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Copy of História noturna: decifrando o Sabá

Combater em êxtase; Disfarçar-se de animais
by

Miriã Lúcia Luiz

on 25 September 2012

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Transcript of Copy of História noturna: decifrando o Sabá

photo credit Nasa / Goddard Space Flight Center / Reto Stöckli O FIO CONDUTOR...
Poderíamos tentar localizar o fio condutor do capítulo “Combater em Extase” a partir do velho Thiess, de oitenta anos, na época de 1692 (século XVII), em Livônia. OS JUÍZES...

Em vão, os juízes trataram de induzir o velho a admitir ter feito um pacto com o diabo. Thiess continuou a repetir com obstinação que os piores inimigos do diabo e dos feiticeiros eram os lobisomens como ele; depois de mortos, esses lobisomens iriam ao paraíso. (GINZBURG, 1, p. 141). A DECISÃO...

Já que se recussava [Thiess] a arrepender-se, foi condenado a dez chicotadas. (GINZBURG, 1, p. 141).

AS REAÇÕES...
Podemos imaginar o desconcerto dos juízes ao se defrontarem com um lobisomem que, em vez de assaltante de gado, era protetor das colheitas. Alguns estudiosos modernos reagiram de maneira semelhante. (GINZBURG, 1, p. 141-142). ALGUMAS FENDAS...

[...] a referência Thiess às batalhas pela fertilidade, das quais também participavam mulheres, parecia contradizer o primeiro ponto; a extravagância de detalhes como a luta contra as bruxas “no fim do mar”, o segundo. Daí o impulso para desvalorizar de forma mais ou menos sutil o testemunho. (GINZBURG, 1, p. 142). EM BUSCA DOS SILÊNCIOS DAS FONTES...

As confissões do velho lobisomem foram consideradas ecos farronices; ou, então, uma mescla desordenada de superstições e ritos; ou, ainda, uma sobreposição de elementos de sagas e de remotas recordações de vivências. Perante essa variante báltica tão excêntrica e incoerente, tentou-se reiterar a pureza original do mito guerreiro germânico centrado no “exército dos mortos”. (GINZBURG, 1, p. 142).
Reconhecer uma semelhança formal não é jamais uma operação óbvia. Os períodos em que Thiess e os benandanti travavam seus combates extáticos eram diferente; também diversas eram as armas adotadas por uns e outros contra bruxas e feiticeiros. Mas, por trás dessas divergências superficiais, reconhecemos uma analogia profunda, pois em ambos os casos se fala de:

(a) batalhas periódicas (b) travadas em êxtase (c) pela fertilidade (d) contra bruxas e feiticeiros.

Os maços de erva-doce empunhados pelos benandanti e os açoites de ferro brandidos pelos lobisomens devem ser entendidos não como elementos diversos, e sim isomorfos. O nexo, documentado no âmbito do folclore eslavo, entre nascer com o pelico e tornar-se lobisomem configura-se então como inesperado elo intermediário de caráter formal. Neste caso, tal nexo é reforçado por uma dado histórico: a presença de um componente eslavo na etnia e na cultura friulanas. (GINZBURG, 7, p. 149).

As incursões dos lobisomens bálticos nas adegas deverão ser associados àquelas realizadas “em espírito” pelos benandanti friulanos, que, “montando a cavaleiro dos tonéis, bebiam com uma gaita” – vinho, naturalmente, em vez de cerveja ou hidromel como seus companheiros do Norte. Em ambos, captamos o eco de um mito, o da sede insaciável dos mortos. (GINZBURG, 6, p. 148). UMA ESCUTA SENSÍVEL PARA CAPTAR FIOS E RASTROS...


O processo contra Thiess é um documento extraordinário; mas não é único. Outros testemunhos confirmam, em parte, seu conteúdo. (GINZBURG, 4, p. 144). MÚLTIPLAS FONTES... Também os benandanti friulanos carregavam em volta do pescoço, por vontade da mães, o pelico dentro do qual haviam nascido. Mas em seu futuro de camponeses não havia gloriosos empreendimentos principescos – só [...] lutar periodicamente “em espírito” pelas colheitas, na garupa de animais ou sob formas animalescas, empunhando maços de erva-doce contra bruxas e feiticeiros. A batalhas semelhantes afirmava ter ido, armado de um açoite de ferro e transformado em lobo, o velho Thiess. Ele não disse, é verdade, tê-las combatido “em espírito”; a uma dimensão mítica, não ritual – sem diferença da afirmação feita pela benandante Maria Panzona, de ter ido ao paraíso e ao inferno in anima e corpo, acompanhada pelo tio, que assumira a forma de borboleta. Em ambos os casos, percebe-se a tentativa de exprimir uma experiência extática captada como absolutamente real. (GINZBURG, 3, p. 144). Localização da região histórica Friuli, na Itália.



Mas do mesmo modo eram chamados também outros individuos (em grande parte homens) que afirmavam combater de tempos a tempos, armados com ramos de erva-doce, pela fertilidade dos campos, contra bruxas e feiticeiros armados de caules de cevada. (GINZBURG, 3, p. 142-143).

O benandanti ("Walkers bom"), andarilhos do bem, como são chamados em Friuli, eram agrária  "culto de fertilidade" na Friuli distrito do Norte de Itália nos séculos 16 e 17. O benandanti alegou viajar para fora de seus corpos durante o sono a lutar contra as bruxas más ( Streghe ), a fim de garantir boas colheitas para a temporada por vir. Entre 1575 e 1675, no meio dos primeiros julgamentos de bruxas modernas , o benandanti foram julgados como hereges ou bruxas sob a Inquisição Romana , e suas crenças assimiladas para o satanismo .  
Supõe-se que nesses mitos paralelos, dispersos numa âmbito espacial e temporal tão vasto, se exprimisse um arquétipo agressivo profundamente radicado na psiquê humana, transmitido por via hereditária sob a forma de disposição psicológica, do Paleolítico em diante. Trata-se, com é óbvio, de uma hipótese não demonstrada. Mas às perplexidades de caráter geral que ela suscita agregam-se outras específicas. (GINZBURG, 2, p. 142). A AMPLA DISPERSÃO DAS CRENÇAS EM LOBOS...
 

A CONSTITUIÇÃO DOS ESPAÇOS-TEMPOS DE PESQUISA...
 
Desde o século V a.c., Heródoto falava de homens capazes de transformar-se periodicamente em lobos. Na África, na Ásia, no continente americano, foram localizadas crenças análogas, referidas a metamoforses temporárias de seres humanos em leopardos, hienas, tigres, jaguares. (GINZBURG, 2, p. 142). Até agora, foram os inquisidores, os pregadores e os bispos a guiar nossa pesquisa; as analogias que o olho deles, quase sempre infalíveL, havia descoberto acompanhando o fio condutor de Diana, “deusa dos pagões”, tinham sugerido uma primeira organização do material.[...] A impossibilidade de recorrer aos esforços comparativos dos perseguidores dificultou não só a interpretação mas também a própria reconstituição da série documental. Aqui, a estratégia morfológica, que fizera brilhar a possibilidade de um substrato eurasiático sob o culto extático da deusa noturna, era a única utilizável. (GINZBURG, 7, p. 149). TECENDO OS FIOS E CONSTRUINDO O TECIDO/PANO DE FUNDO DA PESQUISA... Vários elementos induzem a estender essa conexão para além dos confins espaciais, cronológicos e culturais do mundo antigo mediterrâneo. O período preferido pelos lobisomens para suas correrias pelas aldeias germânicas, bálticas e eslavas – as doze noites entre o Natal e a Epifania – corresponde àquele em que as almas dos mortos vagavam pelo mundo. [...] Uma morte simbólica – o êxtase – transparece sob as narrativas do velho lobisomem Thiess, tão parecidas com aquelas dos benandanti friulanos. A transformação em animal ou a cavalgada na garupa de animais expressavam que a alma distanciava-se temporariamente do corpo exânime. (GINZBURG, 5, p. 147). [...] essa variedade é acompanhada de alguns elementos recorrentes. Em primeiro lugar, a transformação é sempre temporária embora de duração variável; [...] Em segundo lugar, é precedida de gestos com sabor de ritual [...].


As duas interpretações não se contradizem, desde que se reconheça, por um lado, que a morte é a passagem por excelência e, por outro, todo rito iniciático tem como eixo uma morte simbólica. Sabe-se que no mundo antigo o lobo era associado ao mundo dos mortos: na tumba etrusca de Orvieto por exemplo, Hades traz como capuz uma cabeça de lobo. (GINZBURG, 5, p. 147).
Uma visão ou uma análise diacrônica nos remete a um momento especifico, ou seja, ao conhecimento de um momento específico. Uma visão ou uma análise sincrônica nos remete à tempos comparados, ou seja, ao conhecimento de vários momentos ao longo de um tempo ou de várias épocas. Se uma história diacrônica nos remete a um momento determinado num tempo específico, a perspectiva sincrônica na história nos remete à correlação (comparação) entre vários momentos em um longo tempo. O TRABALHO MORFOLÓGICO... (da diacronia histórica para uma perspectiva sincrônica) O TRATADO DE PEUCER

Não obstante [...], o tratado de Peucer transmite uma série de detalhes (só em parte retomados no escrito de Witekind) que contradizem a imagem corrente dos lobisomens. Estes se vangloriam de manter distantes as bruxas e de combatê-las, quando elas se transformam em borboletas; assumem (ou melhor, creem assumir) forma de lobos durante os doze dias compreendidos entre o Natal e a Epifania, induzidos pela aparição de um menino manco [...](GINZBURG, 4, p. 145-146). INTERROGANDO AS FONTES... NOVAS FENDAS... As batalhas em prol da fertilidade, porém, não são o único ponto de contato entre os lobisomem Thiess e os benandanti. No mundo eslavo (da Rússia à Sérvia), acreditava-se que estivesse destinado a tornar-se lobisomem quem nascia com o pelico. Uma crônica contemporânea conta que um mago implorou à mãe do príncipe Vseslav de Polok, morto em 1101, após ter sido por breve tempo rei de Kiev, que amarrasse no menino a membrana na qual estava envolto ao nascer, de modo que pudesse tê-la sempre consigo. Por isso, comenta o cronista, Vseslav foi tão representado como verdadeiro lobisomem. GINZBURG, 3, p. 144). OUTRAS CONEXÕES DO LOBISOMEM DE THIESS E O BENANDANTI COM O LOBISOMEM DE VSESLAV (UCRANIANO)....  
O espírito dos (ou das) benandanti deixava por algum tempo o corpo exânime, às vezes em forma de rato ou borboleta, em outras ocasiões na garupa de lebres, gatos e outros animais, para dirigir-se em êxtase rumo às procissões dos mortos ou às batalhas contra bruxas e feiticeiros. Nos dois casos [de beanadanti], a viagem da alma era comparada pelos próprios benandanti a uma morte provisória. No final da viagem, ocorria o encontro com os mortos. (GINZBURG, 3, p. 142-143). O DIÁLOGO COM E ENTRE AS FONTES...

As dificuldades interpretativas levantadas pelas confissões de Thiess desaparecem no momento em que associamos às batalhas contra bruxas e feiticeiros descritas por ele os combates em êxtase dos bernandanti. (GINZBURG, 3, p. 142-143).
 
AS IDENTIDADES EMPRESTADAS AOS BERNANDANTI...

Com esse termo, como já dissemos, eram designados no Friul, entre o século XVI e XVII, aqueles (tratava-se, em sua maioria, de mulheres) que afirmavam assistir periodicamente às procissões dos mortos. (GINZBURG, 3, p. 142-143). O Formicarius,
escrito entre 1435 e 1437 por Johannes Nider durante o Concílio de Basileia e publicado pela primeira vez em 1475 , foi o segundo livro impresso em feitiçaria . Nider lida especificamente com a bruxaria na quinta seção do livro. O Formicarius é um trabalho importante porque mostra que para o início do século XV , e os ensaios foram acontecendo e tortura de pessoas acusadas de serem bruxas.
Nider foi um dos primeiros a transformar a ideia de bruxaria para as percepções modernas de bruxaria. Em Formicarius de Nider, a Feiticeira retratado como mulheres sem instrução e, mais comumente. A idéia de que qualquer um poderia realizar atos de magia simplesmente dedicados às diabo pessoas assustadas do tempo e provou ser um dos fatores que levaram as pessoas a temer a magia começar. A idéia de que os magos eram predominantemente mulheres também foi chocante para muitos. Nider explicou que as mulheres eram capazes de tais atos para destacar o que ele considerava a sua capacidade moral, física e mentalmente inferior.
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Mais ou menos no mesmo período, cristalizou-se a imagem hostil da bruxa. Não se trata de uma coincidência casual. No Formicarius, Nider fala de feiticeiros que se transformam em lobos; nos processos do Valais, do inicio do século XV, os acusados confessaram ter assumido temporariamente a forma de lobos e atacado o gado. Desde os primeiros testemunhos sobre o sabá, as conexões entre feiticeiros e lobisomens parecem, portanto ser muito fortes. Mas também aqui testemunhos anômalos, talvez tardios, como o de Thiess, permitem romper a crosta do estereótipo, fazendo aflorar um estrato mais profundo. (GINZBURG, 2, p. 142-143).
[...] nos textos medievais – sobretudo os literários -, os lobisomens são representados como vítimas inocentes do destino ou até como personagens benéficas. Só por volta de meados do século XV o halo contraditório que circunda esses seres ambíguos, ao mesmo tempo humanos e bestiais vais sendo progressivamente cancelado pela sobreposição de um estereótipo feroz – o do lobisomem devorador de rebanhos e crianças. (GINZBURG, 2, p. 142-143). DA AMBIGUIDADE DOS LOBISOMENS À HEGEMONIA DA FACE MALIGNA...
 
As pesquisas realizadas no final do século XIX pelos folcloristas russos confirmaram e enriqueceram tais testemunhos. No período compreendido entre o Natal e o Ano Novo, afirmam os ossetas, alguns individuos, deixando o corpo imerso no sono, vão em espírito à terra dos mortos. Trata-se de um grande prado, chamado burku, no dialeto digor, e kurys, no dialeto iron; aqueles que têm a capacidade de chegar lá são chamados, respectivamente, burkudzäutä e kurysdzäutä. (GINZBURG, 10, p. 153). EXISTE UMA CULTURA SUBSTRATO MEDITERRÂNEA COMUM AOS POVOS A SER RECUPERADA.  
Os etruscos têm muitos atributos: dominavam a arte de decorar tumbas.
Dentre os 12 deuses do Olimpo, Hades é o deus do mundo dos mortos.

Na mitologia grega, Cérbero era um monstruoso cão de múltiplas cabeças e cobras ao redor do pescoço que guardava a entrada do Hades, o reino subterrâneo dos mortos. Hades e Cérbero, numa antiga escultura.
[...] essa suposta continuidade étnica, que está longe de ser demonstrada, não explica por que crenças análogas sobre lobisomens estavam presentes em áreas culturais heterogêneas – mediterrânea celta, germânica, eslava – ao longo de enorme intervalo de tempo.

Podemos perguntar se de fato se trata de crenças análogas. Certamente, de tempos a tempos a capacidade de transformar-se em lobos é atribuída a grupos de consistência muito diferente. (GINZBURG, 5, p. 146). RIGOR FLEXÍVEL... Graças a esse precioso informante, que pelo nascimento e pela língua estava próximo das tradições populares bálticas, chegou-nos uma informação – a hostilidade dos lobisomens contra as bruxas – que num ponto substancial coincide com as confissões de Thiess, atenuando seus aspectos anômalos. Pode-se entrever um fundo de crenças bem distantes do estereótipo negativo do lobisomem.
(GINZBURG, 4, p. 146). CONECTANDO FIOS E RASTROS... Num tratado surgido em Heidelberg em 1585, com o título Christlich Bendcken Und Erinnerung Von Zauberey (“Consideração cristã e memória sobre a magia”), o autor [...] discutiu num capítulo especial [...] que se tratava de ilusão diabólica [...] embora entre os eruditos fosse difundida também a tese contrária: isto é, que as transformações de bruxas e lobisomens em animais fosse um fenônemo físico indiscutível. [...] A singularidade do Christlich Bendcken deve ser buscada alhures. Em parte, o tratado baseava-se num colóquio que Witekind [o autor], livônio de nascimento [...] tivera com um lobisomem seu conterrâneo. (Na Livônia, terra de lobisomens, nascera também como se recordará, o velho Thiess) (GINZBURG, 4, p. 144) CEVADA - Os alimentos pagãos tradicionais do Sabá são frutas vermelhas (como cerejas e morangos), saladas de ervas, ponche de vinho rosado ou tinto e bolos redondos de aveia ou cevada, conhecidos como bolos de Beltane.
  ERVA-DOCE - Planta consagrada a Zeus, Apolo e Ártemis. Sementes de erva-doce em bolsas de feitiço contra o mau olhado, são muito eficazes. Pendure os ramos de erva-doce nas janelas e portas e afastará feitiços e espíritos inimigos e hostis.
Os Benandanti (Xamãs que lutavam contra espíritos malignos e Bruxos inimigos em batalhas astrais na região do Friuli, na Itália da Idade Média) utilizavam em seu arsenal mágico ramos de erva-doce (devido a sua ligação com o mito de Prometeu, gigante que roubou o Fogo dos Deuses e o trouxe aos homens, escondido num talo de erva-doce; desde então, essa planta passou a ser associada ao Fogo Celestial).  


No caso que estamos discutindo, por exemplo, a imagem dos lobisomens como protetores da fertilidade contradiz o presumido núcleo agressivo do mito. Que valor atribuir a esse testemunho, que aparenta ser excepcional? (GINZBURG, 2, p. 142). INTERROGANDO ÀS FONTES
(Perguntas Fortes)... Caspar Peucer
Um eco dessa conversa pode ser identificado numa rápida referência de Caspar Peucer ao diálogo entre um “homo sapiens” (sem dúvida Witekind” e um lobisomem, definido em forma erudita como “Licáon rútico”, por causa do mítico rei da Arcádia [...] A referência surge na reedição ampliada do Commentarius de praecipuis generibus divinationum de Peucer, publicada em 1560, ou seja, 25 anos antes do Christlich Bendcken. (GINZBURG, 4, p. 145). INDÍCIOS E SINAIS O inverso de um bielorrusso, moeda comemorativa de prata emitida em 2005 com Vseslav ("Usiaslau") de Polotsk e uma representação dele como um lobisomem em segundo plano. Príncipe Vseslav de Polok Este culto floresceu no Friuli, uma região isolada do norte da Itália, onde a cultura italiana, germânica e eslava encontram e se misturam. Os praticantes deste culto, homens e mulheres foram "vestidos", isto é, com membrana amniótica cobrindo parte do corpo, especialmente a cabeça. A tradição visionária noturna do benandanti levou a Inquisição Romana para acusá-los de serem bruxas, satanistas malévolos retratado neste xilogravura 1508. Neste capítulo tento compreender aquilo que considero ser o núcleo folclórico do sabá, ou seja, o vôo mágico e a metamorfose em animais. Coloquei-me o problema do núcleo folclórico e procurei recolher fenômenos com uma preocupação puramente formal, alheia a qualquer consideração de ordem histórica, cronológica ou geográfica. Reconstituí séries de fenômenos ligados entre si do ponto de vista estrutural, no nível da morfologia profunda, dispersos pelo continente eurasiano (GINZBURG, Carlo. História e Cultura: Conversa com Carlo Ginzburg. In:_ Estudos Históricos: Rio de Janeiro, vol. 3, n.6, 1990, p. 261). Em suma, esses elementos podem estar presentes em mitos, ritos e nas experiências extáticas, de modo intercambiável. Ginzburg se utiliza da análise de estruturas dialéticas encontradas em mitos e ritos (em festas ou cerimônias periódicas).

Estruturas que, muitas vezes, formam paralelismos antitéticos, pares de opostos.
A periodicidade das duas variantes dos encontros noturnos variava caso a caso, todavia grande parte dos encontros noturnos acontecia em datas ligadas aos mortos – principalmente os doze dias entre a véspera de natal e a epifania – mas há casos em que são apenas datas pré-estabelecidas. Os benandanti e os kresnik se encontravam durante os quatro tempos, os lobisomens e os burkudzäutä durante os doze dias.
Grande parte dos encontros noturnos acontecia em datas ligadas aos mortos – principalmente os doze dias entre a véspera de natal e a epifania – mas há casos em que são apenas datas pré-estabelecidas. Os benandanti e os kresnik se encontravam durante os quatro tempos, os lobisomens e os burkudzäutä durante os doze dias. UMA SÉRIE DE CRENÇAS IDENTIFICADAS NA ISTRIA, NA ESLOVÊNIA, NA CROÁCIA E AO LONGO DA COSTA DÁLMATA ATÉ MONTENEGRO, ANÁLOGAS ÀQUELAS SOBRE OS BENANDANTI PROTETORES DAS COLHEITAS, INSCREVEM-SE PERFEITAMENTE NESSA CONFIGURAÇÃO. Semelhanças (ANALOGIA ESTRUTURAL) entre OSSETAS, BENANDATI FRIULANOS, LOBISOMENS BÁLTICOS COMO THIESS, KRENSKI BACÂNICOS, TÁLTOS HÚNGAROS:

• O êxtase;
• O vôo rumo ao mundo dos mortos na garupa de animais;
• A luta contra os mortos para arrancar as sementes da fertilidade;
ÚNICO ELEMENTO QUE ASSOCIA TODOS OS COMPONENTES DA SÉRIE: A CAPACIDADE DE CAIR PERIODICAMENTE EM ÊXTASE. Analogias entre os xamãs e os protagonistas das batalhas travadas em êxtase:
• Em algumas partes da Sibéria, tornar-se xamã é hereditário, mas entre os yurak-samoiedas o futuro xamã é designado por uma particularidade física – ter nascido com o pelico, como um benandati ou um lobisomem eslavo;
• Para os xamãs, o início da vocação ocorre numa idade variável, assim como para os personagens vistos; Pelo fato de os contextos culturais diferirem de maneira tão marcada, as SEMELHANÇAS entre os êxtases dos xamãs eurasiáticos e os de seus colegas europeus parecem impressionantes:

•A alma do xamã abandona o corpo exânime, transformada em lobo, urso, rena, peixe ou montada na garupa de uma animal (cavalo ou camelo) que, no rito, é simbolizado pelo tambor.
•Após algum tempo, o xamã sai da catalepsia e conta aos espectadores o rito que viu, o que percebeu, o que fez no outro mundo; • No tambor dos xamãs reconheceu-se em muitos casos uma representação do mundo dos mortos.
• Mas também os protagonistas do culto extático, escassamente documentado no continente europeu, consideravam-se e eram considerados mediadores entre os vivos e os mortos.
• Em ambos os casos, as metamorfoses em animais e as cavalgadas na garupa exprimiam simbolicamente o êxtase: a morte temporária marcada pela saída da alma, que, sob a forma de animal, desprende-se do corpo. Ginzburg demonstra, ao percorrer esses personagens e suas manifestações de rituais e crenças, que as batalhas pela fertilidade, considerando as exceções já referidas, quase desaparecem. Ás vezes, conforme o autor, se capta um eco distorcido, em detalhes mínimos. COMBATER EM ÊXTASE

Ginzburg procura construir uma espécie de série composta por protagonistas que realizam batalhas em êxtase. Procura evidenciar, a partir de aspectos possivelmente negligenciáveis em uma pesquisa num critério monotético, que permitem estabelecer analogias entre os diferentes personagens que, em comum, realizam as batalhas extáticas. Em seguida, busca nuançar as possíveis conexões com os xamãs eurasiáticos. Pela via de testemunhos fragmentados, distantes no tempo e no espaço, procura evidenciar a profundidade dos substratos culturais que posteriormente se cristalizaram no estereótipo do sabá.
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