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Copy of III - Ao gás - Cesário Verde

Português, 11º ano
by

Hugo Ferreira

on 19 May 2014

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Transcript of Copy of III - Ao gás - Cesário Verde

Rima
III - Ao gás
Cesário Verde
E saio. A noite pesa, esmaga.
Nos Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arrepia os ombros quase nus.
As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.
E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.
Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.
Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.
Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!
Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.
E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.
Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.
Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.
"Dó da miséria!... Compaixão de mim!..."
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!
Des | do | bram | -se | te | ci | dos | es | tran | gei ] ros;
Plan | tas | or| na | men | tais | se | cam | nos | mos | tra | do ] res;
Flo | cos | de | pós | -de-a | rroz | pai | ram | su | fo | ca | do]res,
E em | nu | vens | de | ce | tins | re | que | bram |-se os | cai | xei ] ros.
Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.
a
b
b
a
- Rima interpolada e emparelhada -
Constituído por 11 quadras
III - AO GÁS
É a terceira parte do poema "Sentimento dum Ocidental"
Tema:
Assunto:
Cidade
Deambulação do sujeito poético pelas ruas da cidade, à noite; descrição do que observa; contraste entre cidade e campo.
Espaços
Os "passeios de lajedo"
Os "moles hospitais"
As "lojas tépidas"
A "catedral de um corpo imenso"
O "cutileiro"
A "padaria"
As "casas de confeções e modas"
As "longas descidas" e as "esquinas"
Sensações visuais
"Ver círios laterais, ver filas de capelas"
"E a vossa palidez romântica e lunar"
Sensações auditivas
"E lembram-me, ao chorar doente dos pianos"
"Um forjador maneja um malho, rubramente"
Sensações olfativas
"E de uma padaria exala-se, inda quente, Um cheiro salutar e honesto a pão no forno"
Sensações tácteis
"Um sopro que arrepia os ombros quase nus"
"Cercam-me as lojas, tépidas"
Momento em que o sujeito poético inicia o seu passeio pela cidade, ao entardecer. À medida que vai escurecendo, acendem-se os candeeiros a gás.
Subtítulo - Ao gás
Personagens
"as impuras"
as "burguezinhas do catolicismo"
"o forjador"
um "ratoneiro imberbe"
"a lúbrica pessoa"
uma "velha de bandós" e os seus "mecklemburgueses"

"um cauteleiro rouco"
o "velho professor de latim"
(personagens da noite citadina)
(transmite uma imagem de vitalidade, força e saúde)
(criança delinquente)
(mulheres ricas , cheias de luxo, porém vaidosas e falsas)
(anticlericalismo)
(riqueza e luxo em contraste com desgraça e miséria)
(retratando os mais fracos, solitários)
(compaixão pelos desfavorecidos, e símbolo do abandono a que chegaram os valores culturais do país)
Características principais
O sujeito poético continua a sofrer os efeitos opressivos do ambiente da cidade
Desejo de produzir um "livro que exacerbe"
Valorização do campo
Figura feminina
Anticlericalismo
Solidariedade social
O deambular progressivo do eu poético permite-lhe apreender o real exterior pelo seu mundo interior, interpretando-o e recriando-o com grande nitidez
Figuras de estilo
Metáforas:
"A noite pesa, esmaga." ; "... chorar doente dos pianos"
Hipálage:
"Um cheiro salutar e honesto a pão no forno"
Apóstrofe:
"Ó moles hospitais"
Tripla adjetivação:
"Com versos magistrais, salubres e sinceros"
Enumeração:
"Com santos e fiéis, andores, ramos, velas"
Cidade
Soturna
Melancólica
Mórbida
Sufocante
Claustrofóbica
Triste
Perigosa
Monótona
Nauseabunda
Palco de dor
FIM
Trabalho realizado por:
Carolina Brás, nº4
1º verso: Decassílabo (10 sílabas métricas)
2º, 3º e 4º versos: Alexandrinos (12 sílabas métricas)
E saio. A noite pesa, esmaga.
Nos Passeios de lajedo arrastam-se as
impuras
.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arrepia os ombros quase nus.
As
burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.
E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um
ratoneiro imberbe
.
Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um
forjador
maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.
Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.
Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!
Que grande cobra, a
lúbrica pessoa
,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.
E aquela
velha, de bandós
! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.
Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.
Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um
cauteleiro rouco
;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.
"Dó da miséria!... Compaixão de mim!..."
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homenzinho idoso,
Meu
velho professor nas aulas de Latim
!
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