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Transcript

Não, o efeito mais forte não foi provocado por discursos isolados, nem por artigos ou panfletos, cartazes ou bandeiras. O efeito não foi obtido por meio de nada que se tenha sido forçado a registrar com o pensamento ou a percepção.

O nazismo se embrenhou na carne e no sangue das massas por meio de palavras, expressões e frases impostas pela repetição, milhares de vezes, e aceitas inconscientemente e mecanicamente. [...]

Mas a língua não se contenta em poetizar e pensar por mim. Também conduz o meu sentimento, dirige a minha mente, de forma tão mais natural quanto mais eu me entregar a ela inconscientemente. O que acontece se a língua culta tiver sido constituída ou for portadora de elementos venenosos? Palavras podem ser como minúsculas doses de arsênico: são engolidas de maneira despercebida e parecem ser inofensivas; passado um tempo, o efeito do veneno se faz notar.

Se, por longo tempo, alguém empregar o termo “fanático” no lugar de “heroico e virtuoso”, ele acaba acreditando que um fanático é mesmo um herói virtuoso, e que sem fanatismo não é possível ser herói. As palavras fanático e fanatismo não foram criadas pelo Terceiro Reich, mas ele lhes adulterou o sentido; em um do só dia elas eram empregadas mais do que em qualquer outra época.

Victor Klemperer

LTI: Linguagem do Terceiro Reich

de Victor Klemperer

A LTI

O Diário

O Incidente

A Aproximação

Mesmo que eu quisesse publicar integralmente os diários daquela época, incluindo as vivências cotidianas, o que não é o caso, o título também teria sido LTI, que poderia ser entendido metaforicamente. É a voz corrente dizer que a linguagem é a expressão de uma época. Da mesma forma pode-se dizer que é o retrato de um tempo e de um país. O Terceiro Reich se expressa de modo terrivelmente uniforme, em todas as suas manifestações e em todo o legado que nos deixa, na ostentação desmesurada das edificações faustosas, nos escombros, no tipo de soldados [...]. Tudo isso é a linguagem do Terceiro Reich, da qual trataremos aqui. Eu, que durante décadas exerci uma profissão prazerosa, acabei impregnado por ela, mais do que por qualquer outra coisa.

Como isso se deu?

O Afastamento

Por que escrever sobre isso?

Qual foi o meio de propaganda mais intenso do período nazista? Qual o meio de propaganda mais poderoso dessa época? Foram os discursos de Hitler e de Goebbels, suas declarações sobre esse ou aquele assunto, seu ranços contra o judaísmo e o bolchevismo?

Nascimento: 9 de Outubro de 1881 - Landsberg an der Warthe, Alemanha

Falecimento: 11 de Fevereiro de 1960 - Dresden, Alemanha Oriental

Profissão: Professor universitário de Filologia

Religião: Judaísmo

A Resposta

Algo aconteceu comigo por causa dessa linguagem própria (no sentido filológico) do Terceiro Reich. Bem, no começo, enquanto ainda sofria pouca ou quase nenhuma perseguição, eu tentava evitar qualquer contato com ela. Sentia-me agredido pelas frases das vitrines e dos cartazes, pelos uniformes marrons, as bandeiras, o braço estendido na saudação nazista e os bigodes aparados no estilo de Hitler. Fugia de tudo isso, absorvido em minha profissão. Ministrava meus cursos e fazia um esforço doentio para não perceber que as salas de aula na universidade estavam cada vez mais vazias. [...] Se, por acaso ou engano, um livro nazista me caía nas mãos, eu o colocava de lado logo depois do primeiro parágrafo. [...] Quando os cargos públicos foram “saneados” e eu perdi minha cátedra, mais do que nunca procurei me abstrair do presente.

Há uma tese em jogo: além de um fim científico, também busco um objetivo educacional. Fala-se muito em extirpar a mentalidade facista, e muita coisa vem sendo feita nesse sentido. Os criminosos de guerra estão sendo julgados, os pequenos Pgs (Parteigenossen, membro sem importância do Partido Nazista) são afastados de cargos, livros nacional-socialistas estão sendo retirados de circulação [...] Mas a linguagem do Terceiro Reich sobrevive em muitas expressões típicas, a tal ponto impregnadas que parecem ter-se tornado permanentes na língua alemã.

Em toda a minha vida, nunca um livro me causou tanta tortura quanto O Mito, de Rosenberg. Não porque fosse uma leitura excepcionalmente profunda, de compreensão difícil, ou porque tivesse me causado um abalo moral, mas porque Clemens ficou martelando o exemplar em minha cabeça durante longos minutos. (Clemens e Weser foram os torturadores dos judeus de Dresden; eram chamados der Schläger und der Spucker (aquele que bate e aquele que cospe). Clemens berrava: “Como pode você, porco judeu, ter a audácia de ler um livro desses?” Era como se eu estivesse cometendo o pecado da profanação da hóstia. “Como você ousa ter em casa um livro da biblioteca?” Fui salvo de ser enviado a um campo de concentração ao comprovar que o livro havia sido retirado em nome da minha esposa ariana e pelo fato de que ele rasgou as minhas anotações sem procurar entendê-las

Havia o BDM, a HJ, o DAF e um sem-número de outras abreviaturas*.

Inicialmente, como que parodiando essas siglas, mas logo em seguida como uma lembrança fugaz para a memória, como uma espécia de nó no lenço, e pouco depois, durante todos os anos de sofrimentos e agruras, como um pedido de socorro, gritava dentro de mim a sigla LTI, que aparece em meu diário.[...]

Naqueles anos, meu diário foi minha vara de equilibrista, sem a qual eu teria me arrebentado inúmeras vezes. Nas horas de amargura e desespero, no vazio torturante do trabalho mecânico da fábrica, ao lado da cama de doentes e moribundos, quando me sentia mortificado nos momentos de extrema humilhação.

*BDM: Bund Deutscher Mädel (Liga das Meninas Alemãs)

HJ: Hitler Jugend (Juventude Hitlerista)

DAF: Deutsche Arbeitsfront (Frente de Trabalho Alemã)

Poucas palavras foram cunhadas pelo Terceiro Reich, talvez nenhuma. A linguagem nazista usa empréstimos do estrangeiro e absorve muito do alemão pré-hitlerista. Mas altera o sentido das palavras e a frequência de seu uso.

Então fui pego pela proibição de frequentar bibliotecas. Arrancaram-me das mãos a obra da minha vida. Seguiu-se a expulsão da minha própria casa. Depois veio todo o restante, a cada dia uma coisa nova. A vara do equilibrista passou a ser o meu objeto imprescindível, e a linguagem da época tornou-se o meu principal interesse.

Eu observava com atenção redobrada como os operários conversavam nas fábrica, como os brutamontes da Gestapo falavam e como entre nós, no jardim zoológico dos judeus enjaulados, as pessoas se expressavam. Não se notavam grandes diferenças; para ser sincero, nenhuma. Adeptos e opositores, beneficiários e vítimas, todos seguiam os mesmos modelos.

Para milhares de outras pessoas, a tentativa de compreender esses modelos talvez fosse uma brincadeira pueril. Para mim era extremamente difícil, sempre perigosa, às vezes impossível. Os portadores da estrela amarela estavam proibidos de adquirir ou pegar emprestado qualquer tipo de livro, revista ou jornal.

Profa. Dra. Carmen Zink Bolognini

PAD Bruno C. Albanese

LA 502 C

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