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Mímesis em Platão e Aristóteles

Aulas para a FAV
by

Carla Damiao

on 1 May 2013

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Transcript of Mímesis em Platão e Aristóteles

Mímesis em Platão e
Aristóteles ARISTÓTELES Para Aristóteles o vir-a-ser é a transformação de algo em qualquer coisa que assume uma forma, um aspecto novo, uma pedra se torna estátua. (...) é indispensável reconhecer a unidade dos dois elementos (pedra e estátua) através dos quais a poiesis se efetua. (...) Essa relação entre matéria e forma se revela em todo gênero de poiesis, tanto na técnica quanto na artística”. Considerando apenas a criação artística, constrói uma relação entre mímesis, mito e ação. Mito e mímesis são palavras entendidas de outra maneira por Aristóteles em relação à tradição e é com base nessa associação que se estrutura a parte da obra que conhecemos intitulada Poética. Inicio essa rápida abordagem sobre Aristóteles, citando o estudo de outro professor da UFMG, Cláudo William Veloso, Aristóteles mimético, que dize logo na apresentação de seu livro: “... para Aristóteles o imitar pode ser, antes, uma solução. Entendendo, aliás, a noção, e não só a palavra. Ainda que o exame desta última seja decisivo, o uso da noção de imitação em Aristóteles é bem mais vasto que o já vasto emprego dos vocábulos dessa família” (p.16). O autor se refere ao emprego de variações provindas da família mimeomai, dos quais comprova 83 referências, além do uso direto da palavra mímesis. Fora do contexto da Poética, a palavra mímesis também é utilizada, podendo indicar “uma dependência causal, uma semelhança visual, uma analogia ou uma imitação de comportamento” (idem, 17). ARISTÓTELES II - ARISTÓTELES MÍMESIS EM PLATÃO (...) A eikasia ou a imitação, como a arte a executa costumeiramente, não é obra do conhecimento e sim da opinião porque revela o que é ‘possível’ e não o que é ‘realmente’; por este motivo Platão a desaprova. O ‘possível’ como objeto da arte é julgado negativamente por ele; mais tarde, em Aristóteles, este conceito vai assumir outra importância na determinação da arte e do belo”. Essa longa citação nos servirá como passagem para Aristóteles. Mas, gostaria ainda apenas de citar o estudo de Marcelo Pimenta Marques, Platão, pensador da diferença. Uma leitura do Sofista, como uma importante referência a essa discussão que certamente incorporarei na minha pesquisa. O aprofundamento, nesse caso, diz respeito à associação do conceito de mímesis à antilogia, método de contradição utilizado pelo sofista e as acepções de mímesis como produção e ação. MÍMESIS EM PLATÃO Na República (511 e, 602 a), Platão diz que a arte não visa à essência das coisas e tem o papel de criar apenas verossimilhança e imagens ilusórias. E pior, o artista não só desconhece o que faz, mas ao criar imagens ilusórias, engana tanto quanto o sofista com suas palavras. Na República (598 b), em referência ao mundo em transformação e a eternidade do mundo das idéias, Platão diz: “Qual destas duas coisas a pintura visa? Imitar o que existe e como é a realidade, ou aquilo que aparece e como aparece? Imita a aparência ou a verdade? – A aparência, diz ele. PLATÃO Inciando, portanto, com Platão, explico que há, além dos textos originais, uma vasta bibliografia secundária a respeito do assunto “mímesis” em particular no diálogo A República. Por isso, iniciaremos com a citação mais conhecida do livro X: I - PLATÃO Prof. Dr. Wolfgang Bock (Universidade Bauhaus de Weimar, Alemanha)
 Prof. Dr. Carla Milani Damião (Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC) A CAPACIDADE MIMÉTICA ARISTÓTELES O critério de verossimilhança institui: o possível e não o verdadeiro; o possível lógico que encadeia as ações do mito. Por meio da verossimilhança, podemos admitir a simulação, a persuasão, ou seja, os elementos negados pelo critério de verdade. Libertando a mímesis da referência à realidade verdadeira, Aristóteles, diferentemente de Platão, cria o espaço da ficção deliberada. Essa criação, no entanto, não é livre do compromisso político de tornar o homem, por meio da freqüência aos espetáculos, melhor para o convívio na polis. ARISTÓTELES Concluindo, o conceito de mímesis, para Aristóteles, não se restringe à idéia de imitação ou representação da realidade, mas possui a prerrogativa de ser verossímil e desta prerrogativa decorrem as relações de aprendizagem moral e da catarse, como funções políticas do teatro, em particular, causadas pelo gênero da tragédia. ARISTÓTELES Mímesis é entendida como a capacidade de produzir semelhanças em qualquer esfera de criação artística. Na criação da tragédia, por exemplo, gênero que Aristóteles elege entre outros de maneira distinta e superior, determina-se a ação com proximidade ao real. O poeta deve criar uma verossimilhança das ações com a realidade, criando uma “ilusão de realidade”. Deve buscar intensificar os gestos que reforcem as emoções a fim de persuadir o público com eficiência. A tragédia pe o grau mais elevado da mímesis poética, por ser, em relação à epopéia, por exemplo, mais verossímil. Ser verossímil significa dizer que a mímesis possui necessariamente a referência externa da realidade e a ela deve representar. ARISTÓTELES Para falarmos apenas da mímesis na Poética devemos entender os significados dos termos poiesis, termo que se traduz rasamente por poesia, e techne, que traduzimos por técnica. Grassi, já citado, lembra que o título tradicional da obra de Aristóteles é Perí Poietikés que significa comumente Peri Téknes Poietikés, o que levaria à tradução da obra por “arte poética. Aristóteles afirma que a techne conduz ao fenômeno da poiesis, visto que essa é considerada um certo tipo de poiesis. A distinção mais precisa é: 1. techne possui uma característica mais destinada à produção (poiesis) do que à ação (práxis); é um tipo de conhecimento que pode ser ensinado, como conhecimento das causas e está associada à razão; 2. a poietike techne é a arte poética. Toda poeisis, diz Grassi (p.121), “sempre está na origem de um produzir, como passagem do não ser para o ser. (...) ARISTÓTELES Aristóteles também é aquele a primeiro notar a capacidade mimética que será de alguma forma repetida por Walter Benjamin. Trata-se de uma capacidade inata, natural ou genética no homem, manifestada claramente pelas crianças. A criança aprende primeiro pela mímesis antes de se apropriar de conteúdos. Na Poética, Aristóteles afirma que a mímesis é algo congênito no homem e que este tem prazer em contemplar e em produzir um objeto mimeticamente. Esse prazer resulta em aprendizagem e em reconhecimento. Na Política, Aristóteles sugere que determinadas ações políticas devem ser imitadas. ARISTÓTELES No segundo capítulo da Poética (1448 a) lemos: “Já que aqueles que executam uma mimese a cumprem com mimese dos que atuam uma práxis disso resulta necessariamente que estes últimos são virtuosos ou perversos, porque nossas qualidade éticas se reduzem sempre a estes dois opostos; quanto ao caráter, todos se distinguem por seus vícios ou por suas virtudes. De acordo com isso, os poetas realizam a mimese dos que são melhores ou piores do que nós, homens comuns, ou semelhantes àqueles, como fazem os pintores”. Fala-se aqui de um sentido amplo de arte e de uma capacidade mimética pertencente a esse âmbito em geral que, no entanto, possui um vínculo estrito com a moral e política, a práxis, e não reduzida ao contexto apenas da arte. Isto é, mesmo na utilização mais estética da palavra mímesis, a dimensão moral e política não é dissociada. ARISTÓTELES A primeira grande distinção que se pode fazer sobre o significado de mímesis em Aristóteles em oposição a Platão é que mímesis não significa imitação ou representação, mas “tornar visível”, “mostrar”. Em segundo lugar, a mímesis está associada à ação e à prática (práxis). O objeto da mímesis, nesse sentido, é o da práxis humana. ARISTÓTELES Por conta do estudo da Poética, existe uma tendência em associar mímesis apenas ao contexto da arte e a grande preocupação do estudo de Veloso é mostrar e comprovar a utilização em sentido amplo, principalmente marcada pela questão do conhecimento. Diz ele, “uma coisa é associar à poesia, à pintura ou à escultura a família de miméomai (o que os estudos filológicos citados ontem comprovam), outra coisa é dizer que somente essas atividades são imitações e que, enquanto tais, diferem de toda outra.”(20). A tese do autor é que a imitação, que não é um tipo de conhecimento obviamente, é, contudo, “algo que resolve o problema gnosiológico cuja raiz está nas próprias coisas” (p.20). MÍMESIS EM PLATÃO A condenação de Platão aos artistas, em particular aos poetas Homero e Hesíodo na República, possui, como se sabe, uma radicalidade política, pois se trata de estabelecer ali uma sociedade dirigida pela razão e não pela paixão. Ora, diz Grassi (p.109), “se a arte é imitação e representação de ações que despertam em nós as paixões e o público segue mais facilmente ações passionais do que colocações racionais, decorre daí que a imitação poética em suas ações deve ser julgada negativamente.(...) Em outras palavras, desde que as paixões – que não estão sujeitas à razão – representam um retrocesso em realção à perfeição humana, sua imitação é também inevitavelmente a representação de uma não-realidade, ou seja, da mera aparência. “Na República 596b o artista divino cria o original, isto é, o eidos cama, o carpinteiro produz a cama física que é apenas um eikon vi-à-vis do eidos mas é o ‘original’ para a cama do pintor”, que, podemos concluir na seqüência, é puro eikon. Na seqüência dessa citação, o autor conclui que: “um ponto de vista é claro: a atividade conhecida como mimesis tem como seu produto uma entidade cujo estatuto ontológico é inferior em relação ao do seu modelo. Assim (...) este princípio estabelece a relação entre este mundo e o mundo dos eide, fundamenta a teoria platônica do conhecimento, e na esfera moral é o ponto de partida para seu ataque à ‘arte’”. MÍMESIS EM PLATÃO A mímesis é uma das idéias escolhidas por Platão, tão importante quanto méthexis (participação), para exprimir a relação entre os eide e os particulares sensíveis (aistheton). Vemos isso na passagem citada incialmente da República: o demiourgos – artista humano ou divino - tem a capacidade de produzir em dois níveis: os originais ou reais (cosmos eidético) e as imitações/repesentações ou imagens. A aplicação dessa divisão e a função mimética oscilam nos diálogos. Cito Peters (opus cit., p.144): MÍMESIS EM PLATÃO É importante relembrar o símile das 4 linhas no final do Livro VI da República, para percebermos o grau marcado pela eikasia, palavra traduzida por imagem, representação, conjectura, comparação (segundo o dicionário grego-francês Le Grand Bailly) para então retornarmos à citação inicial. Uma definição mais aprofundada (Cf. F.E. Peters, Termos filosóficos gregos. Um léxico histórico, p.67-68), eikasia é “o estado de perceber meras imagens e reflexos é o segmento inferior da linha platônica (República 509e). O eikon (imagem, reflexo) tem um tipo qualificado de existência (Timeu 52c) e um papel não muito complementar na teoria da arte de Platão. O universo visível é o eikon do universo inteligível que abrange os eide (pl. de eidos que é idéia/forma)”. MÍMESIS EM PLATÃO MÍMESIS EM PLATÃO A arte imitativa está muito longe da verdade e é por isso que ela faz qualquer coisa, porque capta de cada uma apenas uma pequena parte, que é sombra daquela”. Os espectadores da arte que resulta desse grau de imitação são igualmente incapazes de reconhecer a verdade, inseridos como estão naquilo que é passional, turvo e, por conseqüência, mau. MÍMESIS EM PLATÃO Em uma passagem da Apologia (22 b-c), Sócrates, quer dizer, Platão por meio de Sócrates, havia perguntado aos políticos, artesãos e poetas em que consistia a sabedoria e disse ter ouvido destes últimos que: “Logo soube pelos poetas que eles também não escreviam o que escreviam graças à sabedoria, mas por um dom da natureza e por uma inspiração, semelhante à dos adivinhos e dos augures. Porque estes também dizem muitas coisas belas, mas não sabem o que dizem”. MÍMESIS EM PLATÃO O músico, ao decidir qual o ritmo irá utilizar, decide também qual modo de vida quer a ele associar (Leis 669 d-e e 798 d-e; República 400 a). As danças, igualmente, são imitações de ações, destinos, modos de vida e caráter moral (Leis 795 e-796 e). Cito novamente Grassi (opus cit., p. 108): “A ação (praxis) humana seria portanto um elemento essencial de tudo aquilo que é objeto da arte, enquanto revela comportamentos e caracteres. Isto significa que o sentido e o valor moral válido das ações e das paixões humanas é o fundamento para o juízo de uma obra de arte. Nasce daqui a crítica de Platão em relação à arte: já que esta não tira sua própria origem do saber, dificilmente estará em condições de representar os valores válidos das ações humanas; ela conduz na maioria das vezes a uma ilusão perigosa”. MÍMESIS EM PLATÃO No diálogo Crátilo, Platão acrescenta a essa distinção o predicado da “exatidão” que, segundo Grassi (opus cit., p. 107), significa que: “se a arte reproduz um nível da realidade – o mundo das sombras – deve tornar evidentes, com sua invenção, os elementos de que já se falou como características essenciais. Se não os captar, ela não tem qualquer sentido. A música também é imitativa neste sentido (Leis II 668a). Tem concições de representar o comportamento de homens bons e maus, e isto exclusivamente por meio da analogia existente entre ritmos e harmonias, de um lado e caracteres do outro”. MÍMESIS EM PLATÃO Verifica-se nessa longa passagem a distinção entre aquele que “cria” e aquele que “imita”. Mas, segundo Grassi (Arte como antiarte, p.106), “Se a imitação consiste na reprodução de uma realidade cuja forma originária coincide com a idéia, a arte que produz também pode imitar a idéia”. E neste caso, surge a figura intermediária do carpinteiro ou do arquiteto, como no diálogo Sofista (266 a-c), diálogo no qual Platão faz a mesma distinção feita na República. A arquitetura é produtora, ao passo que a pintura e a escultura são apenas resultado de imitação. REPÚBLICA - Mimesis: X.595c-598c Ora, crês que, se um homem fosse capaz de fazer indiferentemente o objeto a imitar e a imagem, optaria por consagrar a sua atividade ao fabrico das imagens, e poria esta ocupação no primeiro plano de sua vida, como se para ele nada houvesse de mellhor? Não, por certo. Mas se fosse realmente versado no conhecimento das coisas que imita, suponho que se aplicaria muito mais a criar do que a imitar, que procuraria deixar atrás de si grande número de belas obras, como outros tantos monumentos, e que desejaria muito mais ser louvado do que louvar outros. Assim o creio - respondeu pois não há, nesses dois papéis, igual honra e proveito. REPÚBLICA - Mimesis: X.595c-598c A imitação está, portanto, longe do verdadeiro, e se ela modela todos os objetos, é, segundo parece, porque toca apenas uma pequena parte de cada um, a qual não é, aliás, senão uma sombra. O pintor, diremos nós, por exemplo, nos representará um sapateiro, um carpinteiro ou outro artesão qualquer sem ter nenhum conhecimento do ofício deles; entretanto, se não for bom pintor, tendo representado um carpinteiro e mostrando-o de longe, enganará as crianças e os homens privados de razão, porque terá dado à sua pintura a aparência de um autêntico carpinteiro. REPÚBLICA - Mimesis: X.595c-598c Isto: uma cama, conforme a olhes de viés, de frente, ou de qualquer outra maneira, é diferente de si mesma, ou, sem diferir, parece diferente? e acontece o mesmo com outras coisas? Sim - disse ele - o objeto parece diferente, mas não difere em nada. Agora, considera este ponto: qual desses dois objetivos se propõe a pintura relativamente a cada objeto: o de representar o que é tal como é, ou o que parece tal como parece? É ela imitação da aparência ou da realidade? Da aparência. REPÚBLICA - Mimesis: X.595c-598c Logo, o fazedor de tragédias, se é um imitador, estará por natureza afastado de três graus do rei e da verdade, assim como todos os outros imitadores. É provável. Estamos pois de acordo sobre o imitador. Mas, a propósito do pintor, responde ainda ao seguinte: tenta ele, na tua opinião, imitar cada uma das coisas mesmas que existem na natureza ou as obras dos artesãos? As obras dos artesãos - respondeu ele. Tais como são, ou tais como parecem; procede ainda a esta distinção. O que pretendes dizer? REPÚBLICA - Mimesis: X.595c-598c Queres, portanto, que concedamos a Deus o nome de criador natural deste objeto, ou algum outro nome parecido? Será justo - disse ele - pois Deus criou a natureza deste objeto e de todas as outras coisas. E o marceneiro? Chama-lo-emos o artífice da cama, não é? Sim. E o pintor, denomina-lo-emos artífice e criador deste objeto? De nenhum modo. O que ele é, pois, dize-me, com respeito à cama? Parece-me que o nome que melhor lhe conviria é o de imitador daquilo que os outros dois são os artífices. Seja. Chamas portanto de imitador o autor de uma produção afastada de três graus da natureza. Perfeitamente -  confirmou. REPÚBLICA - Mimesis: X.595c-598c E Deus, quer não tenha desejado agir de outra maneira, quer alguma necessidade o haja obrigado a fazer apenas uma cama na natureza, fez só aquela que é realmente a cama; mas duas camas deste gênero, ou várias, Deus jamais produziu e tão pouco produzirá. Por que não? -  indagou. Porque se fizesse apenas duas, manifestar-se-ia nelas uma terceira, cuja Forma as duas reproduziriam, e seria ela a cama real, e não as duas outras. Tens razão. Deus, sabendo disso, suponho, e querendo ser o criador de uma cama real, e não o fabricante particular de uma cama particular, criou esta cama única por natureza. É o que parece. REPÚBLICA - Mimesis: X.595c-598c Queres agora que, apoiando-nos nesses exemplos, procuremos o que pode ser o imitador? Se quiseres - disse ele. Assim, há três espécies de camas: uma que existe na natureza das coisas e da qual podemos afirmar, penso, que Deus é o autor, de contrário quem seria?... Ninguém mais, a meu ver. A segunda é a do marceneiro. Sim. E a terceira, a do pintor, não é? Seja. Assim, pintor, marceneiro, Deus, são três que presidem a fatura das três espécies de camas. Sim, três. REPÚBLICA - Mimesis: X.595c-598c E o marceneiro? Não declaraste há pouco que ele não fazia a Forma, ou segundo nós, aquilo que é a cama, mas uma cama particular? De fato declarei. Ora pois, se ele não faz o que é, não faz o objeto real, porém um objeto que se assemelha a este, sem ter a sua realidade; e, se alguém dissesse que a obra do marceneiro ou de qualquer outro artesão é perfeitamente real, haveria possibilidade de que dissesse algo falso, não é? Seria ao menos a sensação dos que se ocupam de semelhantes questões. Por conseguinte, não nos surpreendamos que esta obra seja algo obscura, comparada à verdade. Não. REPÚBLICA - Mimesis: X.595c-598c Não é complicada, respondi; e posta em prática amiúde e rapidamente; muito rapidamente mesmo, se quiseres apanhar um espelho e apresentá-lo de todos os lados; farás logo o sol e os astros do céu, a terra, a ti mesmo, e os outros seres vivos, e os móveis, e as plantas, e tudo quanto mencionamos há pouco. Sim, mas serão aparências e não realidades. Bem - disse eu - chegas ao ponto pretendido pelo discurso: pois, dentre os artesãos deste gênero, imagino que se deva incluir o pintor, não é? Como não? Mas tu me dirás, penso, que o que ele faz não tem a menor realidade; no entanto, de certo modo, o pintor também faz uma cama. Ou não? Sim - redargüiu - ao menos uma cama aparente. REPÚBLICA - Mimesis: X.595c-598c Espera, e logo mais o dirás com maior razão. Este artesão a que me refiro não é unicamente capaz de fazer toda espécie de móveis, como produz ainda tudo o que brota da terra, plasma todos os seres vivos, inclusive a si próprio, fabricando, além disso, a terra, o céu, os deuses, e tudo o que há no céu, tudo o que há debaixo da terra, no Hades. Eis um sofista realmente maravilhoso!
Não acreditas em mim? Mas responde-me: pensas que não existe de modo algum semelhante obreiro? ou que só se pode criar tudo isso de uma certa maneira, e que, de outra, não se pode? Mas não reparaste que tu próprio poderias criá-lo, de uma certa maneira? E qual é esta maneira, replicou? REPÚBLICA - Mimesis: X.595c-598c Não costumamos também dizer que o fabricante dos dois móveis dirige seus olhares para a Forma, um a fim de fazer os leitos e, outro, as mesas de que nos servimos, e assim quanto aos demais objetos? pois, a Forma mesma, nenhum operário a modela, não é? Não, sem dúvida. Mas veja agora que nome atribuirias a este artífice? Qual? O que faz tudo o que fazem os diversos artífices, cada um em seu gênero. Falas de um homem hábil e maravilhoso! REPÚBLICA - Mimesis: X.595c-598c Temos, com efeito, o hábito de colocar uma certa Forma, e uma só, para cada grupo de objetos múltiplos aos quais atribuimos o mesmo nome. Não estás compreendendo? Compreendo, sim. Tomemos, pois, aquele que te aprouver desses grupos de objetos múltiplos. Por exemplo, há uma multidão de camas e de mesas. Sem dúvida. Mas, para estes dois móveis, há apenas duas Formas, uma de cama e outra de mesa. Sim. REPÚBLICA - Mimesis: X.595c-598c Poderias dizer-me o que é, em geral, a imitação? Pois eu mesmo não concebo muito bem o que ela se propõe? Então como iria eu concebê-lo? Nada haveria de espantoso nisso. Muitas vezes os que têm vista fraca percebem os objetos antes dos que a têm penetrante. Isto acontece. Mas, em tua presença, nunca ousarei declarar o que me poderia parecer evidente. Vê, pois, tu próprio. Pois bem! queres que partamos deste ponto, aqui, em nossa indagação, conforme o nosso método costumeiro? Mimesis: X.595c-598c Tradução de J. Guinsburg* REPÚBLICA PLATÃO E ARISTÓTELES Na exposição dos temas das aulas ontem, disse que abordaríamos nessa aula: 1. a importância do conceito de mímesis na filosofia antiga;
2. desdobramentos de sentidos;
3. a importância da mímesis para a teoria do conhecimento em Platão,a crítica platônica à arte que imita e o contexto político da crítica à mímesis;
4. a função criadora, política e gnosiológica de mímesis em Aristóteles.

Seriam necessários alguns semestres para desenvolver esses itens. O que ora apresento é uma condensação do assunto com base nos itens 3 e 4. 2ª AULA PLATÃO E ARISTÓTELES Obs: Eidolon é uma palavra que significa também imagem e Platão a utiliza no Sofista, dividindo-a posteriormente em: “reflexo” (eikon) e “aparência” (phantasma). MÍMESIS EM PLATÃO
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