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Tópicos avançados em AD:Contribuições de Bakhtin para o ensi

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Janielly Santos

on 18 March 2014

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Tópicos avançados em AD:Contribuições de Bakhtin e o círculo para o ensino de Língua

Bakhtin: Vida e Obra
16/11/1895 – Nascimento de Mikhail Mikhaillovitch Bakhtin em Oriol, pequena cidade ao sul de Moscou. Era de família aristocrática empobrecida. Seu pai era empregado de um banco. Aos nove anos, mudou-se com a família para Vilna, capital da Lituânia, cidade em que conviviam muitas línguas, diferentes grupos étnicos, diversas classes sociais. Nela, falavam-se, por exemplo, o polonês, o lituano, o iídiche (Grifo meu).
1910 (aos 15 anos) – vai para Odessa, cidade também marcada pelo plurilinguismo, onde começa seus estudos universitários.
1911 – transfere-se para a Universidade de São Petersburgo, onde se matricula no Departamento de Letras Clássicas e se forma em História e Filologia.

Bakhtin e o Círculo
Proposta do Círculo
Dialogismo: princípio constitutivo da linguagem
Todo discurso é orientado para a resposta e ele não pode esquivar-se à influência profunda do discurso da resposta antecipada (...) Ao constituir-se na atmosfera da “já-dito”, o discurso é orientado ao mesmo tempo para o discurso-resposta que ainda não foi dito, discurso, porém, que foi solicitado a surgir e que já era esperado. Assim é todo diálogo vivo (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1993, p. 89).
A experiência verbal individual do homem toma forma e evolui sob o efeito da interação contínua e permanente com os enunciados individuais do outro (...) Nossa fala, isto é, nossos enunciados (que incluem as obras literárias) estão repletos de palavras dos outros, caracterizadas, em graus variáveis, pela alteridade ou pela assimilação, caracterizadas, também em graus variáveis, por um emprego consciente e decalcado. As palavras dos outros introduzem sua própria expressividade, seu tom valorativo, que assimilamos, modificamos. (BAKHTIN, 2000, p. 314) (Grifo do autor).
O Mistério da Autoria
Problemas em torno da autoria de certos textos, em especial três livros: Freudismo, Marxismo e filosofia da linguagem e O método formas nos estudos literários.Entre 1963 e 1965, depois de 30 anos de silêncio, os trabalhos de Bakhtin voltam a circular nos meios acadêmicos de sua terra natal. Ivanov, lingüista, põe em xeque a autoria do livro Marxismo e filosofia da linguagem, livro cuja autoria, até então, tinha sido atribuída a Voloshinov. Esse fato gera a famigerada dúvida quanto à autoria dos textos do Círculo. Os estudiosos da obra bakhtiniana dividem-se em três posições:
A) A primeira é a daqueles que respeitam as autorias das edições originais e, por consequência, só reconhecem como da autoria do próprio Bakhtin os textos publicados sob seu nome ou encontrados em seus arquivos;

B) A segunda direção é a daqueles que atribuem a Bakhtin todos os textos ditos disputados;

C) Há, por fim, uma solução de compromisso que inclui os dois nomes na autoria. Assim, Freudismo e Marxismo e filosofia da linguagem são atribuídos a Bakhtin/Voloshinov; e O métodos formal nos estudos literários a Bakhtin/Medvedev. (FARACO, 2003: p. 14)
Eixos básicos do pensamento do Círculo
Dialogismo, pautado no chamado pensamento participativo, centrado nas questões da linguagem e do discurso;

Todo sujeito/todo sentido é constituído
CONSIDERAÇÕES FINAIS
“A vida é dialógica por natureza. Viver significa participar de um diálogo: interrogar, escutar, responder, concordar, etc. Neste diálogo, o homem participa todo e com toda sua vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, com o corpo todo, com as suas ações. Ele se põe todo na palavra e esta palavra entra no tecido dialógico da existência humana, no simpósio universal.” (CLARCK e HOLQUIST, 2004: p. 15) *


* O trecho aparece em Estética da Criação Verbal, nota 5.

1918-1920 – Foi professor em Nevel, onde constituiu um círculo de amigos, que vai manter-se e ampliar-se e, mais tarde, será conhecido como o Círculo de Bakhtin.

1920-1924
– habita em Vitebsk, onde continua ensinando e participando do Círculo juntamente com Voloshinov, Medvedev, que foram seus alunos e amigos devotados. O grupo era constituído por pessoas de diversas formações intelectuais e atuações profissionais (filósofos, biólogo, pianista, professor de literatura, lingüista etc.).

1921
– casa-se com Elena Aleksandrovna, que foi sua companheira até a morrer, em 1971.
1921
– é atingido por uma osteomielite crônica, que o levará, em 1938, a amputar uma perna. Em Vitebsk, publica seu primeiro ensaio, intitulado Arte e responsabilidade, em que explora as relações entre as formas artísticas e a vida social.
1929 –
é preso e condenado a cinco anos de trabalhos forçados em um campo de concentração em Solóvski.
1936 – vai para Saransk e, no ano seguinte, para Savelovo, onde, até o fim da Segunda Grande Guerra, ensina russo e alemão.

Obras de Bakhtin e Voloshinov sobre a linguagem
De Bakhtin:

Problemas da Poética de Dostoiésvki (1929/1963);
O discurso no romance (1934-35);
Rabelais e seu mundo (1945/1965);
O problema dos gêneros do discurso (1965-53)
O problemas do texto (1959-61)
Para uma metodologia das ciências humanas (1974);

De Voloshinov:

O discurso na vida e o discurso na poesia (1926);
O Freudismo: um esboço crítico (1927);
As correntes mais recentes do pensamento linguísticos no Ocidente (1928);
Marxismo e filosofia da linguagem (1929);
Estilística do discurso literário (1930) – que – que compreende os três artigos: O que é a linguagem?, A estrutura do enunciado, A palavra e sua função social;
As fronteiras e linguística (1930).
Bakhtin pós-modernista
Ele se posicionou contra o que se convencionou chamar as grandes narrativas do final do século XIX e do início do século XX.
Criticou o estruturalismo, a psicanálise, o formalismo, não foi existencialista, não aderiu propriamente ao marxismo, negou o coletivismo. Mostrou que todas as explicações totalizantes eram monológicas, o que se conclui que não foi um modernista. (FIORIN, 2006: p. 15)
Bakhtin interacionista
Bakhtin marxista
Uma das tarefas que se deu Bakhtin foi a de estabelecer uma prima philosophia, ou seja, o ponto de partida, o fundamento último, o primeiro absoluto, os princípios básicos do conhecimento humanos. Ora, nada está mais distante de qualquer feição do marxismo do que uma prima philosophia (FIORIN, 2006: p. 16)
A prima philosophia estava voltada para unicidade do ser e do evento. Não são as unidades da língua que são dialógicas, mas o enunciados. (FIORIN, 2006: p. 20)

Infraestrutura
A realidade concreta. A Infraestrutura constitui a base da sociedade, as informações, fatos e desdobramentos essenciais para a constituição social de uma determinada comunidade.
Entende-se como sendo um amplo aparato social atuante de forma basilar e indispensável à vida humana em termos de sua constituição e sobrevivência, considerando por sua vez, nesse sentido, as instituições que permeiam a vivência entre as pessoas em questões diretamente ligadas às ações e produções humanas em geral

Superestrutura
Sistema ideológico de um determinado horizonte social. A superestrutura transforma o objeto em signo.
Em consonância com a base estrutural, a superestrutura surge alcançando o espaço das idéias, opiniões, pensamentos, da construção de uma perspectiva ideológica que visualize de que forma se configura o funcionamento das infra-estruturas e por qual representatividade em termos de significação ela projeta no sujeito que a constrói.
Todo enunciado (...) comporta um começo absoluto e um fim absoluto: antes de seu início, há os enunciados dos outros, depois de seu fim, há os enunciados-respostas dos outros (ainda que seja uma compreensão responsiva ativa muda ou como um ato-resposta baseado em determinada compreensão). O locutor termina seu enunciado para passar a palavra ao outro ou para dar lugar à compreensão responsiva ativa do outro (BAKHTIN, 2000, p. 294).
Quando escolhemos uma palavra, durante o processo de elaboração de um enunciado, nem sempre a tiramos, pelo contrário, do sistema da língua, da neutralidade lexicográfica. Costumamos tirá-la de outros enunciados, e, acima de tudo, de enunciados que são aparentados ao nosso pelo gênero, isto é, pelo tema, composição e estilo: selecionamos as palavras segundo as especificidades de um gênero. (BAKHTIN, 2000, p. 311-312) (grifos do autor).
O objeto do discurso de um locutor, seja ele qual for, não é objeto do discurso pela primeira vez neste enunciado, e este locutor não é o primeiro a falar dele. O objeto, por assim dizer, já foi falado, controvertido, esclarecido e julgado de diversas maneiras, é o lugar onde se cruzam, se encontram e se separam diferentes pontos de vista, visões de mundo, tendências (BAKHTIN, 2000, p. 319).
Eixos básicos do pensamento bakhtiniano
*Unicidade do ser e do evento
*Relação eu/outro
*Dimensão axiológica
*São essas três coordenadas a base da concepção dialógica da linguagem.

O projeto intelectual do Círculo de Bakhtin era construir uma prima philosophia e uma teoria marxista da superestrutura.
MFL: Diversos Conceitos
Bakhtin expõe bem a necessidade de uma abordagem marxista da filosofia da linguagem, mas ele aborda, ao mesmo tempo, praticamente todos os domínios das ciências humanas, por exemplo a psicologia cognitiva, a etnologia, a pedagogia das línguas, a comunicação, a estilística, a crítica literária e coloca, de passagem, os fundamentos da semiologia moderna. (BAKHTIN, 1981: p. 13)
Based on Jim Harvey's speech structures
1940 – apresenta, no instituto Gorki, sua tese de doutoramento, intitulada Rabelais e a cultura popular. Devido à guerra, não consegue defendê-la, o que só é feito em 1946.

Ainda em 1945, voltara a Saransk, onde passara a lecionar Literatura e a chefiar o Departamento de Estudos Literários no Instituto Pedagógico de Saransk, elevado, em 1957, a Universidade Estatal de Mordóvia. Permaneceu nessa funções até 1961, quando se aposentou.
1969 – busca tratamento médico na região de Moscou, onde reside até a sua morte, depois de longa enfermidade, em 1975.

Tratou fundamentalmente das relações do eu com o outro. Entretanto, o outro é uma posição social expressa num texto. As relações dialógicas de que ele se ocupou não são o diálogo face a face, mas relações entre posições sociais. (FIORIN, 2006: p. 15)
Os diversos Bakhtins
O Círculo não nega que a infraestrutura determine a superestrutura, mas isso se faz por mediações muito finas e complexas, que é preciso desvendar.
Os teóricos do Círculo dão um papel central à linguagem na constituição da superestrutura.

Dialogismo: princípio constitutivo da linguagem
Bakhtin possui de todos esses domínios uma visão notavelmente unitária e muito avançada em relação a seu tempo. Contudo, e nesse aspecto o subtítulo Tentativa de aplicação do método sociológico em linguística é muito revelador; trata-se, principalmente, de um livro sobre as relações entre linguagem e sociedade, colocado sob o signo da dialética do signo, enquanto efeito das estruturas sociais.
Sendo o signo e a enunciação de natureza social, em que medida a linguagem determina a consciências, a atividade mental. Em que medida a ideologia determina a linguagem? (BAKHTIN, 1981: p. 13)
Bakhtin vai dedicar todo o capítulo 5 à análise de um tipo especial de relações dialógicas manifestas nos diferentes processos daquilo que ele chama de bivocalidade. Voloshinov, por sua vez, vai fazer o mesmo, na Parte III de seu livro Marxismo e filosofia da linguagem, com as diferentes formas do discurso citado.
O problema do texto, ao mesmo tempo em que critica a visão estreita de dialogismo, que confunde relações dialógicas com réplicas do diálogo face-a-face, alerta para outro viés estreito de entender as relações dialógicas: tomá-las apenas como equivalentes a discussão, polêmica ou paródia. (FARACO, 2003: p. 65)
Língua
A língua é, como para Saussure, um fato social, cuja existência se funda nas necessidades da comunicação. Mas ao contrário da linguística unificante de Saussure e de seus herdeiros, que faz da língua um objeto abstrato ideal, que se consagra a ela como sistema sincrônico homogêneo e rejeita suas manifestações (a fala) individuais.
Bakhtin, por sua vez, valoriza justamente a fala, a enunciação, e afirma sua natureza social, não individual: a fala está indissoluvelmente ligada às condições da comunicação que, por sua vez, estão sempre ligadas às estruturas sociais. (BAKHTIN, 1981: p. 14)
Bakhtin define a língua como expressão das relações e lutas sociais, veiculando e sofrendo o efeito desta luta, servindo, ao mesmo tempo, de instrumento e de material. (BAKHTIN, 1981: p. 17)
A verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua (BAKHTIN/VOLOSHINOV, 1993, p. 123). (Grifos do autor).

A Comunicação verbal, inseparável das outras formas de comunicação, implica conflitos, relações de dominação e de resistência, adaptação ou resistência à hierarquia, utilização da língua pela classe dominante para reforçar seu poder etc. (BAKHTIN, 1981: p. 14)
INTERAÇÃO VERBAL
Todo signo é ideológico; a ideologia é um reflexo das estruturas sociais; assim, toda modificação da ideologia encadeia uma modificação da língua.
O signo dialético, dinâmico, vivo, opõe-se ao “sinal” inerte que advém da análise da língua como sistema sincrônico abstrato.
A forma linguística é sempre percebida como um signo mutável.
O signo é, por natureza, vivo e móvel, plurivalente; a classe dominante tem interesse em torná-lo monovalente. (BAKHTIN, 1981: p. 15)
SIGNO

Toda enunciação, fazendo parte de um processo de comunicação ininterrupto, é um elemento do diálogo, no sentido amplo do termo, englobando as produções escritas.
A enunciação, compreendida como uma réplica do diálogo social, é a unidade de base da língua, trata-se de um discurso interior ou exterior. Ela é de natureza social, portanto ideológica. Ela não existe fora de um contexto social, já que cada locutor tem um “horizonte social”. (BAKHTIN, 1981: p. 16)
ENUNCIAÇÃO
A palavra serve como “indicador” das mudanças. Bakhtin não afirma jamais que a língua é uma superestrutura no sentido estrito definido por Marx, o qual acarretará, em 1950, a inapelável condenação stalinista: a base e as superestruturas estão sempre em interação. Em compensação, ele afirma claramente que a língua não é assimilável a um instrumento de produção. (BAKHTIN, 1981: p. 17)
PALAVRA
Para Bakhtin, o sujeito é um ser eminentemente social e, como tal, participa do conjunto de diferentes e variadas relações sociais, sendo isso o que constitui a subjetividade. Para ele, o sujeito não é um ser que se rende por completo às estruturas sociais, subjugado pelas forças sociais e destituído de qualquer capacidade de (re)ação. Também não é uma instância dotada de autonomia, detentora dos sentidos dos discursos que realiza em suas atividades de linguagem. No conjunto de idéias do filósofo, o sujeito vive na tensão entre o que é da ordem do individual e do social.
SUJEITO DIALÓGICO
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