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A autoficção na literatura

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Jacques Fux

on 10 November 2017

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Transcript of A autoficção na literatura

Quem fala assim? Será o herói da novela, interessado em ignorar o castrado que se esconde sob a mulher? Será o individuo Balzac, provido pela sua experiência pessoal de uma filosofia da mulher? Será o autor Balzac, professando idéias «literárias» sobre a feminilidade? Será a sabedoria universal? A psicologia romântica? Será para sempre impossível sabê-lo, pela boa razão de que a escrita é destruição de toda a voz, de toda a origem. A escrita é esse neutro, esse compósito, esse obliquo para onde foge o nosso sujeito, o preto-e-branco aonde vem perder-se toda a
identidade, a começar precisamente pela do corpo que escreve.
O autor reina ainda nos manuais de história literária, nas biografias de escritores, nas entrevistas das revistas, e
na própria consciência dos literatos, preocupados em juntar, graças ao seu diário intimo, a sua pessoa e a sua obra; a imagem da literatura que podemos encontrar na cultura corrente é tiranicamente centrada no autor, na sua pessoa, na sua história, nos seus gostos, nas suas paixões.

O afastamento do Autor (com Brecht, poderíamos falar aqui de um verdadeiro «distanciamento»,' diminuindo o Autor como uma figurinha lá ao fundo da cena literária) não é apenas um fato histórico ou um ato de escrita: ele transforma de ponta a ponta o texto moderno (ou o que é a mesma coisa - o texto é a partir de agora feito e lido de tal sorte que nele, a todos os seus níveis, o autor se ausenta).
“O herói de um romance declarado pode ter o mesmo nome que o autor?”

Lejeune inova com o seu “pacto autobiográfico”, uma concepção de contrato de leitura entre o autor e o leitor, o que seria inadmissível no ideário vigente de autonomia do texto. Esse contrato de leitura consiste nos princípios de veracidade e de identidade entre Autor, Narrador e Personagem-protagonista (A = N = P). O leitor toma o texto como a “verdade do indivíduo”, marcando assim a diferença entre romance e autobiografia (ou memórias).

Dessa forma, enquanto o paradoxo da autobiografia, para Lejeune, é que a
autobiografia deve executar seu projeto de uma sinceridade impossível, através de
instrumentos habituais da ficção, o paradoxo da autoficção é que, havendo identidade entre
autor, narrador e personagem principal, o texto, primeiramente, estabeleceria com o leitor um
pacto autobiográfico e referencial. Sendo assim, o texto lido seria uma expressão da verdade e
da autenticidade, para depois confundir o leitor, oscilando entre o autor e o outro ficcional,
entre romance e autobiografia, já que a autoficção é um gênero híbrido e o pacto estabelecido
com o leitor é o pacto ambíguo
De acordo com Lejeune (1971), o diário não cumpre com duas exigências da autobiografia: não é uma
narração em prosa e não tem a perspectiva retrospectiva. No diário, não existe a distância entre o
presente e o passado, como existe na autobiografia. O Diário de um louco é um diário ficcional, pois Nikolai
Gógol utiliza a técnica do diário como estratégia literária. Já Machado de Assis utiliza a escrita diarística como estratégia em Memorial de Aires.
Autobiografia? Não, esse é um privilégio reservado aos importantes desse mundo, ao fim de suas vidas, e em belo estilo. Ficção, de acontecimentos e fatos estritamente reais; se se quiser, autoficção, por ter confiado a linguagem de uma aventura à aventura da linguagem, fora da sabedoria e fora da sintaxe do romance, tradicional ou novo. Encontro, fios de palavras, aliterações, assonâncias, dissonâncias, escrita de antes ou de depois da literatura, concreta, como se diz em música. Ou ainda: autofricção, pacientemente onanista, que espera agora compartilhar seu prazer.
Autoficção
O termo autoficção tem origem francesa, autofiction, e foi criado pelo escritor francês e professor de literatura Serge Doubrovsky, publicado, oficialmente, em 1977. Antes mesmo de publicar o conceito de autoficção na quarta capa do seu romance Fils, Doubrovsky já vinha pensando criticamente a respeito da autobiografia e dos estudos realizados pelo teórico conterrâneo Philippe Lejeune (Le pacte autobiographique, 1975). O próprio termo autofiction já aparecia na primeira versão de Le Monstre, que são os textos anteriores a Fils, com aproximadamente nove mil páginas, disponibilizados pelo autor, em 2002, para o trabalho de pesquisa genética. Lejeune lança uma questão nos seus estudos sobre a autobiografia: “O herói de um romance declarado pode ter o mesmo nome que o autor?”. Doubrovsky parte dessa indagação para dar início ao debate autoficcional. Tal discussão perdura, nebulosa, até hoje, quase 40 anos depois, e o seu embrião consiste, justamente, nos diferentes conceitos de literatura que cada teórico tem.
A morte do autor
O pacto autobiográfico
Autoficção
A autoficção na literatura - Oficina 1
Jacques Fux
Oficinas Literárias?
Receitas de bolo?

O que fazer e o que não fazer?

Leitura?

"As coisas de que não me lembro, sou"
Sabemos agora que um texto não é feito de uma linha de palavras, libertando um sentido único, de certo modo teológico (que seria a «mensagem» do Autor-Deus), mas um espaço de dimensões múltiplas, onde se casam e se contestam escritas variadas, nenhuma das quais é original: o texto é um tecido de citações, saldas dos mil focos da cultura. Parecido com Bouvard e Pécuchet, esses eternos copistas, ao mesmo
tempo sublimes e cômicos, e cujo profundo ridículo designa precisamente a verdade da escrita, o escritor não pode deixar de imitar um gesto sempre anterior, nunca original; o seu único poder é o de misturar as escritas, de as contrariar umas às outras, de modo a nunca se apoiar numa delas; se quisesse exprimir-se, pelo menos deveria saber que a «coisa» interior que tem a pretensão de «traduzir» não passa de um dicionário totalmente composto, cujas palavras só podem explicar-se através de outras palavras.
O que
não
é autoficção?
A autoficção não é um relato retrospectivo como
a autobiografia imagina ser.
Tende a mostrar “as rupturas absolutas entre o que eu
era
no presente em diversas épocas da minha vida"
A autoficção não é somente uma recapitulação da história do autor.
O movimento da autobiografia é da VIDA para o TEXTO, enquanto o da autoficção é do TEXTO, da literatura, para a VIDA.
Na autoficção, o autor não precisa escrever sobre
a sua 'vida' seguindo, necessariamente, uma linha
cronológica.
Proust!
Exercício de Escrita!
Fazia já muitos anos que, de Combray, tudo que não fosse o teatro e o drama do meu
deitar não existia mais para mim, quando num dia de inverno, chegando eu em casa, minha mãe,
vendo-me com frio, propôs que tomasse, contra meus hábitos, um pouco de chá. A princípio
recusei e, nem sei bem porque, acabei aceitando. Ela então mandou buscar um desses biscoitos
curtos e rechonchudos chamados madeleínes, que parecem ter sido moldados na valva estriada
de uma concha de São Tiago. E logo, maquinalmente, acabrunhado pelo dia tristonho e a
perspectiva de um dia seguinte igualmente sombrio, levei à boca uma colherada de chá onde
deixara amolecer um pedaço da madeleíne.
Mas no mesmo instante em que esse gole, misturado com os farelos do biscoito, tocou
meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um
prazer delicioso, isolado, sem a noção de sua causa. Rapidamente se me tornaram indiferentes
as vicissitudes da minha vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, da mesma
forma como opera o amor, enchendo-me de uma essência preciosa; ou antes, essa essência não
estava em mim, ela era eu. Já não me sentia medíocre, contingente, mortal. De onde poderia ter
vindo essa alegria poderosa? Sentia que estava ligada ao gosto do chá e do biscoito, mas
ultrapassava-o infinitivamente, não deveria ser da mesma espécie. De onde vinha? Que
significaria? Onde apreendê-Ia? Bebi um segundo gole no qual não achei nada além do que no
primeiro, um terceiro que me trouxe um tanto menos que o segundo. É tempo de parar, o dom da
bebida parece diminuir. É claro que a verdade que busco não está nela, mas em mim. Ela a
despertou mas não a conhece, podendo só repetir indefinidamente, cada vez com menos força, o
mesmo testemunho que não sei interpretar e que desejo ao menos poder lhe pedir novamente e
reencontrar intacto, à minha disposição, daqui a pouco, para um esclarecimento decisivo
O autor perdia o 'poder' sobre o
texto publicado, enquanto o texto e o leitor
ganhavam autonomia.
O leitor toma o texto como a
“verdade do indivíduo”, marcando
assim a diferença entre romance e autobiografia (ou memórias).

No romance, o compromisso com a realidade é
flou
(desfocado). Na autobiografia, o pacto de veracidade traz consequências legais para o autor (ele passa a ser responsável pelo que afirma, seja isso verdade ou não, ele terá de se justificar).

Problemas e repercussão! Mas ele
repensa e recria a própria teoria!
A escrita autoficcional parte de 'fragmentos'.
O autor pode escrever para criar e recriar um episódio ou uma experiência de sua 'vida', recortando um pequeno instante de um tempo vivido.
A autoficção não precisa ser uma narração em prosa,
como Lejeune constrói a sua teoria.
A autoficção é uma história em que “a matéria é inteiramente
autobiográfica, a maneira inteiramente ficcional”.
A autoficção não é somente invenção.
Porém hoje há uma flexibilização, 'permitindo' que o
autor invente e se reinvente de diferentes formas no seu
texto literário.
Autoficção fantástica, autoficção biográfica,
autoficção, especular, autoficção intrusiva....
Sinfonia inacabada de Schubert
Um empresário, não podendo usar seus ingressos para um concerto onde seria executada a Sinfonia Inacabada, de Franz Schubert, deu-os a um executivo de sua equipe, que tinha acabado de fazer um curso de reengenharia.
Recebeu deste o seguinte relatório:
a) Durante períodos consideráveis, os quatro músicos que tocavam oboé não tinham nada para fazer. Eles poderiam ser eliminados e seu trabalho dividido por toda a orquestra;
b) Quarenta violinos tocaram notas idênticas. Isso me parece uma duplicação desnecessária, e essa parte da orquestra deveria ser drasticamente reduzida. Para um volume maior de som, poderiam ser usados amplificadores eletrônicos;
c) Foi absorvido muito esforço na execução de bemóis e sustenidos. Isso me parece um excessivo refinamento; recomendo que todas as notas sejam arredondadas para a próxima nota simples. Se isso fosse feito, seria possível usar estagiários e operadores não especializados;
d) Não vejo nenhuma finalidade prática na repetição pelos metais da mesma passagem que já foi executada pelas cordas. Se todas essas passagens redundantes fossem eliminadas, o concerto poderia ser reduzido a vinte minutos;
e) Se Schubert tivesse dado atenção a todos esses detalhes, provavelmente teria conseguido acabar sua sinfonia.
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