Extensões do pensamento: Vannevar Bush

Extensões do pensamento: Vannevar Bush »
Cicero Silva

O Computador como extensão do pensamento: Vannevar Bush, Ted Nelson e George Landow
A proposta de Vannevar Bush era a de criar um sistema que permitisse a integração de dados, num sistema de gravação de informações que não necessitasse de formas hierárquicas de arquivamento. Bush é às vezes creditado como o primeiro idealizador do hipertexto. O artigo no qual ele publicou pela primeira vez a idéia de um sistema de arquivamento não-linear foi escrito por volta de1930 e publicado somente em 1945, no artigo "As we may think". No artigo Bush dava ênfase às novas formas de leitura que surgiriam e, diferente de Ted Nelson, pensava que as formas de links é que dariam mais poder ao leitor, e não a utilização de ilustrações no corpo do texto.
MEMEX: modela da máquina idealizada por 
Vannevar Bush
Bush, de certa forma antecipando o problema da introdução do computador
na cultura contemporânea afirmava:
Profissionalmente nossos métodos de transmissão e de revisão dos resultados
de pesquisas estão atrasados em gerações e por hora são totalmente inadequados
para os seus propósitos. Se o tempo agregado dispendido entre a escrita e a leitura
de textos acadêmicos pudesse ser medida, a média entre eles seria absurda. 
A dificuldade parece residir no fato de que publicamos centenas de vezes mais do
que a nossa capacidade de ler tudo o que foi escrito. (As we may think, 1945).

Continua Bush com sua crítica à forma como os dados são armazenados:
Quando os dados de qualquer tipo são armazenados, eles são preenchidos
através de formas alfabéticas ou numéricas, e a informação é localizada
(quando ela é) buscando-se traços de subclasses em subclasses. Ela 
geralmente está em um só lugar, quando não duplicada; temos de ter regras
para saber exatamente onde elas estão armazenadas e podermos seguir os passos
para as localizarmos novamente. 
A mente humana não funciona assim. Ela opera por associação. Com algo em
mente, logo associamos esse dado a algo que não necessariamente tem relação
direta com o dado rememorado, de acordo com complicadas redes...
Para romper com esse padrão estático ligado às informações, Bush
define o MEMEX, que seria: um aparelho no qual um indivíduo 
armazena todos os seus livros, músicas e comunicações, e tudo isso é
mecanizado, ou seja, pode ser consultado com uma velocidade muito
maior e com mais flexibilidade. O Memex consiste em uma mesa que
poderia ser consultada mesmo à distância. Em sua superfícia, duas telas 
translucentes, nas quais poderíamos projetar materiais para uma leitura
conveniente. A maior parte dos conteúdos do Memex poderá ser comprada
em microfilmes. Livros de todos os tipos, fotos, periódicos e jornais podem
ser obtidos e inseridos. (As we may think, 1945).

E, para finalizar, como que profetizando a relação mais intensa
entre homem-máquina, Bush afirma que: 
todos os nossos passos ao criar ou absorver materiais gravados 
são precedidos de algum sentido - o tátil quando tocamos uma chave,
o oral quando falamos ou ovimos, o visual quando lemos. Será possível
algum dia estabelecer uma forma mais direta de acesso à informação?
Xanadu, Hipertexto e Hipermídia: Ted Nelson
Contexto
Hipertexto, na definição de Ted Nelson seria:
"...escrita não-seqüencial - texto que permite escolhas pelo leitor, melhor lida numa tela interativa. Como é popularmente concebida, isso seria uma série de pedaços de textos conectados através de links (ligações) que oferecem ao leitor diferentes caminhos"
Ted Nelson inventa o conceito de Hipertexto e de Hipermídia
em 1965 em famoso artigo "A File Sctructure for the Complex", apresentado publicamente no ACM (Association for Computing Machinery) em 1965. Link:
http://www.scribd.com/doc/454074/A-File-Structure-for-the-Complex-The-Changing-And-the-Indeterminate 
Motivos que levaram Ted Nelson a criar uma nova denominação para os textos em suportes computacionais:
segundo o argumento de Nelson, seriam dadas novas formas de poder dadas ao leitor: 
a) mais opções para leitura; 
b) leitores podem interferir no texto (somente em Blogs, e de forma limitada)
Ted Nelson propõe em seus primeiros textos, e que foi algo recuperado e programado recentemente, o que ele denominou de Stretch-Text, que seria um texto que poderia ser, como o próprio nome diz, esticado, remodelado, reconfigurado.
Modelo: http://www.cyberartsweb.org/cpace/ht/stretchtext/image.html 
Hipertextos: várias foram as formas pensadas para a representação do hipertexto na tela do computador. Devido a várias limitações da época, alguns sistemas foram desenvolvidos a partir de referências hierárquicas que seguiam os moldes da computação e da engenharia. Outros, por sua vez, foram desenvolvidos por equipes multidisciplinares que criaram sistemas colaborativos, e que foram denominados hipertextos espaciais. Os textos e sistema criados ainda hoje não são possíveis na web, e muitos deles demandam uma programação cara e extensa para funcionar em um sistema www.
Críticas ao hipertexto:
a mais contuntende crítica aos sistemas de hipertexto
partiu do teórico Aarseth, em seu livro Cybertext.
Problemas apontados pelo crítico:
Espen Aarseth diz: "não há evidências de que o texto impresso e o eletrônico possuam claramente divergências de atributos" (Cybertext, pg. 70)
Atributos na visão de Aarseth seriam: apesar do texto 
ser digitalizado, continuaria utilizando as mesmas regras
gramaticais da escrita, a mesma forma, as mesmas estruturas, que continuariam ligadas às mais arcaicas
"representações" da escrita, desde Guttenberg.
Segundo Landow, Aarseth comete dois erros fundamentais:
a) Bush, Nelson, entre outros já falavam que os sistemas de escrita eram de via unívoca, ou seja, só permitiam publicar sem que fosse possível alterar. Exemplo: livro impresso. 
Já os Blogs são alguma coisa no sentido de inverter essa posição, apesar de serem muito limitados perto das propostas de Bush e Nelson.
b) Aarseth confunde os atributos do hipertexto que é não-linear, quebra com padrões de escrita, insere diferentes estruturas em um mesmo espaço, permite outra dinâmica representacional e, o que é mais importante, não é unívoca, ou seja, permite que você interfira no conteúdo.
outros problemas apontados pelo crítico Aarseth acerca das  novas mídias ao sistema hipertextual não-linear:

Questões relacionadas ao poder de criar links, de fazer ilações ou de relacionar imagens com o texto sempre estiveram na esteira das discussões do poder do hipertexto. Perguntas como "quem pode fazer os links?" e "quem controla o acesso aos links dos programas?" estão hoje em dia sendo colocadas como problemas. O hipertexto é visto como uma ferramenta libertária, mas se formos analisar a fundo, ele permite que o usuário se movimente através de escolhas feitas por outros. 
Aarsethe questiona: que forma será criada para que isso se modifique?
Hipermídia como Literatura
George Landow
George Landow é o primeiro teórico e crítico
literário que produz uma análise e institui 
novas relações entre o aparato computacional,
seus softwares e a teoria literária.
Na tentativa de criar uma nova interpretação crítica sobre o texto gerado e lido em computadores, George Landow aponta 4 novas formas de acesso e controle sobre o texto permitidas pela Hipermídia/Hipertexto:
a) quando se lê (pois se atua sobre o texto);
b) quando se linka;
c) quando se escreve e se interfere no texto;
d) quando se publica (esse é o ponto mais delicado, segundo George Landow, pois com a "internet", todos passam a ser editores de seus próprios textos;

O legado de Bush

Na interpretação de Landow "Vannevar Bush...propôs o MEMEX, que permite ao leitor criar camadas de ligações sobre as anotações de outros leitores. Ele em essência inventou uma nova forma de escrita, algo que consiste em conexões entre textos em vez de textos somente. Ele também cria a base para os sistema de hipermídia abertos - sistemas nos quais as ligações (links) são armazenados num banco de dados separado do documento individual. A separação dos links dos documentos permite várias formas de ligações para organizar corpos de textos, imagens e sons". (Landow, em http://www.cyberartsweb.org/cpace/politics/file/9.html)
Hipertextos abertos:

recentemente as discussões sobre o hipertexto e sua utilização foram sendo ampliadas, tendo em vista que muitas limitações técnicas deixaram de existir. Uma delas foi a limitação na publicação de conteúdos pelos usuários. Essa limitação foi superada através de processos computacionais que permitem a gravação de dados através de browsers, utilizando linguagem de banco de dados (asp, sql, php), entre outras. Com isso surgiram os wiki's, palavra que remete ao wikipedia (enciclopédia on-line) que é escrita pelos usuários, entre outras que hoje em dia são utilizadas com essa mesma programação.
Hipertextos abertos:
muitos hipertextos que funcionam no sistema wiki sofrem do problema de não se ter certeza do que ali está publicado é fato e se aquelas informações podem ser utilizadas como fonte. A falta de um sistema de referência traz esse problema da falta de credibilidade. As instituições, como a academia, relutam em aceitar as informações publicadas nos wikis, mas aceitam que essa forma de publicação seja discutida dentro de seus muros.
Hipertextos visuais:
outra discussão que vem sendo travada nos meios acadêmicos por George Landow diz respeito aos hipertextos que utilizam imagens. Ou melhor, dos jogos eletrônicos que querem se vender como hipertextos. O que está em questão é aceitar ou não a imagem como informação ou mesmo como elemento formal de um conto com conteúdo ficcional.

Alguns autores como Andrew Stern defendem que jogos podem ser considerados hipertextos, pois alguns formalmente possuem elementos que constituem uma narrativa.
MODELO
O jogo FAÇADE, criado por Stern, parte de uma narrativa hipertextual. Não há a narrativa tradicional de violar, explodir ou matar, mas sim um elemento textual ficcional envolvido que requer habilidades reflexivas, tais como reproduzir comportamentos de convivência em público, relacionamentos afetivos, entre outros. O jogo é você numa festa na qual os anfitriões formam um casal que foi apresentado um ao outro por você. Várias pessoas estão nessa festa, já que o jogo é on-line, e você é colocado em situações específicas do convívio social, como por exemplo a esposa bebe demais e começa a querer ficar com você no meio da festa, e você tem de se virar, explicar para todos que não há nada entre vocês, mas não de maneira direta, ou mesmo tentar fingir que não é nada, fazer de conta que algo está errado, explicar que ela está bebada e as reações das outras pessoas na festa são criadas em IA e podem sempre demandar problemas ou saias justas.
Link: http://www.youtube.com/watch?v=GmuLV9eMTkg 

O futuro do Hipertexto?
Projeto "The Dumpster", de Golan Levin
O projeto parte da seguinte premissa:todos os rompimentos de namoros são bregas,chatos e bobos, não tem criatividade e são repetitivos.
Isso no mundo inteiro.
Como provar ou mesmo experimentar isso? Como coletardados que me dêem essa impressão?
Levin construiu o Dumpster, que é programa em linguagem Processing e faz uma varredura em "todos" os blogs publicados na web e retira deles trechos de citações de posts que façam referência a algum "breakup" entre dois namorados.
O resultado é fascinante, pois como diz Lev Manovich em seu texto a respeito do Dumpster "...podemos entender que somos todos, em alguma medida, repetitivos e sem criatividade alguma no que diz respeito ao fim de um namoro...e podemos constatar que isso é igual no mundo inteiro, agora de maneira visual".(Social Data Brownsing, publicado em http://www.tate.org.uk/intermediaart/entry15484.shtm)

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