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Sentimento do Mundo - Carlos Drummond de Andrade

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gracia coimbra

on 24 October 2014

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Transcript of Sentimento do Mundo - Carlos Drummond de Andrade

INTERIORIDADE X EXTERIORIDADE
“A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança…
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!
nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo… O mundo não tem remédio…
Os suicidas tinham razão.

Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam

na escuridão
como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes
se enlaçam,

os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão
simples e macio
Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.”
A noite dissolve os homens
Carlos Drummond de Andrade
1940 - Publica "Sentimento do Mundo"

3ª fase - SOCIAL - "eu menor que o mundo"

sentimento do mundo
Relação
interioridade X exterioridade
ao redor do mundo
pessoas a sua volta
lugares a sua volta
lembranças
sentimento interno
emoções
afloramento do
interno
lado intimo
A NOITE
DISSOLVE
OS HOMENS
ESCURO
MELACOLIA
ESCURIDÃO QUE DOMINA TUDO
DESTRUIÇÃO
ACABAR RAPIDAMENTE
"NÃO SOBRA NADA"
NEGATIVO
PENSAMENTO A TONA
SENTIMENTO
REFERENTE AO MUNDO
A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança…
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.
chegada do exterior = noite
noite no sentido figurado,
mostra algo grande que
invadiu tudo
o exterior cega o interior
algo maior que toma a todos
vitimas (eu-lírico interior)
(exterior)
TENSÃO

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!
nas suas fardas.
sem eperança do eu
a noite dissolve
separa em pedaços
pequenos
separa tanto o individuo
quanto grupos unidos
em lados diferentes
A noite anoiteceu tudo… O mundo não tem remédio…
Os suicidas tinham razão.

Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
noite "ganha" e toma
tudo
falta da solução
justifica a morte
no ponte de vista do eu
exterior
interior
contradição
eu - ainda há esperança
contradição
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.
treva noturna perde
> esperança
PARTE 1
O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam

na escuridão
como um sinal verde e peremptório.
descoberta do
exterior, noite = nazistas
novo mundo que se
encontra em recomposiçaõ
mundo ainda
em choque
a noite que sai da
esperança

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes
se enlaçam,
eu sobrevive "a noite"
o que dá um grande impacto
reencontro do anterior
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão
simples e macio
Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.”
união do exterior
-tintas = sangue
-sangue = impacto e vida
-impacto e vida necessários para
a construção do novo mundo
amanhecer = saída da noite
e começo do novo mundo
O poema é separado em duas partes

gerais, a primeira foca no sentimento do eu-lírico (parte interior) em relação ao externo. A segunda parte a tanto um desenvolvimento desse sentimento quanto a descoberta do que é o externo (A segunda guerra mundial), esclarecendo os sentimentos anteriores do eu.
Essa separação faz com que o poema tenha um foco. O poema não fala sobre a guerra ou o nazismo, e sim sobre o mundo e o sentimento interno dele em relação a isso.
Análise
SEPARAÇÃO
Privilégio do mar
Neste terraço mediocremente confortável,
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.

O edifício é sólido e o mundo também.

Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vem cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.

O mundo é mesmo de cimento armado.

Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta... improvável...
Mas nas águas tranquilas só há marinheiros fiéis.
Como a esquadra é cordial!

Podemos beber honradamente nossa cerveja.
Neste terraço mediocremente confortável,
bebemos cerveja e olhamos o mar.
Sabemos que nada nos acontecerá.
eu-lírico interior:
-calmo
-tranquilo
PRIVILÉGIO
DO MAR
POSITIVO
SORTE
VALORIZAÇÃO
VANTAGEM
CALMA
AZUL
(cor fria acalma)
IMENSIDÃO
NATUREZA
O edifício é sólido e o mundo também
edifício - interior
mundo - exterior
solidez de ambos
Sabemos que cada edifício abriga mil corpos
labutando em mil compartimentos iguais.
Às vezes, alguns se inserem fatigados no elevador
e vem cá em cima respirar a brisa do oceano,
o que é privilégio dos edifícios.
edifício - metáfora para o corpo
do eu, o interior
corpos - metafora para sentimentos
comportamentos se alteram
de acordo com exterior (mar)
metáfora para o bem estar
O mundo é mesmo de cimento armado.
exterior resistente
Certamente, se houvesse um cruzador louco,
fundeado na baía em frente da cidade,
a vida seria incerta... improvável...
Mas nas águas tranquilas só há marinheiros fiéis.
Como a esquadra é cordial!

Podemos beber honradamente nossa cerveja.
externo
frente da cidade: na frente do interno
águas tranquilas = sentimentos
marinheiros = interno
= viver em paz
o poema é uma metáfora referente aos sentimentos do eu-lirico.
O prédio refere ao interno (o eu), a cidade é o externo passando na frente do interno (o mundo), o mar e as ondas são os sentimentos desencadeados desses dois elementos.

Interno e externo se relacionam nesse poema na forma de espaço e sentimento. Como o eu-lírico s vive é determinado pelos seus próprios sentimentos. E o que ele sente é determinado pelo o exterior.

O eu-lírico conta sobre a chegada da noite e tudo o que está acontecendo em decorrência disso. Mas na verdade a noite é a guerra.
O eu-lírico está sentado em um terraço olhando o mar. No poema, ele está relacionando dois espaços diferentes: o mar e a cidade. Isso segue com os sentimentos do eu-lírico que cada paisagem trás.
Paráfrase:
Repetição
Nesse poema há o uso de repetição da palavra
noite. Isso dá ênfase a palavra e consequentemente da ênfase no que o eu-lírico quer passar com ela. O leitor vai análisar e absorver o poema a partir disso.
Paráfrase
http://www.recantodasletras.com.br/biografias/1028817
http://www.ucs.br/etc/conferencias/index.php/anpedsul/9anpedsul/paper/viewFile/1850/585
http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/portugues/sentimento-mundo-analise-obra-carlos-drummond-andrade-697605.shtml
Livro anterior - "Brejo das Almas"


INDIVIDUALISMO
X
UNIVERSALIDADE


SENTIMENTO DO MUNDO
BREJO DAS ALMAS

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.


Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.

SENTIMENTO DO MUNDO
CONTEXTO HISTÓRICO

- Fim da Primeira Guerra Mundial
- iminência a Segunda Grande Guerra,
- imposição do Estado Novo de Getúlio Vargas
- crescimento do Nazi-fascismo,
O poeta nos revela sua limitação e impotência perante o mundo, mas se declara "cheio de escravos"

- Ponto de vista pessoal
- Conflito entre EU X MUNDO
- Sujeito pequeno (apenas)
- Cheio de antíteses
- Busca sair de si para uma presença no mundo
mundo
pessoal
solidão
finaliza com a noite
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo
mas estou cheio de escravos
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
("Sentimento do mundo)

Sentimento do Mundo
Carlos Drummond de Andrade
Perspectiva única para enfrentar os tempos difíceis é a união, as soluções coletivas
São 28 poemas produzidos entre 1935 e 1940.
Traz o olhar do poeta sobre o mundo à sua volta, tendendo para um olhar crítico e significativamente político. É uma obra que retrata um tempo de guerras, de pessimismo e sobretudo, de dúvidas sobre o poder de destruição do homem. Mas também traz soluções como "a união faz a força"

A dor é o "Sentimento do Mundo"; dor de todos os homens e que se concentra em um só – o poeta

É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.
("Poema da necessidade")

O poeta sente-se responsável pelas pessoas a sua volta; sofre por elas; (res)sente-se elas
O "nós" é muito empregado em Sentimento do Mundo e é através de "nós" que surgirá a esperança. Ressalte-se que ela, a Esperança, nunca está no presente, mas, sempre, no futuro, virá. Vem, assim como a dor personificada, em imagens possíveis de se encontrar em nosso cotidiano
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas
(Mãos Dadas)
Repensar a história nacional com humor e ironia
Verso livre e poesia sintética
Nova postura temática – questionar mais a realidade e a si mesmo enquanto indivíduo

Literatura mais construtiva e mais politizada.
Surge uma corrente mais voltada para o espiritualismo e o intimismo
Aprofundamento das relações do eu com o mundo
Consciência da fragilidade do eu
Tentativa de interpretar o estar-no-mundo e seu papel de poeta
Características literárias
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações no encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas de dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Elegia 1938
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo
mas estou cheio de escravos
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
("Sentimento do mundo)

Sentimento do Mundo
Carlos Drummond de Andrade
Perspectiva única para enfrentar os tempos difíceis é a união, as soluções coletivas
São 28 poemas produzidos entre 1935 e 1940.
Traz o olhar do poeta sobre o mundo à sua volta, tendendo para um olhar crítico e significativamente político. É uma obra que retrata um tempo de guerras, de pessimismo e sobretudo, de dúvidas sobre o poder de destruição do homem. Mas também traz soluções como "a união faz a força"

A dor é o "Sentimento do Mundo"; dor de todos os homens e que se concentra em um só – o poeta

É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.
("Poema da necessidade")

O poeta sente-se responsável pelas pessoas a sua volta; sofre por elas; (res)sente-se elas
O "nós" é muito empregado em Sentimento do Mundo e é através de "nós" que surgirá a esperança. Ressalte-se que ela, a Esperança, nunca está no presente, mas, sempre, no futuro, virá. Vem, assim como a dor personificada, em imagens possíveis de se encontrar em nosso cotidiano
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas
(Mãos Dadas)
Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.


-Consciência do medo - maior que a vida urbana
- Repetição do medo
- Medo coletivo - 1ª pessoa do plural
- Possui versos de tamanhos variados (sílabas poéticas também distintas) e ritmo longo, tornando-o lento, principalmente por causa das várias vírgulas presentes, que dão ideia de pausa. MEDO
- Flor amarela = covardia
Canção do berço -

O amor não tem importância.
No tempo de você, criança,
uma simples gota de óleo
povoará o mundo por inoculação,
e o espasmo
(longo demais para ser feliz)
não mais dissolverá as nossas carnes.

Mas também a carne não tem importância.
E doer, gozar, o próprio cântico afinal é indiferente.
Quinhentos mil chineses mortos, trezentos corpos
[de namorados sobre a via férrea
e o trem que passa, como um discurso, irreparável:
tudo acontece, menina,
e não é importante, menina,
e nada fica nos teus olhos.


Também a vida é sem importância.
Os homens não me repetem
nem me prolongo até eles.
A vida é tênue, tênue.
O grito mais alto ainda é suspiro,
os oceanos calaram-se há muito.
Em tua boca, menina,
ficou o gosto do leite?
ficará o gosto de álcool?

Os beijos não são importantes.
No teu tempo nem haverá beijos.
Os lábios serão metálicos,
civil, e mais nada, será o amor
dos indivíduos perdidos na massa
e só uma estrela
guardará o reflexo
do mundo esvaído
(aliás sem importância).
- menina é a filha Maria Julieta
- autobiográfico (íntimo) x algo maior e político
- amargo, sem promessas de fut
Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.




Pouco importa que venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
- renúncia dos desejos
- inquietações pessoais,
- absoluta solidão: não importa a sua própria vida, o tempo que passa e a velhice que avança,
- face dos problemas do mundo,
- dolorosa consciência.
- solidário com os que sofrem.
- vida se impõe como uma ordem: ela deve continuar, para enfrentar a realidade de um mundo que ele imagina carregar nos ombros e que não deve pesar mais do que a mão de uma criança. (Atlás na mitologia)
Mãos dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
- consciência da existência de outros homens, seus companheiros.
- renuncia temas pessoais: uma mulher, uma história, a paisagem vista da janela.
- Não mais se refugiará na solidão
- interessa o tempo presente e os homens que o cercam.

O MAIS POSITIVO DOS POEMAS DESSA OBRA

O poema "Mãos dadas" anuncia a utópica solidariedade humana. Como um ativista dos direitos humanos Drummond muitas vezes nega a influência do mundo moderno em sua obra, é o fugir do individual e o olhar para o coletivo e a solidariedade. -
SENTIMENTO DE MUNDO, de Carlos Drummond (1940)
Relação de poemas
Sentimento de Mundo...................................................................................................03
Confidência do Itabirano.............................................................................................04
Poema da Necessidade.................................................................................................05
Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte..........................................................06
Tristeza do Império......................................................................................................08
Operário no Mar (prosa).............................................................................................09
Menino Chorando na Noite..........................................................................................10
Morro da Babilônia......................................................................................................11
Congresso Internacional do Medo..............................................................................12
Os Mortos de Sobrecasaca...........................................................................................13
Brinde No Juízo Final..................................................................................................14
Privilégio do Mar.........................................................................................................15
Inocentes do Leblon.....................................................................................................16
Canção do Berço..........................................................................................................17
Indecisão de Méier.......................................................................................................18
Bolero de Ravel............................................................................................................19
La Possession du Monde.............................................................................................20
Ode no Cinqüentenário do Poeta Brasileiro...............................................................21
Os Ombros Suportam o Mundo...................................................................................23
Mãos Dadas..................................................................................................................24
Dentaduras Duplas......................................................................................................25
Revelação do Subúrbio................................................................................................27
A Noite Dissolve os Homens........................................................................................28
Madrigal Lúgubre.......................................................................................................29
Lembrança do Mundo Antigo....................................................................................30
Elegia 1938..................................................................................................................31
Mundo Grande............................................................................................................32
Noturno à Janela do Apartamento............................................................................

Sentimento do mundo
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desjeo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desafiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais que a noite.

Confidências de um Itabirano
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento1 do que na vida é porosidade e
comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas2 que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
5
Poema da Necessidade
É preciso casar João, é preciso suportar Antônio, é preciso odiar Melquíades é preciso substituir nós todos. É preciso salvar o país, é preciso crer em Deus, é preciso pagar as dívidas, é preciso comprar um rádio, é preciso esquecer fulana. É preciso estudar volapuque, é preciso estar sempre bêbado, é preciso ler Baudelaire, é preciso colher as flores de que rezam velhos autores. É preciso viver com os homens é preciso não assassiná-los, é preciso ter mãos pálidas e anunciar O FIM DO MUNDO.
Operário do mar
Na rua passa um operário. Como vai firme! Não tem blusa. No conto, no drama, no discurso político, a dor do operário está na blusa azul, de pano grosso, nas mãos grossas, nos pés enormes, nos desconfortos enormes. Esse é um homem comum, apenas mais escuro que os outros, e com uma significação estranha no corpo, que carrega desígnios e segredos. Para onde vai ele, pisando assim tão firme? Não sei. A fábrica ficou lá atrás. Adiante é só o campo, com algumas árvores, o grande anúncio de gasolina americana e os fios, os fios, os fios. O operário não lhe sobra tempo de perceber que eles levam e trazem mensagens, que contam da Rússia, do Araguaia, dos Estados Unidos. Não ouve, na Câmara dos Deputados, o líder oposicionista vociferando. Caminha no campo e apenas repara que ali corre água, que mais adiante faz calor. Para onde vai o operário? Teria vergonha de chamá-lo meu irmão. Ele sabe que não é, nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E me despreza... Ou talvez seja eu próprio que me despreze a seus olhos. Tenho vergonha e vontade de encará-lo: uma fascinação quase me obriga a pular a janela, a cair em frente dele, sustar-lhe a marcha, pelo menos implorar lhe que suste a marcha. Agora está caminhando no mar. Eu pensava que isso fosse privilégio de alguns santos e de navios. Mas não há nenhuma santidade no operário, e não vejo rodas nem hélices no seu corpo, aparentemente banal. Sinto que o mar se acovardou e deixou-o passar. Onde estão nossos exércitos que não impediram o milagre? Mas agora vejo que o operário está cansado e que se molhou, não muito, mas se molhou, e peixes escorrem de suas mãos. Vejo-o que se volta e me dirige um sorriso úmido. A palidez e confusão do seu rosto são a própria tarde que se decompõe. Daqui a um minuto será noite e estaremos irremediavelmente separados pelas circunstâncias atmosféricas, eu em terra firme, ele no meio do mar. Único e precário agente de ligação entre nós, seu sorriso cada vez mais frio atravessa as grandes massas líquidas, choca-se contra as formações salinas, as fortalezas da costa, as medusas, atravessa tudo e vem beijar-me o rosto, trazer-me uma esperança de compreensão. Sim, quem sabe se um dia o compreenderei?
Morro da Babilônia
A noite, do morro
descem vozes que criam o terror
(terror urbano,cinquenta por centode cinema,
e o restoque veio de Luanda ou se perdeu na língua
geral).
Quando houve revolução,os soldados
espalharam no morro,
o quartel pegou fogo, eles não voltaram.
Alguns, chumbados, morreram.
O morro ficou mais encantado.
Mas as vozes do morro
não são propriamente lúgubres.
Há mesmo um cavaquinho bem afinado
que domina os ruídos da pedra e da folhagem
e desce até nós, modesto e recreativo,
como uma gentileza do morro.
Inocentes do Leblon
Os inocentes do Leblon não viram o navio entrar. Trouxe bailarinas? trouxe imigrantes? trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram, mas a areia é quente, e há um óleo suave que eles passam nas costas, e esquecem.
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