A futebolização do mundo e a extensão da mercantilização no jogo
"Este complexo de lugares [esportivos, culturais e midiáticos] coloca as mídias no coração das estruturas e práticas esportivas, porque sem a capacidade midiática para preencher os esportes de signos e mitos para grandes e diversas audiências através do globo, o esporte poderia ser relativamente menor e de uma popularidade anacrônica. A cobertura televisiva, especialmente na sua forma satelital, tem se tornado a principal moeda na economia cultural do esporte" (MILLER, LAWRENCE; McCKAY; ROWE, 2001).
"Mais do que fenômenos paralelos, esporte e mídia constituíram-se mutuamente. A característica 'espetacular' (isto é, 'para ser vista') inerente às competições esportivas e seu poder de mobilização coletiva (pela metonímia que coloca nações ou bairros dentro de campos, pistas ou ringues) articulam-se perfeitamente com o surgimento de jornais impressos em rotativas, destinados a grande número de leitores, em pleno processo de expansão urbana na virada do século.
Assim essa construção reflexiva de ambos os fenômenos ao longo do século XX evidencia que comunicação e esporte não apenas têm muito em comum, mas que a própria forma que ambos assumiram contemporaneamente é em grande parte resultante dessa interação" (GASTALDO, 2011, p. 41).
"A televisão também contribuíra para consagrar Pelé como mito. Tanto que, com as novas possibilidades de consumo, [...] ele se tornaria marca de vários produtos, desde camisas até bonecos de brinquedo. A partir daí, tendo o futebol e a propaganda como aliados, a televisão se tornaria uma poderosa arma de persuasão" (SAVENHAGO, 2011, p. 27).
"Pela volúpia com que atua no mercado de 'bens simbólicos', tendo valorizado exponencialmente seus produtos, seria apropriado pensar a FIFA como a gestora de uma join venture especializada na produção de eventos futebolísticos. Todavia, seu domínio é mais amplo, estendendo-se sobre o futebol de espetáculo" (DAMO, 2011, p. 87).
"Em suma, o marketing esportivo pesado, a vedetização do craque da vez – sem precedentes, sem limites e sem fronteiras –, a TV a cabo e o pay-per-view florescentes, a inclusão das mais remotas nações no mesmo jogo globalizante, a megaempresa capitalista associada aos expedientes do favorecimento oportunista e 'amador' dos cartolas, ou em disputa com ele, unificam litigiosamente o universo futebolístico expandido num tabuleiro no qual são repuxados interesses e poderes de grande magnitude" (WISNIK, 2008, p. 356).
andderson.santos@gmail.com
@AndersonDGomes
Conclusões
- Futebol sofre mudanças enquanto bem cultural na sociedade capitalista;
- Ainda assim, as características apaixonantes do jogo continuam a existir;
- DAMO, Arlei Sander. Produção e consumo de megaeventos esportivos – apontamentos em perspectiva antropológica. Comunicação, Mídia e Consumo, São Paulo, v. 8, n. 21, p. 67-92, mar. 2011.
- GASTALDO, Édison. Comunicação e esporte: explorando encruzilhadas, saltando cercas. Comunicação, Mídia e Consumo, São Paulo, v. 8, n. 21, p. 39-51, mar. 2011.
- MILLER, Toby; LAWRENCE, Geoffrey; McCKAY, ; ROWE, David. Globalization and sport: playing in the world. Londres: SAGE, 2001.
- SAVENHAGO, Igor José Siquieri. Futebol na TV: evolução tecnológica e linguagem do espetáculo. Verso e Reverso, São Leopoldo, v. 25, n. 58, p. 22-31, jan.-abr. 2011.
- WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Movimentos
- Visão crítica não precisa ser "apocalíptica"
- Primórdios da constituição mútua entre esporte e mídia
- 1970: O grande evento internacional e a TV
- 1970': Havelange e a futebolização do mundo
- 1980'-1990': A exclusividade na TV e as marcas no campo
- A multiplicidade de ofertas
A multiplicidade de ofertas
Eixo de análise
- Contratos milionários de exclusividade sobre direitos de transmissão nas mais diversas mídias
- Contrapartidas com a "interferência" na organização
- Processo de mercantilização penetra no de comunicação e nas instituições nele envolvidas;
- Transferência de jogadores por altos valores e para os mais diferentes "mercados";
- Entrada de novos entes no "mercado da bola";
- Nova etapa de super-astros globais
- Galáticos do Real Madrid no início do século;
- O jogo "clássico" sendo formado na base do Barcelona
A proposta desta apresentação é, através do eixo teórico-metodológico da Economia Política da Comunicação, observar o aprimoramento da relação entre futebol e mídia nas últimas quatro décadas. Há a formatação de um "complexo esportivo-cultural-midiático", que acompanha a evolução do capitalismo, com a importância da infocomunicação para a sociedade contemporânea; ainda que a "imprevisibilidade" do jogo se mantenha.
Anderson David G. dos Santos
Mestrando no PPGCC Unisinos
A exclusividade na TV e as marcas no campo
Primórdios da constituição mútua entre esporte e mídia
- Exclusividade da Rede Globo na transmissão da Copa do Mundo de 1982;
- Democracia Corintiana e duchas Corona para manter Sócrates;
- Surgem novas formas para clubes ganharem dinheiro:
- Placas;
- Royalties com camisas, chaveiros e tantos outros produtos;
- Pioneirismo da dupla Gre-Nal e do São Paulo.
- A "liberdade" dos clubes com a Copa União (1987) e as parcerias exclusivas com Rede Globo e Coca-Cola.
- O esporte se torna um dos principais assuntos para a mídia;
- Primeira transmissão esportiva de rádio no Brasil - Rádio Educadora Paulista (10/02/1931);
- Filme de Leni Riefenstahl - Olimpíadas de Berlim (1936);
- Gagliano Neto (PRA-3) transmite a Copa do Mundo de 1938, diretamente da França;
- Leônidas da Silva (Diamante Negro) é artilheiro e Brasil é o terceiro.
- Primeira transmissão "interestadual" de TV (1º/07/1956).
Havelange e a futebolização do mundo
1970: O grande evento internacional e a TV
- Eleições da FIFA de 1974
- Havelange e a promessa de "futebolização do mundo";
- Ligar as marcas a "sentimentos nacionalistas";
- Base de apoio: Adidas e Coca-Cola;
- Décadas depois, há parceiras da FIFA por ramo de atividade industrial (cerveja, empresa aerea, lanche,...)
- Em 1977, Conselho Nacional de Desportos permite publicidade nos uniformes
- Copa do Mundo de 1970
- A primeira transmitida ao vivo e em cores para países das Américas e da Europa;
- A primeira transmitida pela televisão no Brasil;
- Até 1966, ao vivo só pelo rádio. 1958 (cinema) e 1962 (video-teipe)
- A "mitologização" de Pelé: jogador que viveu a transição do rádio (e cinema) para a televisão