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A Insustentável Leveza do Ser: Uma Viagem Filosófica

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Manuel João Pires

on 10 April 2018

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Transcript of A Insustentável Leveza do Ser: Uma Viagem Filosófica

"O eterno retorno é uma ideia misteriosa de Nietzsche (...): pensar que um dia, tudo o que se viveu se há-de repetir outra vez e que essa repetição se há-de repetir uma e outra vez, até ao infinito!
Que significado terá esse mito insensato?
"O mito do eterno retorno diz-nos
pela negativa
que esta vida, que há-de desaparecer de uma vez por todas para nunca mais voltar é semelhante a uma sombra, é desprovida de peso (...) não tem qualquer sentido."
"Mas, algo se alterará se vier a repetir-se um número incalculável de vezes?
"Sem dúvida que sim:
Há uma enorme diferença entre um Robespierre que apareceu uma única vez na história e um Robespierre que eternamente voltasse para cortar a cabeça aos franceses."
"A ideia do eterno retorno designa uma perspetiva em que as coisas não nos aparecem como é costume, porque nos aparecem sem a circunstância atenuante da sua fugacidade."
"Como seria, se (...)
"Não te lançarias ao chão, rangendo os dentes e amaldiçoando o demónio que assim falava?
Ou experimentaste alguma vez um portentoso instante, em que lhe responderias:
Tu és um deus e eu nunca ouvi nada de mais divino
."
Nietzsche,
A Gaia Ciência
, §341
"É melhor ficar com Tereza ou ficar sozinho?
Nunca se pode saber o que se deve querer porque só se tem uma vida que não pode ser comparada com vidas anteriores nem retificada em vidas anteriores.
Tudo se vive imediatamente pela primeira vez, sem preparação.
Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado.
Tomás repete em silêncio... uma vez não conta, uma vez é nunca.
Não se poder viver senão uma vida é pura e simplesmente como não viver."
"Se cada segundo da nossa vida tiver de se repetir um número infinito de vezes ficamos pregados à eternidade como Jesus Cristo à cruz.
Que ideia atroz! Era o que fazia Nietzsche dizer que a ideia do eterno retorno é o
peso
mais pesado.
"Se o eterno retorno é o fardo mais pesado, então, sobre tal pano de fundo, as nossas vidas podem recortar-se em toda a sua esplêndida
leveza
?"
"Que escolher, então?
O peso ou a leveza?"
"Foi a questão com que se debateu Parménides.
Considerava que um dos pólos da contradição era positivo e o outro negativo.
Parménides respondia que o leve é positivo e o pesado negativo.
Tinha razão ou não? O problema é esse."
"A história é como a vida do indivíduo.
Tal como a vida de Tomas, um dia acaba, sem que seja possível repeti-la uma segunda vez.
Se a história se pudesse repetir, seria interessante experimentar a outra eventualidade e depois comparar os resultados.
Como tal experiência não é possível, todos os raciocínios se reduzem a um mero jogo de hipóteses.
A história é tão leve como a vida do indivíduo,
insustentavelmente leve
..."
"Suponhamos que havia no universo um planeta onde pudéssemos vir ao mundo pela segunda vez.
Ao mesmo tempo lembrar-nos-íamos perfeitamente da vida passada na Terra, de toda a experiência já adquirida.
E talvez houvesse outro planeta onde viéssemos à luz pela terceira vez com a experiência das duas vidas anteriores.
E talvez fosse havendo sempre mais planetas onde a espécie humana fosse renascendo...
Nós cá na terra (o planeta número um), não podemos ter senão uma ideia muito vaga do que aconteceria ao homem nos outros planetas.
Tornar-se-ia mais sábio?
Poderá alguma vez ter a maturidade ao seu alcance?
Poderá chegar a ela através da repetição?
Só na perspetiva desta utopia é que as noções de pessimismo e otimismo têm sentido.
Otimista é quem pensa que a história humana será menos sangrenta no planeta número cinco.
Pessimista, quem não acredita nisso."
UMA VIAGEM FILOSÓFICA
Manuel João Pires
"Ao entrar no romance, a meditação muda de essência.
Fora do romance, encontramo-nos no domínio das afirmações: toda a gente está segura do que diz: um político, um filósofo, um porteiro.
No território do romance, não se afirma: é o território do jogo e das hipóteses.
A meditação romanesca é, portanto, por essência, interrogativa, hipotética."
Kundera,
l'Art du roman
"O romance não examina a realidade, mas sim a existência. E a existência não é o que se passou, a existência é o campo das possibilidades humanas, tudo o que o homem pode vir a ser, tudo aquilo de que ele é capaz. Os romancistas elaboram o
mapa da existência
ao descobrirem esta ou aquela possibilidade humana."
"Beethoven considerava o peso como algo de positivo.
O
peso
, a
necessidade
e o
valor
são três noções íntimas e profundamente ligadas: só é grave o que é necessário, só tem valor o que pesa.
O héroi beethoveniano é um halterofilista de pesos metafísicos."
"Achamos todos que é impensável que o grande amor da nossa vida seja algo de leve, algo que não pesa nada.
Supomos que já estava escrito que o nosso amor tinha de ser o que é.
Estamos todos convencidos de que o próprio Beethoven em pessoa, com o seu ar carrancudo e os cabelos em desordem, toca o seu
Es muss sein!
em homenagem ao grande amor da nossa vida.
Tereza: - "Se não te tivesse encontrado, tinha-me apaixonado por ele.
Tomas compreendera de súbito que Tereza se apaixonara por ele e não por Z, perfeitamente por acaso. Que havia no
reino dos possíveis
um número de amores não realizados por outros homens.
Tomas constatava que a história do grande amor da sua vida não estava marcada por um
Es muss sein
, mas antes por um
podia muito bem ser de outra maneira
.
Fora necessária toda uma série de seis acasos para fazer chegar Tomas até Tereza.
SEIS ACASOS
1. Surto muito grave de meningite.
2. Chefe de serviço chamado de urgência.
3. Chefe de serviço estava com ciática e Tomas foi chamado para o substituir.
4. Tomas instala-se no hotel onde Tereza trabalhava.
5. Tomas ficou com tempo livre antes do comboio e foi à cervejaria.
6. Tereza estava de serviço à mesa de Tomas.
"E essa mulher, essa encarnação do acaso absoluto, estava agora deitada a seu lado a dormir e a respirar profundamente."
"O acaso tem destes sortilégios, a necessidade não.
Para um amor se tornar inesquecível é preciso que, desde o primeiro momento, os acasos se reúnam nele como os pássaros nos ombros de São Francisco de Assis."
Mas...um encontro não é tanto mais importante e cheio de significação, quanto mais depende de um grande número de circunstâncias fortuitas?
"Dever-se-á concluir que não havia qualquer
Es muss sein
, qualquer grande necessidade na sua/nossa vida?
SIM
FUNDAMENTAL
"Uma
necessidade
, um
es muss sein
profundamente enraizado nele (em nós?) ao qual chegara não por acaso, nem por outra coisa qualquer que lhe (nos) fosse exterior."
BRINCADEIRA
VERDADE METAFÍSICA
LEVE
PESADO
VERDADE METAFÍSICA
BRINCADEIRA
PESADO
LEVE
AS DUAS VIAS
"Já não sabemos
pensar
como Parménides."
"... experiência humana fundamental que é a inconciliável dualidade do corpo e alma..."
PASSADO
"Coisa inquietante e desconhecida
Jaula em que existia algo que via, pensava, espantava-se."
ALMA
DUALISMO MENTE-CORPO
PRESENTE
Deixou de ser um mistério e inquietante
Alma = matéria cinzenta do cérebro
IDENTIDADE MENTE-CORPO
FISICALISMO
"Basta alguém estar loucamente apaixonado e ouvir os seus próprios intestinos gorgolejar para que a unidade da alma e do corpo, essa ilusão lírica da era científica se dissipe imediatamente".
O SONHO DE TEREZA
"Corpos todos iguais uns aos outros, todos igualmente desvalorizados como simples mecanismos sonoros e sem alma...
Felizes por estarem libertas do fardo da alma, dessa ilusão da diferença e por serem todas iguais.
CORPO E IDENTIDADE PESSOAL
"Se todas as partes do corpo lhe começassem a crescer e a diminuir até deixar de ter qualquer semelhança com Tereza...
ainda continuaria a ser a mesma, ainda haveria Tereza?
Com certeza que sim.
Mesmo supondo que Tereza passasse a ser completamente diferente de Tereza, a sua alma continuaria sempre a mesma e não poderia fazer nada senão assistir horrorizada ao que lhe estava a acontecer ao corpo.
Mas, então que relação haveria entre Tereza e o seu corpo?
O seu corpo teria algum direito de se chamar Tereza?
E se não tivesse o que designaria então esse nome?
Nada a não ser uma coisa incorpórea, intangível?
Desde a infância que a nudez era para Tereza a marca da uniformidade obrigatória do campo de concentração; a marca da humilhação.
A VIVÊNCIA DO CORPO
SABINA
VERSUS
TEREZA
SEXO
VERSUS
AMOR
EROTISMO
VERSUS
PUDOR
LIBERDADE
VERSUS
CULPA
IDENTIDADE
VERSUS
HOMOGENEIDADE
"Leva as coisas demasiado a sério, leva tudo para o trágico, não consegue compreender a alegre futilidade do amor físico.
Gostava de aprender a leveza."
LEVEZA
VERSUS
PESO
O seu drama não era o drama do peso, mas o da leveza.
O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser."
LIBERTINAGEM
VERSUS
FIDELIDADE
BABEL OU O RIO SEMÂNTICO
"O chapéu de coco era o leito de um rio e o que Sabina via correr era sempre outro rio, outro rio semântico:
O mesmo objeto suscitava sempre outra significação, mas nessa significação repercutiam-se todas as significações anteriores.
O chapéu de coco tornara-se o tema da partitura musical que a vida de Sabina era.
Um tema que estava constantemente a repetir-se, mas sempre com uma significação diferente;
Todas passavam pelo chapéu de coco como a água pelo leito de um rio; o leito do rio de Heráclito."
O ABISMO QUE SEPARAVA SABINA DE FRANZ:
"Enquanto falavam das suas vidas um ao outro, escutavam-se com grande avidez.
Compreendiam com toda a exatidão o sentido lógico das palavras do outro, mas não ouviam o murmúrio do rio semântico que corria através das palavras."
MULHER
FACTO:
VALOR:
TRAIÇÃO
BOM:
MAU:
MÚSICA
LIBERDADE:
OPRESSÃO:
Condição que não escolheu.
Nem todas as mulheres merecem ser chamadas
mulheres
.
Trair é sair da fila e ir em direção ao desconhecido.
A fidelidade é a virtude mais importante.
Liberta-o da solidão e da clausura.
O ruído persegue-a desde muito nova.
Fealdade Absoluta.
LUZ
Viver significa ver
Obscuridade pura e absoluta
DESFILES
REPRESSÃO:
mal fundamental e universal.
PROGRESSO:
a imagem da Europa e da sua história.
BELEZA NY
Involuntária, uma poesia mágica.
Um mundo estranho.
VERDADE
Só é possível se não houver público nenhum.
PRIVADO:
PÚBLICO:
viver numa casa de vidro.
"Enquanto as pessoas são novas e as partituras musicais das suas vidas só vão nos primeiros compassos, podem compô-las em conjunto e até trocarem temas.
Porém, quando se conhecem numa idade mais madura as suas partituras musicais já estão mais ou menos acabadas e cada palavra, cada objeto, tem um significado diferente na partitura de cada uma."
"O que é que procurava em todas as mulheres?
O amor físico não é sempre a eterna repetição do mesmo?
Há sempre uma pequena percentagem de inimaginável.
O facto de uma mulher gostar mais de queijo do que de doces é um sintoma de originalidade, mas essa originalidade é insignificante para conferir-lhe algum valor.
Só na sexualidade é que o milionésimo de diferente aparece como uma coisa preciosa, porque não está visível e tem que ser conquistado."
"Maldição e privilégio, felicidade e infelicidade - nunca ninguém sentiu tanto na pele o ponto em que essas oposições são intermutáveis e como é estreita a margem entre os dois pólos da existência humana. (...) ao ponto de já não haver diferença entre o nobre e o abjecto, entre o anjo e a mosca, entre Deus e a merda."
Se a maldição e o privilégio são uma e a mesma coisa, se não há diferenças entre o nobre e o vil, se o filho de Deus pode ser julgado por causa da merda, a existência humana perde as suas dimensões e torna-se de uma
leveza insustentável
."
" O filho de Estaline deu a vida pela merda.
(...) corre em direção ao arame farpado para lançar contra ele o corpo, como se estivesse a lançá-lo para o prato de uma balança que miseravelmente subisse soerguido pela infinita leveza de um mundo sem dimensões. (...) e o prato da balança nem sequer se mexeu."
"(...) a única morte metafísica no meio da estupidez universal da guerra."
A MERDA COMO PROBLEMA METAFÍSICO
"A merda é um problema teológico mais difícil do que o mal.
O desacordo com a merda é metafísico.
O instante da defecção é a prova quotidiana do caráter inaceitável da criação."
Das duas uma:
"ou a merda é aceitável
ou a maneira como nos criaram é inadmissível."
A VERTIGEM DOS OPOSTOS
TEODICEIA DA MERDA
ACORDO CATEGÓRICO COM O SER (GÉNESIS, I)
"o mundo foi criado tal como devia ser, o ser é bom."
"O acordo categórico com o ser tem como ideal estético um mundo onde a merda é negada e onde todos se comportam
como se
ela não existisse.
Esse ideal estético chama-se
kitsch
.
O
kitsch
é por essência a negação absoluta da merda
."
O
kitsch
exclui do seu campo de visão tudo o que a existência humana tem de inaceitável.
VARIAÇÕES DO
KITSCH
:
a ditadura do coração
O
KITSCH
TOTALITÁRIO
"Tudo quanto pode fazer perigar o
kitsch
é banido da vida:
O individualismo;
O ceticismo;
A ironia;
"Mas também a mãe que deixou a família ou o homem que gosta mais de homens do que de mulheres (...)"
"O
gulag
pode ser considerado como a fossa séptica para onde o
kitsch
totalitário despeja a porcaria."
"O
kitsch
é um biombo atrás do qual se esconde a morte."
"Nenhum de nós é um super-homem e escapa totalmente ao
kitsch
.
Por muito que o desprezemos, o
kitsch
não deixa de ser parte integrante da condição humana."
"O verdadeiro adversário do
kitsch
é o homem que pergunta.
A interrogação é como uma faca que rasga a tela do cenário para permitir que se veja o que está atrás."
"A fonte do
kitsch
é o acordo categórico com o ser.
Mas qual é o fundamento do ser? Deus? A humanidade? A luta? O amor? O homem? A mulher?
Como para esta pergunta há as mais variadas respostas, assim também há as mais variadas espécies de
kitsch
: o
kitsch
católico, o protestante, o judaico, o comunista, o fascista, o democrático, o feminista, o europeu, o americano, o nacional, o internacional,
etc
,
etc
."
VARIAÇÕES DO
KITSCH
O QUE RESTOU DE NÓS?
"O que restou de Tomas?
Uma inscrição: Ele queria o reino de Deus sobre a terra.
O que restou de Beethoven?
Um homem carrancudo com uma cabeleira inverosímil a pronunciar solenemente um
Es muss sein!
O que restou de Franz?
Uma inscrição:
Após um longo desvario, o regresso.
E sempre assim por diante.
Antes de nos esquecerem, hão-de transformar-nos em
kitsch
.
O
kitsch
é a estação de correspondência entre o ser e o esquecimento."
CINCO POSSIBILIDADES DE
TEODICEIA

O SENTIDO DA BELEZA
"A nossa vida quotidiana está sempre a ser bombardeada pelos acasos, mais exatamente por encontros fortuitos entre as pessoas e os acontecimentos.
"A vida humana também é assim que é composta - uma composição simétrica em que o mesmo tema aparece no princípio e no fim.
É composta como uma partitura musical.
O ser humano, guiado pelo
sentido da beleza
, transpõe o acontecimento fortuito e faz dele um tema que, em seguida, inscreverá na partitura da sua vida.
Como o compositor faz com os temas de uma sonata, está sempre a voltar a ele, a repeti-lo, a modificá-lo, a desenvolvê-lo, a transpô-lo.
Mesmo nos momentos de mais profunda desordem, é segundo as leis da beleza que, secretamente, o homem vai compondo a sua vida.
Não há, portanto, razão nenhuma para censurar aos romances o seu fascínio pelos misteriosos cruzamentos dos acasos, mas há boas razões para censurar o homem por ser cego a esses acasos na sua vida quotidiana e assim privar a vida da sua dimensão de beleza.
"(...) era o sentido da beleza que a libertava subitamente da angústia e lhe trazia um desejo renovado de viver.
Uma vez mais, os pássaros do acaso tinham poisado nos seus ombros.
Tinha os olhos marejados de lágrimas e a sua respiração tão próxima dava-lhe uma sensação de infinita felicidade."
A
COM
PAIXÃO:
Imaginação Afetiva

COMPAIXÃO
RAIZ '
PASSIO'
PREFIXO
COM
+
SENTIMENTO
SENTIR SIMPATIA POR QUEM SOFRE
PIEDADE
Amar alguém por compaixão é de facto não amar essa pesssoa.
"Ter compaixão (
com-sentimento
) é poder viver com o outro não só a sua infelicidade, mas sentir também todos os seus outros sentimentos: alegria, angústia, felicidade, dor.
Esta compaixão designa a mais alta capacidade de
imaginação afetiva
, ou seja, a arte da telepatia das emoções.
Na hierarquia dos sentimentos, é o sentimento supremo."
"Qual é a mulher que deve preferir?
(Tereza ou a mulher dos seus sonhos, a mulher do mito de Platão)
Põe-se a imaginar que vive num mundo ideal com a mulher que lhe apareceu em sonhos.
E Tereza, um dia, passa por baixo das janelas da casa onde eles vivem.
Está sozinha, pára no passeio e olha-o de longe com um olhar infinitamente triste.
E ele, ele não consegue suportar esse olhar.
Uma vez mais sente a dor de Tereza no âmago do seu próprio coração!
Uma vez mais, é presa da compaixão e encontra-se profundamente mergulhado na alma de Tereza.
Vai deixar o paraíso onde vive com a rapariga dos seus sonhos para se ir embora com Tereza, essa mulher nascida de seis acasos grotescos."
"O verdadeiro teste moral da humanidade (
o teste mais radical, aquele que por se situar a um nível tão profundo nos escapa ao olhar
) são as suas relações com quem se encontra à sua mercê: isto é, com os animais."
"Não há mérito nenhum em portarmo-nos bem com os nossos semelhantes.
Será sempre impossível determinar com um mínimo de segurança em que medida é que as nossas relações com outrém resultam dos nossos sentimentos, do nosso amor, do nosso desamor, da nossa benevolência ou do nosso ódio, e em que medida é que estão previamente condicionadas pelas relações de força existentes entre os indivíduos."
Ainda tenho nos olhos a imagem de Tereza sentada a afagar a cabeça de Karenine e a meditar no fracasso da humanidade.
Ao mesmo tempo, aparece-me outra imagem: a de Nietzsche a sair de um hotel em Turim.
Vê um cocheiro a vergastar um cavalo.
Chega-se ao pé do cavalo e, sob o olhar do cocheiro, abraça-se à sua cabeça e desata a chorar.
Nietzsche foi pedir perdão por Descartes ao cavalo.
E é desse Nietzsche que eu gosto, tal como gosto da Tereza que tem ao colo a cabeça de um cão mortalmente doente e que a afaga.
Ponho-os ao lado um do outro: tanto um como o outro se afastam da estrada em que a humanidade
dona e senhora da natureza
, prossegue a sua marcha sempre em frente.
AUTENTICIDADE
ÉTICA

O IDÍLIO
: O AMOR PARA ALÉM DO SEXO

O amor que a une a Karenine é
melhor
que o amor que existe entre ela e Tomás. Melhor e não
maior
.
O casal humano foi criado de tal forma que o amor do homem e da mulher é
a priori
de uma natureza inferior àquela que pode ter o amor entre um homem e um cão.
UMA NOVA UTOPIA:
"
Um mundo onde é possível amar sem ser importunado pela estupidez agressiva da sexualidade
."
É um amor
desinteressado
.
Tereza não quer nada de Karenine. Nunca se atormentou com as perguntas que torturam os homens e as mulheres: gostará ele de mim? Já terá amado alguém mais do que me ama a mim. Amar-me-á mais do que eu a amo?
Tereza aceitou Karenine tal e qual
como ele é
, não tentou modificá-lo, deu a sua anuência prévia ao seu universo de cão, não quer confiscar-lho, não tem ciúmes das suas tendências secretas.
E também o seu amor pelo cão é um amor
voluntário
, ninguém a obrigou a isso.
"O amor entre o homem e o cão é idílico."
"Nenhum ser humano pode presentear o outro com um idílio."
É um amor sem conflitos, sem cenas dilacerantes, sem evolução.
A FELICIDADE COMO DESEJO DE REPETIÇÃO
"Se em vez de ser um cão, Karenine fosse um ser humano, certamente que já teria dito a Tereza há muito tempo: «
Houve lá, já estou farto de vir todos os dias com um croissant na boca. Não és capaz de me arranjar outra coisa?
»
Nesta frase encontra-se resumida toda a maldição do homem.
Por isso, o homem não pode ser feliz:
A felicidade é desejo de repetição."
"Para os cães, o tempo não anda em linha reta, o curso do tempo não é um movimento contínuo sempre a direito, cada vez mais para diante, de uma coisa para a coisa seguinte.
Para eles, o tempo descreve um movimento circular como o tempo dos ponteiros do relógio, porque os ponteiros do relógio também não andam sempre estupidamente a direito, mas à volta do mostrador, dia após dia, na mesma trajetória."
"A ideia do eterno retorno proporciona-nos uma espécie de
teste existencial
.
É apresentado como algo sobre que nos devemos questionar se quisermos compreender como é a nossa
vida
e que tipo de
pessoa
nós somos.
Os lobos, e já agora os cães, conseguem passar no teste existencialista de Nietzsche de uma maneira que os humanos
raramente
conseguem.
Cada momento da vida de um lobo é para si completo. E a felicidade para eles encontra-se sempre no eterno retorno do mesmo.
A felicidade real reside apenas no que é o mesmo, no que é imutável.
Toda a alegria quer a eternidade;
Se dissermos que
sim
a um momento dissemos que
sim
a todos eles."
Mark Rowlands,
O Filósofo e o Lobo
"Iam a caminhar pela estrada sem falar.
Não falar era a única forma de não pensar em Karenine no passado.
Não tiravam os olhos de cima dele e estavam constantemente com ele.
Só estavam à espera do momento em que ele começasse a sorrir.
Mas ele não sorria: não fazia senão caminhar, sempre só com três patas.
Só o faz por nossa causa. Não tinha vontade nenhuma de sair. Só veio porque sabia que nós gostávamos - disse Tereza.
"O que ela dizia era triste, mas, apesar disso e sem se darem conta, eles eram felizes."
Iam de mãos dadas e ambos tinham a mesma imagem diante dos olhos: um cão que encarnava dez anos da sua vida em comum.
"Se eram felizes não era
apesar
da tristeza, mas
graças
à tristeza."
SER E TEMPO
ACASO
VERSUS
NECESSIDADE
CORPO
VERSUS
ALMA
KITSCH
OU A HARMONIA ONTOLÓGICA
Se pudermos dizer o mesmo, teremos passado no teste do eterno retorno.
Obrigado pela vossa atenção!
UMA EXPERIÊNCIA DE PENSAMENTO
O tempo humano não anda em círculos, mas avança em linha recta.
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