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Memórias de um sargento de milícias

estudo da obra
by

Isabel Fernandes

on 9 June 2016

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Transcript of Memórias de um sargento de milícias

Memórias de um sargento de milícias
Único livro, na literatura brasileira, cujas memórias não são escritas
pelo protagonista, mas por um terceiro que se propõe a construir o
relato, substituindo sua voz.
LINGUAGEM
* linguagem simula espontaneidade: frases em ordem direta, vocabulário do cotidiano e termos populares, pouco uso de sentido figurado
* termos arcaicos contribuem para a verossimilhança: indicam tempo da narração [tempo do rei D. João VI]*
Os meirinhos de hoje são homens como quaisquer outros; nada têm de imponentes,
nem no seu semblante nem no seu trajar; confundem-se com qualquer procurador,
escrevente de cartório ou contínuo de repartição. Os meirinhos desse belo tempo
não, não se confundiam com ninguém; eram originais, eram tipos: nos seus sem-
blantes transluzia um certo ar de majestade forense, seus olhares calculados e saga-
zes significavam chicana. Trajavam sisuda casaca preta, calção e meias da mesma
cor, sapato afivelado, ao lado esquerdo aristocrático espadim, e na ilharga direita
penduravam um currículo branco, cuja significação ignoramos, e coroavam tudo
isto por um grave chapéu armado. Colocado sob a importância vantajosa destas
condições, o meirinho usava e abusava de sua posição.

(cap.1)
Manuel Antônio de Almeida
romance-reportagem
ROMANCE DE COSTUMES
Estuda e descreve hábitos e costumes da população carioca da primeira metade do século XIX.
* foco narrativo em 3a pessoa é deslocamento estilístico em relação ao gênero memorialístico
* memórias coletivas da sociedade carioca mais do que do indivíduo representado pelo personagem

Como todos sabem, a festa do Espírito Santo é uma das festas prediletas do povo
fluminense. Hoje mesmo que se vão perdendo certos hábitos, uns bons, outros maus,
ainda essa festa é motivo de grande agitação; longe porém está o que agora se passa
daquilo que se passava nos tempos a que temos feito remontar os leitores. A festa não
começava no domingo marcado pela folhinha, começava muito antes, nove dias,
cremos, para que tivessem lugar as novenas. O primeiro anúncio da festa eram as
Folias. Aquele que escreve estas memórias ainda em sua infância teve ocasião de ver
as Folias, porém foi já no seu último grau de decadência...

(cap. 19)

PERSONAGENS

Pertencem às camadas populares do chamado “velho Rio”, do início do
século XIX, representam características de grupos sociais.

* personagens tipológicos [planos]: representam tipos sociais e funções que exercem na comunidade à qual pertencem, por meio de profissões, características físicas, traços relevantes da personalidade [parteira, barbeiro, meirinho, fidalgo, mestre de reza, policial]

O autor não aprofunda as análises das paixões individuais, das complexidades das personalidades. Por isso, não são personagens invidualizadas e, consequentemente, não apresentam singularidades.
* tipologia social: observação de estereótipos de modo caricatural [exagerado]

* documento histórico da sociedade brasileira: como interagiam os grupos sociais, a cultura da troca de favores, os meios lícitos e ilícitos para sobreviver, a tentativa de estabelecer a ordem social, as instituições religiosas, real, judiciária, policial, familiar, a autoridade e o autoritarismo.

* o narrador ironiza os personagens e suas ações e escolhas [desse modo se afasta deles por meio da crítica]

* O protagonista é malandro, opta por viver à parte das regras sociais até certo ponto da narrativa.


Núcleo da desordem social:
Leonardo Pataca
Maria da Hortaliça
Leonardinho
José Manuel
Chiquinha
Vidinha e sua família
cigana
Chico Juca
macumbeiros

PERSONAGENS OSCILAM ENTRE OS DOIS PLANOS: fazem coisas que poderiam ser qualificadas como reprováveis,
mas também fazem outras dignas de louvor, que as compensam. E como todos têm defeitos, ninguém merece censura.

Se, por um lado, os homens livres no Brasil do século XIX se assemelham aos senhores por não serem escravos, por outro lado, assemelham-se aos escravos por dependerem dos favores dos poderosos.

Núcleo da ordem social:
Luisinha
Dona Maria
Madrinha
Padrinho
Major Vidigal
Maria Regalada
padre
fidalgos
meirinhos
granadeiros


... pode-se dizer que a colonização produziu,
com base no monopólio da terra, três classes de população: o latifundiário, o escravo e o ‘homem livre’, na verdade dependente.
Entre os primeiros dois a relação é clara, é a multidão dos terceiros que nos interessa. Nem proprietários, nem proletários, seu
acesso à vida social e a seus bens depende materialmente do favor, indireto ou direto, de um grande. O agregado é sua
caricatura.
Roberto Schwartz

O mestre de reza era tão acatado e venerado naquele tempo como o próprio
mestre de escola; além do respeito ordinariamente tributado aos preceptores,
dava-se uma circunstância muito notável, e vem a ser que os mestres de reza
eram sempre velhos e cegos. Não eram em grande número, por isso mesmo
viviam em grande atividade, e ganhavam sofrivelmente. Andavam pelas casas
a ensinar a rezar aos filhos, crias e escravos de ambos os sexos. Não tinha traje
especial; vestia-se como todos, e só o que o distinguia era ver-se-lhe constante-mente fora de um dos bolsos o cabo de uma tremenda palmatória, de que andava armado, compêndio único por onde ensinava seus discípulos.

(cap. 27)
HERÓI ( ANTI-HERÓI )

Leonardinho, o protagonista, é um anti-herói, que vive às margens da sociedade.
Por meio de seu olhar rebelde, é possível ao narrador fazer uma análise crítica da sociedade à qual pertence.
Pode ser identificado como picaresco, do “pícaro” espanhol, ou quixotesco, termo derivado de Dom Quixote, obra de Miguel de Cervantes. O pícaro vive deslocado da sociedade, sendo incompreendido e ridicularizado, suas ações são aparentemente desconexas, mas há uma sabedoria em viver livremente, ao acaso, que muitas vezes leva ao sucesso, outras ao insucesso.
Outra análise aponta para a figura do malandro carioca: tipo social que sobrevive com atividades que subvertem os valores da sociedade.
Quando saltaram em terra começou a Maria a sentir certos enojos; foram os dois
morar juntos; e daí a um mês manifestaram-se claramente os efeitos da pisadela
e do beliscão; sete meses depois teve a Maria um filho, formidável menino de qua-
se três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão; o
qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas seguidas sem largar o peito. E es-
te nascimento é certamente de tudo o que temos dito o que mais nos interessa,
porque o menino de quem falamos é o herói desta história.
(cap. 1)
NARRADOR

A focalização de Memórias de um sargento de milícias se dá em terceira
pessoa, narrador observador, sem caracterizar uma
análise psicológica. O narrador apenas observa a comunidade sem realizar o mergulho no universo íntimo das personagens,
como se verifica nos romances psicológicos.

Narrador onisciente: 3ª pessoa.
Apesar de ser intitulado de memórias não tem foco narrativo em 1ª pessoa.
São memórias porque retomam o passado recente em relação ao momento em que foi escrito, relembram a sociedade.
Momento enunciado: “Era o tempo do rei.” – 1808 a 1822
Momento da enunciação: período em que foi escrito – 1852-1853




ESTRUTURA DA NARRATIVA

romance de estrutura episódica
• capítulos são relativamente curtos
• muitos capítulos são cenas quase independentes que têm início e fim [episódios que narram aventuras dos dois Leonardos]
• percursos narrativos longos, encadeados aos episódios
Leonardinho: DESAJUSTE SOCIAL exclusão familiar > liberdade e malandragem > amor por Luisinha > rejeição por Luisinha > exclusão familiar > amor por Vidinha > malandragem > amor por e de Luisinha ADEQUAÇÃO SOCIAL
Leonardo Pataca: amor por Maria da Hortaliça > desilusão amorosa > amor pela cigana > desilusão amorosa > amor pela cigana > desilusão > amor por Chiquinha > estabilidade
• saltos narrativos

digressão: pausa na narração para dialogar com o leitor
• estabelecer vínculo com o leitor
• esclarecer ação narrada
• comentar sobre a narrativa
• informar sobre sociedade e costumes da época
Em certas casas os agregados eram muito úteis, porque a família tirava grande
proveito de seus serviços, e já tivemos ocasião de dar exemplo disso quando
contamos a história do finado padrinho de Leonardo; outras vezes porém e es –
tas eram em maior número, o agregado, refinado vadio, era uma verdadeira pa–
rasita que se prendia à árvore familiar, que lhe participava da seiva sem ajudá –
la a dar os frutos, e o que é mais ainda, chegava mesmo a dar cabo dela. E o caso
é que, apesar de tudo, se na primeira hipótese o esmagavam com o peso de mil
exigências, se lhe batiam a cada passo com os favores na cara, se o filho mais velho
da casa, por exemplo, o tomava por seu divertimento, e à menor e mais justa
queixa saltavam-lhe os pais em cima tomando o partido de seu filho, no segundo
aturavam quanto desconforto havia com paciência de mártir.
(cap. 33)


SUBVERTE O MODELO DO ROMANCE ROMÂNTICO TRADICIONAL, POR MEIO DA MALÍCIA E DA DESCARACTERIZAÇÃO DOS VALORES INSTITUCIONALIZADOS.


* União de Leonardo Pataca e Maria da Hortaliça.
* Amores livres de Maria da Hortaliça antes e durante o casamento.
* Inadaptação do herói à escola, à igreja, à família e ao trabalho.
* Vida marginal do herói, perseguido pela ordem social.
* Flerte entre Leonardinho e Luisinha, no velório de José Manuel.
Leonardo achou Luisinha uma moça espigada, airosa mesmo, olhos e cabelos pre-
tos, tendo perdido todo aquele acanhamento físico de outrora. Além disso seus
olhos, avermelhados pelas lágrimas, seu rosto empalidecido, se não verdadeira-
mente pelos desgostos daquele dia, seguramente pelos antecedentes, tinham nessa
ocasião um toque de beleza melancólica, que em regra geral não devia prender
muito a atenção de um sargento de granadeiros, mas que enterneceu ao sargento
Leonardo que, apesar de tudo, não era um sargento como qualquer. E tanto assim,
que durante a cena muda que se passou, quando os dois deram com os olhos um no
outro, passaram rapidamente pelo pensamento de Leonardo os lances de sua vida
de outrora...
(cap. 47)
ROMANCE DE TRANSIÇÃO

Memórias de um Sargento de Milícias apresenta componentes culturais do romantismo, mas, ao mesmo tempo, em sua arquitetura interna surgem elementos que antecipam propostas da estética realista.
romântico

* cenas dinâmicas - movimento exterior
* retrato social sem análise aprofundada

* final feliz

antecipação realista

* presença do anti-herói
* opção pelas camadas populares
* malandragem e malícia
* solvência do maniqueísmo

TEMPO - ESPAÇO - RIO DE JANEIRO


INÍCIO DO SÉCULO XIX D. JOÃO VI

Nasceu em 1831, no bairro da Gamboa, no Rio de Janeiro, numa família de classe média baixa. Seus pais eram portugueses, o pai era tenente e a mãe, dona de casa.
Com a morte do pai, na adolescência teve de trabalhar para sustentar a casa.
Estudou Medicina, começou a escrever em jornais e traduzir folhetins
Aos 20 anos, passou a trabalhar em 1852, no Correio Mercantil, escrevendo artigos assinados e outros anônimos.
Saiu do jornal em 1856, após ter se formado em Medicina.
Jamais exerceu essa profissão, indo empregar-se como diretor da Tipografia Nacional, onde conheceu o jovem Machado de Assis.
Morreu em 1861, em um naufrágio na costa do Rio de Janeiro.

A primeira publicação em livro foi feita em dois volumes, um em 1854 e outro em 1855.
O romance foi publicado antes em forma de folhetim na sessão Pacotilha do jornal Correio Mercantil, no Rio de Janeiro, entre 1852 e 1853, um capítulo por semana.

A autoria do livro somente passou a ser atribuída a Manoel Antônio de Almeida na edição de 1863, após sua morte.

O Brasil de 1852 não era muito diferente do Brasil de 1808 a 1821, período em que D. João VI e sua corte ocuparam o Rio de Janeiro, fugindo da invasão de Napoleão.

O governo de D. Pedro II afirmava que o país progredia e que a situação colonial era distante. Com ironia, o autor mostra semelhanças entre os dois períodos.

Apesar de a obra não conter direcionamento partidário, as críticas ao “tempo do rei” – sistema judiciário, educacional, clero, nobreza, polícia, sistema de proteção e compadrio – podem ser consideradas uma metáfora da situação do Brasil em 1852, trinta anos após a independência de Portugal ter sido feita.

Foi publicado no momento da campanha eleitoral num jornal a favor dos liberais. O humor era comum no séc. XIX em folhetos políticos, nos quais os adversários se acusavam de idiotas, ladrões, egoístas, vagabundos.

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