na reticente primavera
No insistente perfume de alguma coisa chamada amor.
As Cousas do mundo

Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa,
Mais isento se mostra o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa
E mais não igo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.
POESIA ENCOMIÁSTICA
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