Loading presentation...

Present Remotely

Send the link below via email or IM

Copy

Present to your audience

Start remote presentation

  • Invited audience members will follow you as you navigate and present
  • People invited to a presentation do not need a Prezi account
  • This link expires 10 minutes after you close the presentation
  • A maximum of 30 users can follow your presentation
  • Learn more about this feature in our knowledge base article

Do you really want to delete this prezi?

Neither you, nor the coeditors you shared it with will be able to recover it again.

DeleteCancel

Make your likes visible on Facebook?

Connect your Facebook account to Prezi and let your likes appear on your timeline.
You can change this under Settings & Account at any time.

No, thanks

Memorial do convento

Pontuação e linguagem
by

Miguel Matias

on 4 May 2010

Comments (0)

Please log in to add your comment.

Report abuse

Transcript of Memorial do convento

Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores (…) Basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias (…)

Saramago, A Jangada de Pedra, 1986
Linguagem no "Memorial do Convento"
"o mais talentoso romancista vivo nos dias de hoje" "um dos últimos titãs de um género literário que se está a desvanecer" Referindo-se a ele como o "Mestre" Declarou ainda que Saramago é Estas características tornam o estilo de Saramago único na literatura contemporânea: é considerado por muitos críticos um mestre no tratamento da língua portuguesa. Em 2003, o crítico norte-americano Harold Bloom, no seu livro Genius: A Mosaic of One Hundred Exemplary Creative Minds, considerou José Saramago Harold Bloom Memorial do
Convento
Milhares de léguas andou Blimunda, quase sempre descalça. A sola dos seus pés tornou-se espessa, fendida como uma cortiça. Portugal inteiro esteve debaixo destes passos, algumas vezes atravessou a raia de Espanha porque não via no chão qualquer risco a separar a terra de lá da terra de cá, só ouvia falar outra língua, e voltava para trás. Em dois anos, foi das praias e das arribas do oceano à fronteira, depois recomeçou a procurar por outros lugares, por outros caminhos, e andando e buscando veio a descobrir como é pequeno este país onde nasceu, Já aqui estive, já aqui passei, e dava com rostos que reconhecia, Não se lembra de mim, chamavam-me Voadora, Ah, bem me lembro, então achou o homem que procurava, O meu homem, Sim, esse, Não achei, Ai pobrezinha, Ele não terá aparecido por aqui depois de eu ter passado, Não, não apareceu, nem nunca ouvi falar dele por estes arredores, Então cá vou, até um dia, Boa viagem, Se o encontrar. A grande variedade de recursos estilísticos, a criação de neologismos e de frases sentenciosas, o uso dos diminutivos e dos advérbios de modo; Marcas do discurso de Saramago
em Memorial do Convento A ironia percorre toda a obra, ora subtil, ora mordaz, por vezes violenta; A pontuação infringe as normas da gramática tradicional; Ausência de pontuação convencional, sendo a vírgula o sinal de pontuação de maior relevância, marcando as intervenções das personagens, o ritmo e as pausas; Utilização predominante do presente – marca do fluir constante do narrador entre o passado e o presente; intervenção frequente do narrador através de comentários, o que dificulta a identificação das vozes intervenientes; tom simultaneamente cómico, trágico e épico; A descrição adquire vivacidade e dinamismo graças ao visualismo e à preocupação com o pormenor, conferindo-lhe o dinamismo de uma narração; coexistência de segmentos narrativos e descritivos sem delimitação clara; Uso subversivo da maiúscula no interior da frase; emprego de exclamações e “apartes”; Quanto às figuras de estilo, este autor adora brincar com as palavras. Os recursos estilísticos que utiliza vão desde o trocadilho, assíndeto, anáfora, antítese, enumeração, hipérbole, metáfora até à tão presente ironia. “o regaço, o lume na lareira, a candeia, a esteira no chão, o punho cortado de Baltasar”; “e a máquina a tremer, a vibrar, porventura não está já na terra, rasgou a cortina de silvas e enleios, pairou na alta noite, entre as nuvens”; "Mas esta cidade, mais do que todas, é um boca que mastiga de sobejo para um lado e de escasso para o outro”; “Mas Deus é grande”. Linguagem no "Memorial do Convento" Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores (…). Basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias (…).

— Saramago, A Jangada de Pedra, 1986
Após a leitura de excertos do “Memorial do Convento”, o leitor atento terá percebido que está a ler qualquer coisa que saiu da imaginação do escritor José Saramago.
A sua escrita peculiar intriga qualquer leitor que não saiba muito da história da pontuação por ele utilizada.

Peculiar porquê?
Porque é usada de uma forma não canónica: falta no texto o travessão para identificar o interlocutor no diálogo e somos apenas ajudados pelo início das falas de cada personagem ser assinalado por uma capitular. Também aqui se vê a frase característica da escrita de Saramago, quase sem pontos finais e cadenciada na pausa por vírgulas.
O prémio Nobel da Literatura inovou na maneira como utiliza o ponto final e a vírgula – ele prefere chamar-lhe os sinais de pausa –, marcando a frase com um outro ritmo dado pela oralidade. Revolucionou.

Como começou?
Há quem diga que tudo terá começado no «ensaio de romance» Manual de Pintura e Caligrafia, publicado em 1977. Foi nessa obra que o autor ensaiou, pela primeira vez, a sua técnica de construção romanesca e nunca mais a abandonou.
No entanto, Saramago diz que terá sido durante a escrita de Levantado do Chão, romance publicado em 1980. Foi nessa altura que se viu perante uma outra forma de narrar. Já tinha escrito mais de vinte páginas, quando lhe surgiu esta nova maneira de construir e voltou atrás, reescrevendo tudo desde o princípio para uniformizar o estilo.

«Era como se eu lhes tivesse a contar a eles a história que eles me tinham contado. E, como você sabe, quando falamos, não usamos sinais de pontuação. Temos pausas [de respiração] e até, como eu digo nos meus livros, os dois únicos sinais de pontuação, o ponto e a vírgula, não são sinais de pontuação, são uma pausa, uma pausa breve e uma pausa longa. No fundo, como também digo muitas vezes, falar é fazer música» - Saramago numa entrevista ao semanário Expresso
«(...) É como narrador oral que me vejo quando escrevo e que as palavras são por mim escritas tanto para serem lidas como para serem ouvidas. Ora, o narrador oral não precisa de pontuação, fala como se estivesse a compor música e usa os mesmos elementos que o músico: sons e pausas, altos e baixos, uns, breves ou longas, outras.»- Cadernos de Lanzarote – Diário II (1994).
O uso insistente de provérbios e de expressões populares, por vezes transformados e adaptados a novas situações; coexistência de segmentos narrativos e descritivos sem delimitação clara;
mistura de discursos – discurso directo, indirecto, indirecto livre e monólogo interior – que aponta para uma interacção entre orador e ouvintes; coexistência de segmentos narrativos e descritivos sem delimitação clara; FIM
Full transcript