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AUGUSTO DOS ANJOS

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by

gracia coimbra

on 22 August 2014

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Transcript of AUGUSTO DOS ANJOS

“ A mão que afaga é a mesma que apedreja...” Augusto dos Anjos
O Deus-Verme

Fator universal do transformismo,
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme — é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão...

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!
Ao meu primeiro filho nascido
morto com 7 meses incompletos
2 fevereiro 1911.

Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial,

Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
Em tua morfogênese de infante
A minha morfogênese ancestral?!

Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?...

Ah! Possas tu dormir feto esquecido,
Panteisticamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER!
O Morcego

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!
Idealização da Humanidade Futura

Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos séculos futuros
— Homens que a herança de ímpetos impuros
Tornara etnicamente irracionais! –

Não sei que livro, em letras garrafais,
Meus olhos liam! No húmus dos monturos,
Realizavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animais!

Como quem esmigalha protozoários
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão...

E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefação!
Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
PSICOLOGIA DE UM VENCIDO

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
A IDÉIA

De onde ela vem?! De que matéria bruto
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica...

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!
BUDISMO MODERNO

Tome, Dr., esta tesoura e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contrato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!
CARACTERÍSTICAS
- linguagem orgânica, muitas vezes cientificista e agressivamente crua,
- ritmados jogos de palavras, ideias,
- repulsa na crítica e no grande público da época.
- métrica rígida,
- cadência musical,
- aliterações e rimas preciosas dos versos
PARNASIANISTA, SIMBOLISTA
E MODERNISTA

Augusto dos Anjos

Nascimento: 20 de abril de 1884, Paraíba
Falecimento: 12 de novembro de 1914, Leopoldina, Minas Gerais
Cônjuge: Ester Fialho
Educação: Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco
Profissão: professor de português, diretor de escola secundária
Obras: "EU" e "EU E OUTROS POEMAS"
TEMAS:

- Egoísmo e angústia ("Ai! Um urubu pousou na minha sorte");
- Ceticismo em relação ao amor ("Não sou capaz de amar mulher alguma, / Nem há mulher talvez capaz de amar-me").
- Aspiração à morte e à anulação de sua pessoa, - Combinações de elementos químicos, físicos e biológicos ("Eu, filho do carbono e do amoníaco,").
- Materialismo amargo e pessimista ("Tome, doutor, essa tesoura e corte/ Minha singularíssima pessoa").
- Desejo de conhecer outros mundos, onde a força dos instintos não cerceie os vôos da alma ("Quero, arrancado das prisões carnais,/ Viver na luz dos astros imortais").
drupa - s.f. Botânica. Fruto carnoso que contém uma única semente protegida por um caroço duro
agrar - v.t. Aplanar (terras) para o plantio; arar. ..
HIDRÓPICOS - s.f. Acumulação mórbida de serosidad
HÚMUS - s.m. Substância escura que resulta da decomposição parcial, pelos micróbios do solo, de detritos vegetais e animais
monturo - s.m. Grande quantidade de lixo.
Rutilância - s.f. Estado ou qualidade do que é rutilante; brilho, esplendor, rutilação.
Epigênese- s.f. Biologia. Procedimento em que o embrião passa a se desenvolver a partir de um zigoto sem forma ou diferenciação determinada (amorfo
Absconso- adj. Escondido: vale absconso.
Difícil de compreender:
Tísica - s.f. Tuberculose pulmonar
Diatomáceas- s.f. pl. Botânica. Algas microscópicas que vivem na água ou na terra úmida; bacilariáceas.
Criptograma- s.m. Mensagem lavrada em caracteres secretos.
esbroa - v.t. Reduzir a pó;
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