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Categorizações e Referenciações: construções interaccionais de mundos sociais

Membership Categorization Analysis (MCA)
by

Michel G. J. Binet, PhD

on 31 August 2016

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Transcript of Categorizações e Referenciações: construções interaccionais de mundos sociais

Um sistema de relações cujos membros
ocupam posições social e terminologicamente definidas e diferenciadas
(Bourdieu: topologia social)
Um dispositivo ou sistema de categorização terminológica dos membros

MCD - Membership Categorization Device
MCA- Membership Categorization Analysis
O sistema familiar
Um sistema categorizador (MCD)
«Talvez se possa compreender melhor a natureza de um sistema social se o compararmos a uma figura geométrica, um pouco daquilo que "não existe desenhado em parte alguma na natureza". Na realidade, esta é a comparação mais aproximada que pode existir na variedade das experiências comuns. Uma figura geométrica consiste numa série de relações espaciais, delimitadas por pontos. Estes pontos são estabelecidos pelas relações e só em termos destas relações podem ser definidos. Não têm existência independente. Cada um dos padrões que juntos compõem um sistema social é formado de atitudes e formas de comportamento hipotéticas, cuja soma total constitui uma relação social. As posições polares nesses padrões, isto é, os status, provêm desta relação e só em termos desta relação podem ser definidas. Não têm, mais que os pontos da figura geométrica, existência independente. Qualquer status, considerado distintamente dos indivíduos a quem a sociedade pode designar para ocupá-lo, é simplesmente um conjunto de direitos e deveres» (Linton, 1987: 250).

«Todas as sociedades possuem nomes para muitos dos status de seus sistemas (...). [A] maioria dos investigadores têm uma tendência para tratar os status como se fossem pontos fixos entre os quais várias relações expressas em comportamento pudessem desenvolver-se. A falácia de considerar por esta maneira os status salienta-se muito claramente quando tentamos aplicar a terminologia dos status aos pertencentes a outros sistemas sociais. Assim temos um só termo, tio, que aplicamos indistintamente aos irmãos de ambos os genitores e aos maridos das irmãs de ambos. Este uso reflete o fato de que em nosso sistema particular existe um único padrão de relação entre a criança e estes quatro parentes. Em outros sistemas, os mesmos quatro grupos de parentes, isto é, o irmão do pai, irmão da mãe, marido da irmã do pai e marido da irmã da mãe, podem ser nitidamente diferenciados, existindo um padrão diferente de relação da criança com cada um desses grupos. Ainda mais, nenhum dos quatro padrões corresponderá ponto por ponto ao nosso padrão tio-sobrinho. Misturar estes quatro status sob nosso termo tio é representar falsamente a situação» (Linton, 1987: 251).

«Se tentarmos aplicar a outros sistemas sociais os termos que desenvolvemos para certos agrupamentos de indivíduos, por exemplo: o termo "família", estamos sujeitos a nos desorientarmos ainda mais. Do ponto de vista social, diferenciado do biológico, uma família é um grupo de status inter-relacionado, determinado pela existência de uma série complexa de padrões reciprocamente ajustados. Estes padrões nunca serão exatamente os mesmos em duas sociedades quaisquer (...). As relações funcionais existentes entre os membros da família, e entre a unidade familial e a sociedade toda, podem também ser grandemente diversas. Em resumo, a família nunca é a mesma coisa em dois sistemas quaisquer». «A mesma diversidade pode ser verificada em relação a todas as instituições sociais» (Linton, 1987: 251-2).
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Outros sistemas categorizadores [marcadores socioposicionais e plurisemiótica social: "Unificação da cultura em todos os seus planos" (Leroi-Gourhan, 1964) ]
Cortes de cabelo das crianças osage e omaha consoante o clã (Lévi-Strauss, 1990 [1962]: 207).
A sociedade como "mundo de pequenos mundos sociais" (Bourdieu)
Cada um destes pequenos mundos socialmente organizados tende em funcionar no plano conversacional como sistema de categorização / identificação dos seus membros (MCD).

Ex.: o organograma de uma empresa
Alguns destes sistemas contribuem na organização da sociedade no seu todo.

A organização social própria a cada tipo de sociedade gera os sistemas de classificação dos seres humanos (e não só) que vigoram no seu seio (Durkheim e Mauss, 1903).
Nas sociedades ditas tradicionais, é o sistema de parentesco que organiza as relações e classifica / categoriza os seres humanos (MCD).
Nas nossas sociedades, os graus de ensino, as fileiras de formação e os títulos profissionais são, ceteris paribus, dos recursos mobilizados com maior frequência pelos falantes para se categorizarem mutuamente (MCD).
As categorias usadas localmente pelos interactantes são interligadas às estruturas que organizam a sociedade no seu todo (Micro - Macro Link).
Outros sistemas categorizadores (MCD) são interligados a organizações sociais de menor escala.

Ex.: uma equipa desportiva
Estrutura socio-posicional
(MCD)
MCD
Identificações mútuas de interactantes em co-presença
Formas de tratamento
Referenciação de terceiros
«Tratando a técnica por [menina], a utente posiciona-se a si própria no extremo oposto do eixo do poder relativo à idade, colocando-se na posição de figura maternal» (Monteiro, 2010: 9).
«Given this valuation of the patterns of usage, we can infer an extremely detailed ranking off all castes in the [Tamil] village by counting the number of valued and disvalued usages that each caste gives or receives. (...) In short, these overall patterns of pronominal usage chart for us what is at least potentially a members' map of the hierarchical relations that guide everyday interaction» (Brown & Levinson, 2009: 254).
«Socialmente marcadas, estas formas de tratamento convocam e actualizam um dos Eus potenciais do alocutário, activando e tornando localmente relevante uma das suas faces identitárias, escolhida dentro do repertório de papéis sociais passíveis de ser desempenhados com aprovação social por este alocutário. As identidades em presença são mutuamente ratificadas, no quadro preexistente parcialmente renegociável de uma relação (ou correlação) de lugares identitários situacionalmente ancorada (Flahault, 1979: 48)» (Binet, 2013: 271).
«(...) le vouvoiement et le tutoiement sont des actes: en s'adressant à quelqu'un sur le mode du tu, l'énonciateur impose un certain cadre à leur échange verbal (...)» (Maingueneau, 1981: 19).
«A MCA tem por objecto as etno-taxinomias que enformam as identidades construídas no quadro de uma dada cultura, observáveis nas actividades conversacionais dos seus membros» (Binet, 2013: 94).
«Cada categoria de um tal sistema descritivo é referencialmente operativo (Sacks, 1992b: 246): basta categorizar no começo de um relato um actor como “mãe” para convocar o sistema familiar no seu todo como sistema de categorização dos outros actores e como quadro interpretativo preferencial dos actos e das palavras relatados».
«Sacks (1990: 210) apurou por análise de trocas conversacionais que os interactantes seguem a máxima consistindo em inferir que, por defeito, uma vez referenciada uma família específica (ou outro pequeno mundo organizado por categorias descritivas formando sistema), qualquer novo actor referenciado na conversação por recurso a uma categoria de parentesco é, salvo indicação contrária, membro, não só, de uma família, mas ainda, desta família (e não de outra qualquer)».

(Binet, 2013: 93-4)
«Cada um destes mundos categoriais forma um sistema de lugares ocupados por categorias definidas de actores, que torna manifesta e digno de reparo a ausência de ocupantes (Sacks, 1990: 216; Silverman, 1998: 82). Na entrada em campo de uma equipa, a ausência de um jogador seria logo notada, em virtude do sistema de lugares a ocupar que a constitui. Formam uma grelha cognitiva geradora de observáveis».
«Heurística, a MCA revela um dos modos operatórios da construção conversacional da realidade (Berger & Luckmann, 1999: 159–60), que não escapa por completo ao cálculo dos interactantes, que, em certas circunstâncias, caracterizadas nomeadamente por definições rivais de uma “mesma” realidade, ponderam cuidadosamente as suas opções lexicais em adequação com o mundo categorizado do seu alocutário (recipient design), de forma a monitorizar a definição da situação onde falam e/ou de que falam».

(Binet, 2013: 94-5)
«(...) a discretização do mundo em categorias não é dada absolutamente a priori, mas varia segundo as atividades cognitivas dos sujeitos que operam com elas» (Mondada & Dubois, 2003: 34–5).

«Os referentes não são fixados de antemão e usados passivamente pelos falantes. A análise da conversação etnometodológica mostra e demonstra que os referentes são activamente construídos pelos falantes. Esta construção local não é, no entanto, uma criação ex nihilo. Os falantes mobilizam com efeito recursos que não são inteiramente gerados a partir do quadro local da sua interacção, dado cuja análise potencia uma visão articulada do trabalho interaccional de definição local da situação e do seu enquadramento macrossocial recorrendo a meios institucionais exteriores às fronteiras da situação (Schegloff, 1972: 131; Gonos, 1977)» (Binet, 2013: 104).
«Uma dada situação (activamente participada ou activamente referida) é sempre sujeita a ser definida e redefinida à luz de uma multiplicidade de potenciais sistemas categoriais. Habitantes de uma realidade múltipla (Schütz), os interactantes podem redefinir, de dentro, uma situação de interacção, escolhendo, num dado momento, um sistema categorizador, dentro de um leque de outras opções possíveis.
Dada esta margem de escolhas e alternativas categoriais, os interactantes podem travar negociações» (Binet, 2013: 336).
Nomes e descrições são os dois principais recursos mobilizáveis pelos falantes para a referenciação de pessoas. Os nomes são mobilizados mediante formas de tratamento dos delocutores susceptíveis de incorporar categorizações sociais. O tratamento nominal é um modo económico de referenciação de pessoas já referenciadas. A primeira operação de referenciação é orientada para o reconhecimento da identidade da pessoa ausente, de que se pretende falar (Sacks, 1992b: 180). Caso essa pessoa não integra uma rede de pessoas conhecidas a título pessoal por ambos os falantes, o nome, que não é usado em regime de exclusividade pela pessoa, não é suficiente para garantir o reconhecimento da sua identidade individual. Este reconhecimento fica então a cargo de descrições, que assentam em coordenadas intrínsecas, relativas e/ou absolutas (Levinson, 2004).

(Binet, 2013: 99)
As descrições alcançam o reconhecimento para partilha de conhecimentos; dão a conhecer (informações) para reconhecer (identidades). A construção e estabilização da primeira referenciação é dada por completada, pela descoberta ou adopção do nome como modo privilegiado de referenciação (Heritage, 2007: 274). Com efeito, uma vez dada como reconhecida a pessoa de que falam, os interlocutores podem doravante se referir a ela por uma forma nominal, dispensando as descrições que foram mobilizadas para alcançar este estado epistémico de saberes partilhados acerca dos referentes que designam nominalmente (Sacks & Schegloff, 2007).

(Binet, 2013: 99-100)
Referenciação
Coordenadas intrínsecas
Coordenadas absolutas
Coordenadas relativas
Todos os traços intrínsecos potencialmente distintivos (Mazeland et al., 1995: 278) da pessoa ou do objecto de que se pretende falar, podem, sob reserva de terem passado pelos filtros de várias censuras culturalmente definidas, ser mobilizados ao abrigo de um processo de referenciação.
---> Alcunhas: nominalização de coord. intrínsecas
Valor referencial: não indexical
(Levinson, 2004)
Valor referencial não indexical, acoplado a sistemas auxiliares de informação institucionais. Ex.: Número de Contribuinte
Valor referencial indexical, fixado por relacionamento com um dos falantes. Ex.: Relação de parentesco ("o teu filho") / Relação de vizinhança ("o meu vizinho") / Etc.
«Referring to persons (...) is a socially delicate operation, since persons are circumscribed by social identities, hierarchical status, and taboos in ways that are highly variable across cultures» (Brown, 2007: 173).
«Communication also presupposes speakers and addressees in potentially different knowledge states (otherwise, why communicate?), and with different relations to the referent, and thus introduces triangulation between speaker, addressee and referent» (Levinson et al., 2007: 3).
O valor referencial de uma coordenada intrínseca ou de uma coordenada absoluta é condicionado pela estrutura distributiva da população dentro do sistema categorizador usado e pelos saberes partilhados pelos interactantes sobre esta mesma distribuição.
Se ambos os falantes sabem que numa vila reside apenas uma pessoa de nacionalidade francesa, a nominalização desta categoria acoplada a uma discretização e referenciação desta região espacial é dotada de um elevado valor referencial. Mas se um dos falantes ignora este facto, será preciso, primeiro, transmitir-lhe este saber, para construir a seguir a referência por simples nominalização categorizadora («o francês»). Caso residam na vila não um mas dez franceses, então os falantes precisarão de mobilizar outras coordenadas, cujo valor referencial é identicamente condicionado. Se um destes franceses é portador de um atributo que o singulariza, idade, tamanho, por exemplo, este traço distintivo é potencialmente dotado de um forte valor referencial, que, caso seja do conhecimento dos falantes, será provavelmente mobilizado por eles na sua tarefa conversacional de construção concertada da referência.
A cada posição dentro de um sistema categorizador corresponde um nome, entrada lexical que activa na mente dos falantes a representação de um pequeno mundo cognitivo, espaço de posições definidas (por propriedades e atributos presumidos) em relação mútua. Na interface do constativo e do performativo, do descritivo e do prescritivo (Bourdieu, 1981), as presunções associadas a estas categorizações funcionam como injunções de ordem moral (Jayyusi, 1984), a assumir certas obrigações (perante X), a deter determinados conhecimentos (sobre X), etc., que formam o pano de fundo dos pedidos de explicação, das queixas (Pomerantz, 1978), das acusações, dos pedidos de desculpa e das autocríticas, formuladas pelos interactantes no decurso das suas trocas, em múltiplos quadros interaccionais da sua vida quotidiana.
Os recursos linguísticos mobilizáveis para a referenciação temporal podem e devem ser observados em situações interlocutivas, que se organizam em redor do acto de tomar e instanciar a fala. Tomar a palavra é apoderar-se do skeptron e bater no chão (Benveniste, 1969: 30–7), acto instaurador de um presente, eixo temporal em referência ao qual as temporalidades são ordenadas.
Os sistemas categoriais são protótipos padronizantes inacabados: dão conta de uma variedade de situações sem se adequar perfeitamente a nenhuma em particular. Geram expectativas e presunções estereotipadas, que os interactantes, não remetidos para um papel passivo, precisam de nivelar, em um, vários ou todos os seus pontos, por cima (upgrade) ou por baixo (downgrade), reforçando ou enfraquecendo, acrescentando ou tirando, confirmando ou desmentindo, capacidades, recursos, propriedades, alegadamente associados a uma dada categoria por eles ocupada ou atribuída a uma pessoa no curso da sua referenciação.
Tipificações e protótipos (Schiffrin, 2006: 127–8) não são gerados a um nível superior da organização social para, a seguir, serem passivamente aplicados nas situações interaccionais. Sofrem permanentemente remodelações locais passíveis de provocar, a termo, mudanças e alterações (Hester, 1994; Housley & Fitzgerald, 2002: 63). O mundo real é composto de uma multiplicidade de locus interaccionais onde ocorrem remodelações conversacionalmente negociadas de modelos prototípicos.

(Binet, 2013: 338)
Num dos trechos de transcrição da gravação de um atendimento de acção social do Corpus ACASS, a utente opera um nivelamento para baixo da confiança e das expectativas que pode legitima e realisticamente ter em relação a um dos seus filhos, operação justificada por meio de descrições que desmentem as expectativas vulgarmente associadas ao protótipo das relações mãe-filho. A fórmula adversativa «afinal das contas» (Lt 001) é um operador de reorientação argumentativa: projecta e organiza uma estrutura argumentativa que permite nivelar para baixo as inferências do ouvinte baseadas no protótipo: «a utente pode contar com o apoio desta pessoa, ao abrigo do laço de parentesco que os liga um ao outro».
As descrições da utente desmentem a existência de um forte laço socio-afectiva entre mãe e filho, reorientando as inferências da técnica em direcção a uma conclusão diametralmente oposta, de forma a não perder a oportunidade de ser ajudada (Carstensen, 2006): «a utente não pode contar com o apoio deste filho». O trabalho argumentativo é revelador dos saberes e das construções cognitivas tidos como partilhados pelos falantes. Se era do conhecimento comum que mãe e filho têm relações negativas, a utente não se daria ao trabalho de confirmar o tido por óbvio. Mas como o conhecimento comum estabelece que mães e filhos são unidos por relações positivas, a utente tem de se dar ao trabalho de remodelar localmente o modelo prototípico (MCD) que mobilizou para referir esta pessoa como seu filho, de forma a adequar a representação que a técnica elabora das suas condições de vida e dos seus suportes, às particularidades do seu caso singular.

(Binet, 2013: 339)
CONHECIMENTO - RECONHECIMENTO - INTERCONHECIMENTO

Conhecer é (re)ordenar informações delimitadas/delimitadoras (ex.: delimito as fronteiras de uma organização delimitando as informações que trato como relevantes para referir-se a ela), descritivas e prescritivas (descrições constitutivas), organizadas/organizadoras por sistemas de categorias e classificações.

«Somos classificadores classificados pelas suas classificações» (Bourdieu, 1979). -----> Estruturas sociais e Lutas locais de (des)classificação
Michel G. J. Binet
, Doutor (
PhD
) em Antropologia
Professor Auxiliar na Universidade Lusíada de Lisboa

GEACC |
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