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Lisboa, por Fernando Pessoa e amigos

Roteiro Pessoano - Português
by

Marta Zany

on 20 January 2014

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Transcript of Lisboa, por Fernando Pessoa e amigos

Continuando o nosso percurso pela plana calçada da Baixa, eu, Álvaro de Campos, serei a sua cordial companhia.
Em direção à Praça da Figueira, a brisa lisboeta deixa no ar o amor vivido entre Ophélia e Pessoa. Este amor nasceu na Rua da Assunção, na firma Félix, Valladas & Freitas em 1919, uma das firmas em que Pessoa trabalhou.

Lisboa, por Fernando Pessoa e amigos
Fim da visita
"To know someone, walk a mile in their shoes" - Para se conhecer alguém, é necessário colocarmo-nos no seu lugar.
Este roteiro possibilita um melhor entendimento de Pessoa pois vendo e ouvindo o que este via e ouvia, é mais acessível captar sentimentos que o grande poeta, outrora, captou.
Lisboa, por Fernando Pessoa e amigos
Se fui considerado o marco da cultura portuguesa, em muito fui influenciado pela cidade onde vivi e morri.
Lisboa e os seus pormenores aparecem refletidos na minha obra quer no campo da poesia, quer na prosa, e é com base nesses textos que este roteiro nasce, contando com a participação de grandes artistas como Ricardo Reis, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Bernardo Soares.
Venha conhecer com mais pormenor alguns aspetos citadinos ainda existentes que fizeram parte do nosso quotidiano.


Margarida Campos; Maria Borges; Marta Caldeira
Estação Cais do Sodré
Chegando ao fim da Rua do Alecrim, encontramo-nos no famoso Cais do Sodré.
Eu, Alberto Caeiro, guia-lo-ei neste Cais que beija o rio e onde reina a azáfama, onde lhe apresentarei o meu poema "Pastor Amoroso", para que fique a entender o ternurento e épico amor de Fernando e Ophélia - o melhor possível, pois o amor não se entende, não é verdade?
Tomarei igualmente a liberdade de lhe ler uma carta que Pessoa escreveu à sua "Bebezinha", aconselhando-a a apanhar o comboio nesta mesma Estação!
Este local era bastante frequentado tanto por mim, como por Pessoa... A mim, tocavam-me as altas copas das árvores que me lembravam o campo; a ele, pois era aqui que comprava os jornais ingleses, um velho hábito seu.

"Meu Bebezinho pequeno:

(…)
O que te queria perguntar era o que fazias amanhã, em vista da greve dos eléctricos, que naturalmente não dura só hoje. Não te dispões, com certeza a ir até Belém a pé? (…)

Acabo de escrever este parágrafo, e lembro-me que há comboios para Belém. Irás de comboio, Bebé. E onde tomas o comboio — em Santos, no apeadeiro? Talvez te seja difícil encontrar lugar ali, pois muita gente irá do Cais do Sodré (…).

Não sei o que faça, Bebezinho. Já perguntei aqui no Café Arcada, de onde te estou escrevendo, mas não sabem as horas dos comboios da linha de Cascais, nem têm horário.(…)

Muitos beijinhos do teu Fernando"
Fernando Pessoa, in Cartas para Ophélia

(...)
Tu não me tiraste a Natureza...
Tu não me mudaste a Natureza...
Trouxeste-me a Natureza para ao pé de mim.
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma (…)

(...)
Agora que sinto amor
Tenho interesse nos perfumes.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.(...)


O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
(…) E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

(...)
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
(…) Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só pensar ela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.
(...) Amei, e não fui amado, o que só vi no fim,
Porque não se é amado como se nasce mas como acontece.
Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes,
E eu continuo como era dantes, sozinho no campo.

(...)
O pastor amoroso perdeu o cajado,
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu...
Nunca mais encontrou o cajado (…)”


Alberto Caeiro, "O Pastor Amoroso"
“Querida bebezinha,

(…) À hora a que sais de casa para almoçar, vindo de casa da tua irmã, acontecia muitas vezes vir eu de casa e passar pelo Cais do Sodré e Rua do Arsenal, onde compro todos os dias jornais ingleses. (…)”

Fernando Pessoa, in Cartas para Ophélia
Gare Marítima

Deixando para trás o Cais, chegamos à Gare Marítima de Alcantâra, local bastante admirado tanto por mim, Álvaro de Campos, como por Pessoa.
Edificada no âmbito da modernização dos portos que servem Lisboa, representa a amizade entre dois artistas futuristas: das artes, Almada Negreiros e das letras, Fernando Pessoa.
Na primeira exposição dos trabalhos de
Almada Negreiros, Pessoa fez-se ouvir,
criticando-a. Negreiros, indignado, protestou contra o mesmo, quando este lhe disse:
"Oh meu amigo, de arte eu não percebo nada."

Daqui nasceu uma grande amizade, transcrita na ilustração de Almada Negreiros da grande obra “ Ode Marítima”, de Álvaro de Campos.
A representação das imagens a que Álvaro de Campos se refere na sua obra está exposta na Gare Marítima de Alcantâra; estes painéis formam um "livro de imagens".


Rua do Arsenal
Levo-o de seguida à Rua do Arsenal, onde eu, Alberto Caeiro, morei. É mais que uma casa, é mais que uma rua, é Lisboa em contacto com a Natureza, com as sensações.
Sendo eu um poeta feito de impressões, que vibra com cada cheiro, cada ruído, cada rasgo de luz e cor, a Rua do Arsenal representa para mim o mundo cheio de tudo isto. Não me canso de observar, não me canso de escutar, não me canso de cheirar... E sendo esta rua o meu paraíso na Terra, a fonte inesgotável de tudo o que admiro, não me canso de a recordar.
“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem por que ama, nem o que é amar...”

Alberto Caeiro, "O Guardador de Rebanhos", 1914

Terreiro do Paço
Seguiremos para o Terreiro do Paço, a praia de Lisboa que eu, Álvaro de Campos, tanto venero. É frente a frente com o Tejo que sou feliz. É o Tejo que me inspira a alma, fazendo-a vaguear por entre sentimentos; é este rio virtuoso que alimenta a minha veia literária.
Para que melhor entenda a satisfação que sinto ao vislumbrar este corredor de água que separa a minha cidade da cidade de outro alguém, apresento-lhe excertos do poema que escrevi sobre o rio, sobre Lisboa e, por ser eu tudo isto, sobre mim.
"Ó céu azul — o mesmo da minha infância — Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta."

Álvaro de Campos, "Lisbon Revisited" 1923

Martinho da Arcada
“Querido bebezinho do Ibis:

A carta que te escrevi ainda agora e que já deitei no correio, não contém, como no fim dela te disse, tudo quanto eu te queria escrever. O caso é que, quando eu ia quase no fim (…) apareceu o primo no Café Arcada, onde eu estava escrevendo, e onde estou, também, escrevendo esta.”

Fernando Pessoa, in Cartas para Ophélia, 1920
De forma a descansar um pouco as pernas, convido-o a juntar-se a mim, Fernando Pessoa, num café e bagaço no estabelecimento
Café da Arcada
(ou
Martinho da Arcada
, nome recente).
Situado nas arcadas do Terreiro do Paço, é, sem margem de dúvida, o meu café predilecto.
As reuniões que aqui decorriam eram sumárias, encontrava-me com os meus velhos companheiros e juntos discutíamos vários assuntos mediáticos da época, nomeadamente a literatura e a arte. Deste grupo formado, eu era sempre o mais jovem.
Aqui escrevi vários poemas e cartas, a mesa do fundo era o meu escritório nas horas vagas.
Foi nesta casa que sempre me acolheu que bebi o meu último café, na companhia do meu amigo Almada Negreiros. Mas os assuntos do fim, ficam para o fim.
Percurso na Baixa
Praça da Figueira
Encontramo-nos na Praça da Figueira, local de inspiração e reflexão, onde emergem sentimentos que a razão não compreende. Talvez seja por nunca ter entendido o porquê de este local despertar algo em mim, que ele efetivamente desperta.


"A Praça da Figueira de manhã,
Quando o dia é de sol (como acontece
Sempre em Lisboa), nunca em mim esquece,
Embora seja uma memória vã.
Há tanta coisa mais interessante
Que aquele lugar lógico e plebeu,
Mas amo aquilo, mesmo aqui... Sei eu
Porque o amo? Não importa nada. Adiante...
(...)"
Álvaro de Campos, "A Praça da Figueira de manhã"
1913
Rua dos Douradores
Descemos agora no sentido da rua dos Douradores, que toda a vida me acolheu.
Convido-o para um agradável almoço no restaurante Pessoa que, por coincidência ou obra do destino, partilha o mesmo apelido que um dos clientes habituais - Fernando Pessoa, que muitas vezes se sentou comigo à mesa.
Enquanto esperamos, apresento-lhe a minha profunda e complexa obra que redigi num escritório desta rua, onde misturei a realidade e a ficção.
"Penso às vezes que nunca sairei da Rua dos Douradores. E isto escrito, então, parece-me a eternidade. (...)E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, (...). Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a solução de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que é o que não pode ter solução."

Bernardo Soares, "Livro do Desassossego", 1913
Hospital de S. Luiz
A única certeza que o Homem pode ter durante a sua vida é que ela, inevitavelmente, acabará.
Foi neste hospital, a 30 de Novembro de 1935, que a minha vida chegou ao fim.
Nunca receei a morte, pois sempre soube que esta seria inelutável e estou certo que o Homem só morre se não ficar ninguém para o lembrar.
Foi neste mesmo Hospital que redigi a frase que vos apresento - a última da minha autoria.
REPRODUÇÃO DA NOTÍCIA DA MORTE E ENTERRO DADA PELO “DIÁRIO DE NOTÍCIAS”
MORREU FERNANDO PESSOA, grande poeta de Portugal

Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da Mensagem, poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se tem escrito, foi ontem a enterrar.
Surpreendeu-o a morte, num leito cristão do Hospital de S. Luiz, no sábado à noite.
Ele não tinha uma actividade «una», uma actividade dirigida: tinha múltiplas actividades.
Na poesia não era só ele: Fernando Pessoa; ele era também Álvaro de Campos e Alberto Caeiro e Ricardo Reis. E era-os profundamente, como só ele sabia ser. E na poesia como na vida. E na vida como na arte.
Tudo nele era inesperado. Desde a sua vida, até aos seus poemas, até à sua morte.
Inesperadamente, como se se anunciasse um livro ou uma nova corrente literária por ele idealizada e vitalizada, correu a notícia da sua morte. Um grupo de amigos conduziu-o ontem a um jazigo banal do Cemitério dos Prazeres. Lá ficou, vizinho de outro grande poeta que ele muito admirava, junto do seu querido Cesário, desse Cesário que ele não conhecera e que, como ninguém, compreendia.
Se Fernando Pessoa morreu, se a matéria abandonou o corpo, o seu espírito não abandonará nunca o coração e o cérebro dos que o admiravam. Entre eles fica a sua obra e a sua alma. A eles compete velar para que o nome daquele que foi grande não caia na vala comum do esquecimento.
"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
(...)
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.
(...)
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
(...)"
Ricardo Reis, in "Odes"
Apresento-lhe a visão que o meu amigo Ricardo Reis tem do rio, uma metáfora para a efemeridade da vida e a certeza da morte:
"Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar…)."

Álvaro de Campos, "Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa", 1944
Largo de S. Carlos

Igreja dos Mártires
Rua de S. Marçal
Brazileira
Largo de Camões
Rua do Alecrim
Este roteiro inicia-se no Largo de São Carlos. Foi no n.º4, 4.º Esq, às três horas e vinte e quatro minutos da tarde de 13 de Junho de 1888, que nasci.

O edifício pertence agora à Caixa Geral de Depósitos, foi classificado pelo Instituto de Gestão do Património, recuperado e alugado.
"Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui..."
Álvaro de Campos, "Lisbon Revisited", 1926
"A aldeia onde eu nasci fica entre S. Carlos e a Igreja dos Mártires". Nos meus tempos de criança a melodia mais popular eram os sinos daquela igreja, cujas badaladas me faziam sonhar.
Aqui fui batizado em 21 de julho de 1888.

"Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.
(..)
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto."
Fernando Pessoa, "Ó sino da minha aldeia", 1913

De seguida, convido-o a visitar a segunda casa onde vivi. Foi para a Rua de São Marçal n.º 104 3.º andar que me mudei com a minha mãe e irmãos após a triste e precoce morte do meu pai. A mudança para esta casa representa também o início de uma infância difícil e melancólica, cujas recordações me acompanharam a vida inteira, como lhe mostro no meu poema "Quando as crianças brincam".
Nesta rua poderá encontrar a primeira quadra que escrevi e que dediquei à minha mãe –"À minha mamã".

"E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém."
Fernando Pessoa, "Quando as crianças brincam" 1933

Subiremos agora até ao Largo de Camões, onde ficava a casa da irmã de Ophélia, a minha amada. Era meu hábito passar aqui para lhe poder sorrir à janela. Sentemo-nos, para que possa conhecer a dimensão do nosso amor através de uma breve leitura de cartas trocadas.
"(...)Vês, meu Bebé adorado, qual o estado de espírito em que tenho vivido estes dias, estes dois últimos dias sobretudo? E não imaginas as saudades doidas, as saudades constantes que de ti tenho tido. Cada vez a tua ausência, ainda que seja só de um dia para o outro, me abate; quanto mais não havia eu de sentir o não te ver, meu amor, há quase três dias!
Diz-me uma coisa, amorzinho: Porque é que te mostras tão abatida e tão profundamente triste na tua segunda carta — a que mandaste ontem pelo Osório? Compreendo que estivesses também com saudades; mas tu mostras-te de um nervosismo, de uma tristeza, de um abatimento tais, que me doeu imenso ler a tua cartinha e ver o que sofrias. O que te aconteceu, amor, além de estarmos separados? Houve qualquer coisa pior que te acontecesse? Porque falas num tom tão desesperado do meu amor, como que duvidando dele, quando não tens para isso razão nenhuma?(...)"

Fernando Pessoa, in Cartas para Ophélia

"(...)Não me conformo com a ideia de escrever; queria falar-te, ter-te sempre ao pé de mim, não ser necessário mandar-te cartas. As cartas são sinais de separação — sinais, pelo menos, pela necessidade de as escrevermos, de que estamos afastados.
Não te admires de certo laconismo nas minhas cartas. As cartas são para as pessoas a quem não interessa mais falar: para essas escrevo de boa vontade. A minha mãe, por exemplo, nunca escrevi de boa vontade, exactamente porque gosto muito dela.
Quero que sintas isto, que saibas que eu sinto e penso assim a este respeito, para não me achares seco, frio, indiferente. Eu não o sou, meu Bebé-menininho, minha almofadinha cor-de-rosa para pregar beijos (que grande disparate!)(...)"

Fernando Pessoa, in Cartas para Ophélia
"(...)Disseste-me hoje que se eu estava habituada e gostava de divertimentos que tinha escolhido mal o homem. Mas diz meu amor, que maior divertimentos aspiro eu que não seja o de estar junto de ti?! Viver contigo e sermos muito muito amiguinhos?! (Como havemos de sê-lo). Desejosa estou eu por tão grande felicidade!
Não te esqueças do retrato «Nininho».
Não me faças esperar muito!
Amanhã lá nos encontraremos no nosso ponto de encontro.
Mostrei o meiguinho a minha mãe, achou muita piada.
[...]
Adeus e nunca, nunca te esqueças do teu bebezinho, não?
Agradeço muito os teus beijinhos – e envio-te milhares deles na impossibilidade de o fazer pessoalmente, temos que nos limitarmos a transmiti-los desta forma.
Sou e serei sempre muito tua amiguinha
Ophélia Queiroz"

Ophélia Queiroz, in Cartas para Ophélia

"(...) Escreveste tão poucochinho! Podias ter escrito mais [,] meu amor! Tu não gostas de mim [,] pois não Fernandinho? Gostas? Muito... não gostas lindo amor? Crê Fernandinho, juro-te por tudo que me não sais do pensamento, és tu que suavizas, que desfazes todas estas séries de trapalhadas que me sucedem, vingo-me em pensar em ti para me esquecer de tudo quanto me é desagradável. Eu 2a feira vou consultar o médico, eu hoje estava para consultar mas não quis, mas sempre me resolvo, e depois como também o meu Fernandinho me aconselhou que era melhor [,] eu obedeço. É para que vejas que sou obediente!! O Osório disse a minha mãe que vinha cá amanhã buscar a resposta, e eu dou-lhe esta para ele te entregar e fico com a de ontem para te dar pessoalmente. (...)"

Ophélia Queiroz, in Cartas para Ophélia
À medida que descemos a Rua do Alecrim, serei eu – Ricardo Reis – que guiarei o roteiro.
Convido-o a conhecer esta magnífica rua lisboeta que parte do Largo de Camões e desagua no Cais do Sodré.
Foi aqui que morei, mais precisamente no antigo Hotel Bragança – atual Lx Boutique – onde fiquei alojado quando regressei do Brasil.

Ricardo Reis
Fernando Pessoa
"Ah o Grande Cais donde partimos em Navios-Nações!
O Grande Cais Anterior, eterno e divino!
De que porto? Em que ágoas? E porque penso eu isto?
Grande Cais como os outros cais, mas o Único.
Cheio como êles de silêncios rumorosos nas antemanhãs,
E desabrochando com as manhãs num ruído de guindastes
E chegadas de comboios de mercadorias,
E sob a nuvem negra e ocasional e leve
Do fumo das chaminés das fábricas próximas
Que lhe sombreia o chão preto de carvão pequenino que brilha,
Como se fôsse a sombra duma nuvem que passasse sôbre água sombria."

Álvaro de Campos, "Ode Marítima"
Agora, recomendo uma pequena paragem num dos meus cafés de eleição – a Brasileira. Situada junto ao Largo de Camões, representa para mim não só um ponto de encontro com artistas e amigos – como Almada Negreiros e Santa Rita Pintor – que levaram à criação da revista Orpheu, mas também o local onde redigi diversas cartas e apontamentos pessoais. Por ter sido um local de tamanha assiduidade, foi edificada uma estátua minha, racionalizando o porquê de racionalizar, pensando o quão bom seria não pensar. Sente-se e aprecie o movimento lisboeta enquanto disfruta de algo que engane a fome.
Alberto Caeiro
"(…) nome Ricardo Reis, idade quarenta e oito anos, natural do Porto, estado civil solteiro, profissão médico, última residência Rio de Janeiro, Brasil(…)"

"(…) deste teríamos de dizer que é seco de carnes, grisalho, e moreno, e de cara rapada(…)"

José Saramago, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”


"(...) não fosse isto um recatado quarto de hotel, sem luxos, fosse duzentos e dois o número da porta, e já o hóspede poderia chamar-se Jacinto e ser dono de uma quinta em Tormes, não seriam estes episódios de Rua do Alecrim mas de Campos Elísios, à direita de quem sobe, como o Hotel Bragança e só nisso é que se parecem. (...)"

José Saramago, "0 Ano da Morte de Ricardo Reis"
"Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal."
Fernando Pessoa, "Tenho Tanto Sentimento"
"(...)
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza."

Alberto Caeiro, "Poemas Inconjuntos"
Álvaro de Campos
"Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser..."

Álvaro de Campos
Bernardo Soares
E assim me despeço...
"(...) O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de tenue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual (...)"

Fernando Pessoa, Carta a Adolfo Casais Monteiro, 1935
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