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Defesa da dissertação

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Rodrigo Morais

on 9 April 2013

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Transcript of Defesa da dissertação

Comunicação no ato criativo de esquizofrênicos Rodrigo Antunes Morais
Orientador: Prof. Dr. Antonio Roberto Chiachiri Filho

Faculdade Cásper Líbero
Pós-Graduação Stricto Sensu – Mestrado em Comunicação na Contemporaneidade
Linha A – Processos midiáticos: Tecnologia e Mercado
Defesa de Dissertação uma avaliação semiótica A esquizofrenia O termo “esquizofrenia” foi cunhado pela primeira vez nos estudos do psiquiatra suíço Eugen Bleuler, em 1911, para caracterizar um grupo de alterações mentais que interferem na forma de pensar de determinados pacientes com alterações psíquicas. Visão histórica e
social da loucura Michel Foucault, em sua obra A história da Loucura na Idade Clássica, inicia uma análise cronológica da loucura. No princípio traça um diagnóstico do início do entendimento da loucura e da internação através do desaparecimento da lepra, muito antes dos valores partilhados da loucura serem realmente relevantes para a análise da sociedade. Os espaços destinados aos leprosos, tendo em vista a função social dos personagens a qual esses lugares se destinam, abrem as portas prioritariamente para os portadores de doenças venéreas, o que em seguida dá início aos jogos de exclusão perante os pobres, os delinquentes e aqueles que Foucault denomina “cabeças alienadas”; assim, ressignificando uma cultura que, naquele momento, passava a entender a exclusão como reintegração espiritual. Nesse trânsito de pessoas mentalmente desajustadas aos valores sociais é que a loucura realmente passa a tomar importância, pois começa a revelar as relações que o homem tem consigo mesmo, em outras palavras, é nesse momento que o homem passa a encarar as noções de “normalidade” social e também perceber certas rupturas no pensamento de pontos de estabilidade da sociedade. A loucura se manteve encubada por séculos até que a psiquiatria iniciasse estudos mais detalhados, porém ainda com ênfase em uma herança simbólica que atrelava os distúrbios psíquicos à uma estética de auto-indagação. A psiquiatria passou a desenvolver técnicas para a classificação da loucura. O grande objetivo desses estudos era elevar a loucura aos âmbitos dos cuidados médicos, assim diagnosticando determinados padrões de comportamento que ajudariam no tratamento de pacientes ainda em regime interno. A catalogação das doenças mentais
e os preâmbulos da esquizofrenia A esquizofrenia tem seu início no mundo científico a partir dos sintomas que designavam a doença mental (ou o grupo de doenças mentais para muitos autores) denominada dementia praecox – demência prematura ou loucura precoce. Em meio a uma infinidade de sintomas que caracterizavam a dementia praecox, Eugen Bleuler, em 1908, dá partida em seus estudos – que vieram a ser publicados em 1911 – diante da incoerência de reflexão nas constantes mudanças de humor e na inconstância do pragmatismo de alguns pacientes, assim apresentando formalmente o termo “esquizofrenia” à comunidade científica. Neste momento, cabe avaliar a esquizofrenia a partir de observações e sugestões vindas dos vários campos da ciência, para que seja possível compor um estudo no qual a consciência e a inter-relação das funções psíquicas referentes ao sistema cognitivo de esquizofrênicos esteja pautada nos campos do pensamento e da linguagem. Esquizofrenia e
ciências cognitivas Preceitos da neurociência
na esquizofrenia Psiquiatria como pilar para os
estudos da esquizofrenia Percepção e cognição na esquizofrenia Para o entendimento da linguagem e do pensamento em esquizofrênicos, faz-se necessária uma abordagem sobre a relevância da percepção e da cognição perante a esquizofrenia, bem como a exteriorização desses fatores. Percepção e cognição
na esquizofrenia Significação perceptual
e significação subjetiva Imaginação criativa nos limiares
da percepção e da cognição Relações entre
percepção e cognição Deve-se entender a percepção, de forma geral, como um início para o reconhecimento de qualquer fenômeno, através das qualidades inerentes às possibilidades sensoriais e cerebrais na resposta a estímulos internos e externos. Sendo que, a pontencialidade da percepção tem um papel sumário diante da complexidade da existência de cada ser, que deve ser encarada de forma pertinente para que uma aliança cognoscível de filosofias seja passível de um juízo concreto. Sendo assim, nesse processo de reconhecimentos dos fenômenos, quando um estímulo é capturado pelos receptores sensoriais e processado nas faculdades mentais de um organismo, pode-se dizer que este estímulo já está no âmbito da cognição, ou seja, já tem reconhecimento em uma determinada mente a partir de processos que incluem o pensamento e a linguagem. Em suma, enquanto a percepção é responsável pela captura dos estímulos sensoriais, a cognição é a responsável na atribuição de seus significados, o que torna importante a análise desse processo perante a esquizofrenia. No campo das alucinações esquizofrênicas é possível, então, conceber que a diferenciação analítica não cabe apenas ao percepto, mas sim também ao percipuum. Isso indica que o percepto, por mais que não tenha sido propagado por um estímulo externo, é o mesmo diante da mera avaliação psicológica dos dados dos sentidos, tanto para portadores de esquizofrenia quanto para pessoas que não possuem distúrbios dessa ordem. Portanto, o início da alucinação esquizofrênica se dá no célere momento em que a interpretação sensorial começa, ou seja, na fugacidade transitória do percepto para o percipuum.

Portanto, quando essa irregularidade perceptual toma corpo na mente de um esquizofrênico – já tratando do campo cognitivo –, acentua-se uma dualidade interpretativa, pois o objeto que propagou o estímulo não é real; enquanto o percepto insiste em sua realidade, o que faz com que um julgamento de percepção equivocado não seja apreendido na cognição da pessoa alucinante. Percepção Cognição Significação
subjetiva Imaginação
criativa Se as alucinações de percepção da pessoa constituem seu processo de pensamento e linguagem, pode-se concluir que os estímulos sensoriais traduzidos sinestesicamente por essa pessoa caracterizam-se como elementos indiciais da contextualização de seus ideais, já que esta passa a narrar, a partir de uma linguagem interiorizada, um fator externo. A partir de Owen Barfield, pode-se ter a lacuna entre a matéria e a mente como fator primordial de existência das duas, fator este que deve ser entendido para a possibilidade de um mundo no qual todos sejam participantes de uma vivência harmoniosa sem pressupostos em características individuais, feita em um conteúdo originário de uma consciência de caráter universal, o que torna necessária uma avaliação do funcionamento da imaginação criativa no ato gerador de estética em portadores de esquizofrenia. Ato criativo na esquizofrenia Os valores artísticos dados às produções de esquizofrênicos estão ligados ao repertório contido no repertório do paciente, mas isso não toma um caráter principal, já que a maior importância está na tradução estética com fins comunicativos. Pensamento e linguagem O discurso interior de um esquizofrênico trata-se de uma concentração de variações funcionais e estruturais que tem um desligamento do valor social ao se eleger para o discurso exterior, o que caracteriza a estrutura básica do pensamento de uma pessoa que possui alucinações. Desta forma, é possível entender que esse pensamento tem uma gênese não baseada nos valores sociais, o que capacita o desenvolvimento da lógica em um esquizofrênico a partir da função direta de seu discurso interior e não dos domínios sociais de pensamento. Sendo assim, o ato criativo de um esquizofrênico pode ser entendido como a tradução de um discurso interior sem mediações sociais ao ser externado. Pode-se ver uma expansão do conceito desde seu primeiro estudo até a contemporaneidade, passando ainda pela descrição de vários subtipos de esquizofrenia na década de 30, a descrição detalhada dos sintomas na década de 40, projetos colaborativos entre Estados Unidos e Reino Unido na década de 70, bem como as constatações dos quatro manuais diagnósticos e estatísticos de transtornos mentais feitos pela Associação Americana de Psiquiatria de 1952 à 1994. As principais teorias que participam desse contexto na contemporaneidade são dadas pela neurociência e a psiquiatria. De certo que outros ramos da ciência não podem ser deixados de lado, como por exemplo, os estudos genéticos sobre esquizofrênicos ou até mesmo a psicologia analítica. Porém, para os âmbitos da análise do pensamento e da linguagem de portadores de esquizofrenia as duas áreas citadas serão as de maiores valores para uma possível leitura semiótica das alucinações esquizofrênicas. A neurociência tem cada vez mais aberto seu escopo como uma ciência interdisciplinar e, desta forma, promovendo uma possibilidade de estudos desde as áreas da biologia, da química e da medicina, bem como estudos de filosofia, linguagem e comunicação. Seu objeto de estudo central é o funcionamento do sistema nervoso e, portanto, fornece ricos diagnósticos para o entendimento da esquizofrenia a partir da ativação dos lobos cerebrais e do funcionamento dos neurotransmissores no cérebro humano. Outros estudos da neurociência tomam por base o amadurecimento do cérebro, ou seja, o neurodesenvolvimento cerebral, que ainda leva em conta imperfeições do cérebro derivadas de acidentes ou apenas de má formação como geradores e/ou iniciadores de disfunções neurais, um processo chamado arborização neuronal. Muitos pesquisadores acreditam que a esquizofrenia pode estar relacionada a mudanças estruturais no cérebro que agem no aumento da dopamina, isto é, os neurotransmissores cerebrais que são responsáveis pela sensação de prazer e motivação têm sua evolução em acordo com um neurodesenvolvimento e predisposição que desencadeiam um quadro esquizofrênico que dependerá do seu tempo de duração para um diagnóstico positivo da doença. O ramo da psiquiatria, atualmente, herda grande parte dos valores explorados pela neurociência sobre a irregularidade dos neurotransmissores no cérebro e alia esse contexto aos âmbitos do que é capturado pela mente diante da atenção, percepção, memória, raciocínio, juízo, imaginação, pensamento e linguagem, ou seja, os estudos nesse campo da ciência se baseiam na estrutura interfuncional da consciência enquanto qualidade mental para uma análise da esquizofrenia. Para a psiquiatria, a esquizofrenia é tida como a mais grave entre as doenças da mente, podendo ainda ser caracterizada como um grupo de patologias que designam alterações no pensamento através de alucinações. Desta forma, é cabível entender que essa análise panorâmica da esquizofrenia traz a possibilidade de um entendimento que inicia uma vertente de estudo que abre as portas para a pesquisa do pensamento e da linguagem derivados de eventos alucinados, ou seja, toma-se por base as alucinações esquizofrênicas, que por sua vez são tidas aqui como uma percepção real de um objeto que não possui estímulo externo; ainda podendo dizer que o objeto alucinado é real para a pessoa que está passando pelo período de alucinação. Dentre os possíveis tipos de alucinações esquizofrênicas, destacam-se:
- Alucinações auditivas: reconhecimento real de sons não propagados por uma compressão ou onda mecânica externa.
- Alucinações visuais: reconhecimento real da ação de feixe de fótons e/ou percebimento de luminosidade (que podem ou não ter construção mental de imagem) não propagados por estímulos externos.
- Alucinações táteis: reconhecimento real de recepção nervosa de textura, espacialidade, temperatura e/ou dor não provocada por estímulo externo.
- Alucinações olfativas: reconhecimento real de moléculas odoríferas não geradas por substâncias externas.
- Alucinações gustativa: reconhecimento real de substâncias nas papilas gustativas não geradas por estímulo externo.
- Alucinações sinestésicas: reconhecimento concomitante de dois ou mais tipos de alucinações. Enfim, nesse momento, cabe entender que um evento alucinado participa do repertório da pessoa alucinante, ou seja, as ciências que compreendem a estrutura e o funcionamento da mente humana – diferentemente de uma ciência analítica como a desenvolvida por Jung – podem mostrar que esquizofrênicos baseiam linguagem e pensamento a partir de um repertório que nem sempre é proveniente de estímulos externos. Faz-se, então, necessária uma avaliação da esquizofrenia perante as relações da percepção e cognição, para um posterior estudo semiótico. Ambiente semiótico Para uma análise efetiva do funcionamento da percepção e da cognição em esquizofrênicos é necessária uma apresentação da ferramenta a ser utilizada para tal propósito. Para isso aqui se apresentará a semiótica baseada nos estudos de Charles Sanders Peirce e seus seguidores, a fim de estabelecer uma aplicação fenomenológica diante da esquizofrenia. A semiótica de
Charles Sanders Peirce Charles Sanders Peirce, “empolgado em conhecer profundamente o raciocínio humano, inicia uma série de experiências e teorias no campo da psicologia, sobretudo no que diz respeito à mediação da intensidade das sensações” (CHIACHIRI, 2005:19). Assim, gerou grande parte de seus estudos a partir de uma crítica à obra de Kant e almejando “simplificar” o entendimento da relação do objeto real com a mente humana. A fenomenologia ou phaneroscopia (este último termo preferido por Peirce) tem origem na palavra grega phaneron que, traduzindo para o português, obtém-se a palavra fenômeno. Faneroscopia é a descrição do fenômeno. E por fenômeno, Peirce entende tudo aquilo, qualquer coisa que se apresenta à percepção e à mente. (CHIACHIRI, 2010:39) Os estudos que empreendeu levaram Peirce à conclusão de que há três, e não mais do que três, elementos formais e universais em todos os fenômenos que se apresentam à percepção e à mente. Num nível de generalização máxima, esses elementos foram chamados de primeiridade, secundidade e terceiridade. A primeiridade aparece em tudo que estiver relacionado com acaso, possibilidade, qualidade, sentimento, originalidade, liberdade, mônada. A secundidade está ligada às ideias de dependência, determinação, dualidade, ação e reação, aqui e agora, conflito, surpresa, dúvida. A terceiridade diz respeito à generalidade, continuidade, crescimento, inteligência. A forma mais simples da terceiridade segundo Peirce, manifesta-se no signo, visto que o signo é um primeiro (algo que se apresenta à mente), ligando um segundo (aquilo que o signo indica, se refere ou representa) a um terceiro (o efeito que o signo irá provocar em um possível interprete). (SANTAELLA, 2005b:7) O sugestivo
na esquizofrenia A alucinação esquizofrênica se dá no momento atemporal de trânsito do percepto para o percipuum no processo de percepção. Isso leva a entender que, quando um esquizofrênico parte para um ato criativo, seu repertório é dado por perceptos que insistem em ser reais no julgamento perceptivo, enquanto, na verdade, não foram propagados por um estímulo real. Com isso, é possível entender que a primeiridade é a classe fenomenológica de maior contexto para o estudo das produções criativas de portadores de esquizofrenia. Por isso, pode-se constatar que as relações perceptuais ainda em primeiridade são dadas por fatores sugestivos, pois não partilham da falibilidade, ou seja, não existe corpo referencial, pois trata-se apenas de características qualitativas. O primordial a ser entendido é que os signos de primeiridade “fisgam o desejo: formas e sentimentos (visuais, sonoros, táteis, viscerais...)” (CHIACHIRI, 2010:27). Por isso essa iconicidade demonstra uma articulação sugestiva de sentido que se desenvolve na mensagem do ato criativo. As categorias das qualidades aparecem da seguinte forma:

Qualidade ou primeiridade, isto é, o ser da possibilidade qualitativa positiva (a mera possibilidade da qualidade em si mesma da vermelhidão, sem relação com nenhuma outra coisa, antes que qualquer coisa no mundo seja vermelha);

[...] Quales, isto é, fatos de primeiridade, por exemplo, a qualidade sui generis do vermelho no céu em um certo entardecer de outubro;

[...] Sentimento ou consciência imediata, quer dizer, signos de primeiridade, por exemplo, a mera qualidade de sentimento, vaga e indefinida, que o crepúsculo avermelhado em um certo céu de outubro produz em um contemplador desarmado. (SANTAELLA, 2005a:35) Jackson Pollock Como pode ser visto na imagem, as formas não-representativas de Pollock reportam-se às qualidades atemporais como fugacidade
do acontecimento. O que cabe ser percebido é que Pollock, em seu ato criativo, buscava expressar as qualidades de sentimentos através de sua marca gestual, ou seja, as marcas físicas que são impressas na qualidade das formas da obra de Pollock externam a mais pura qualidade de sentimento tida diante de um percepto alucinado com aspecto passivo. Portanto, a marca do gesto no ato criativo de Pollock evidencia o fator sugestionável das qualidade de sentimento que não são dadas por um evento real, mas que compartilham de realidade na transição do percepto para o percipuum, revelando, assim, a origem de suas alucinações. Arthur Bispo do Rosário Para o entendimento do início da produção de Arthur Bispo do Rosário, deve-se considerar a noite de 22 de dezembro de 1938, quando ele desperta com alucinações e vai até o Mosteiro de São Bento anunciar que era um enviado de Deus, encarregado de recriar o mundo em miniatura para o julgamento dos vivos e dos mortos. Sendo assim, Bispo do Rosário buscava traduzir o mundo através das qualidades que nele enxergava, porém apenas tinha a possibilidade de trabalhar com os materiais que encontrava dentro da Colônia Juliano Moreira. Portanto, ao se deparar com a necessidade da inserção de um determinado objeto em sua recriação do mundo e percebendo a impossibilidade em usá-lo, ele utilizava a palavra como materialização da qualidade do objeto necessário. A qualidade materializada na imagem é tida como uma qualidade tomando corpo, ou seja, pode já perceber alguns níveis de secundidade, porém é no valor do qualissigno icônico, remático que se pode avaliar essas obras. Pois, apenas entendendo a intenção de Arthur Bispo do Rosário, que é possível perceber o poder de sugestão ao agregar qualidades de palavras à sequencialidade de objetos. Tomando como exemplo as obras mostradas, pode-se perceber os níveis de sugestão gerados por perceptos alucinados nas palavras de Arnheim apresentadas por Lucia Santaella:
A proeminência da qualidade materializada também se faz sentir em obras que parecem consistir de unidades desconectadas. Os componentes esforçam-se para se adaptar uns aos outros, lutam uns com outros, quebram-se e o padrão desordenado é percebido como uma combinação de unidades independentes fechadas em um conflito ilegível (ARNHEIM apud SANTAELLA, 2005a:214) Vaslav Nijinsky Mais um exemplo das características de sugestão no ato criativo de esquizofrênicos pode ser visto nas fusões da caracterização e cenário elaboradas por Vaslav Nijinsky. Com um longo período de não aceitação de seu diagnóstico de esquizofrenia, Nijinsky buscava expressar sua fragilidade sentimental através do que pode ser classificado um forma figurativa como qualidade, ou seja, se utilizava do poder do hipoícone imagético:Hipoícone imagético – de primeiro nível (ou ícone-imagem): é um signo que representa um objeto porque possui um conjunto de qualidades aparentes, similares às de seu objeto. Deixemos aqui bem claro que um ícone-imagem não é necessariamente um ícone visual. Sendo a imitação de uma aparência, encontra na visualidade seu modo privilegiado de realização, mas não se restringe a ela. (CHIACHIRI, 2010:45) Assim, torna-se possível entender que Nijinsky buscava esconder-se da dualidade interpretativa de sua esquizofrenia a partir da figura sui generis:Esta modalidade diz às formas referenciais que apontam para objetos ou situações existentes fora do signo, mas assim o fazem de modo ambíguo. Ao invés de buscar o traçado fiel de uma aparência visível externa no signo, essas formas criam figurações que obedecem a determinações imanentes e sui generis. A figura não visa reproduzir ilusoriamente uma realidade externa, mas é um universo à parte com qualidades próprias. Nesse caso, então, o objeto do signo não vale por sua realidade natural ou existência no espaço externo. O signo apenas o sugere ou alude, criando, para ele, dentro do signo, uma nova qualidade concreta, puramente plástica. (SANTAELLA, 2005a:229) O existencial
na esquizofrenia O caráter existencial da linguagem está em acordo com os termos da secundidade, pois se trata do momento de ação e reação, ou seja, o efêmero evento condicional em que a pura qualidade, vista na primeiridade, toma corpo e torna-se passível da falibilidade. Desta forma, os signos derivados dessa classe fenomenológica são diretamente afetados pelos seus objetos para que assim indiquem novas características dele, o que leva a um processo indicial ad infinitum. Em suma, essa existencialidade é dada no fugaz momento em que uma pura qualidade toma um corpo não-representacional. As categorias existenciais da linguagem se dão
da seguinte forma:

Reação ou secundidade, isto é, a ação do fato atual (qualquer ocorrência no aqui e agora, no seu puro acontecer, o fato em si considerando-se qualquer casualidade ou lei que o possa determinar, como, por exemplo, uma pedra que
rola da montanha);

[...] Relações, isto é, fatos de secundidade, por exemplo, o atrito com o chão da pedra que rolou da montanha;

[...] Como sensação de um fato, quer dizer, sensação de ação e reação ou signos de secundidade, por exemplo, a surpresa diante de um fato inesperado. (SANTAELLA, 2005a:35) Assim, as relações perceptuais e cognitivas no ato criativo de esquizofrênicos podem ser tidas no momento de passagem do sentimento para o sentido. Isso quer dizer que o ato criativo de esquizofrênicos também é passível de uma análise perante indícios não-representativos, porém figurativos. À exemplo desse processo, tem-se a obra criada pelo já citado Bruder Klaus, um eremita suíço que após diversas alucinações visuais e auditivas acreditou ter presenciado a Santíssima Trindade; o que o levou a diversos momentos de ato criativo até que conseguisse, finalmente, registrar figurativamente seus eventos alucinados em uma pintura que hoje se encontra na Igreja Paroquial de Sachsen. Bruder Klaus Com isso, percebe-se a intenção de Bruder Klaus em dar corpo a sua obra, ou seja, ele se utiliza dos quatro pilares do evangelho para dar existencialidade ao contexto de sua alucinação. O que Bruder Klaus busca é corporificar a narrativa bíblica, para assim dar um caráter figurativo aos perceptos compreendidos como gerados por estímulos reais. No centro é possível ver o rosto de Cristo indicando o Filho do Homem assentado em sua glória central se utilizando das mandalas ao seu redor como as nações que se reúnem em volta dele, exatamente como é descrito em Mt 25, 31-32. Mandala central inferior: a anunciação de Maria como acontece em Lk 1, 26-38.

Outro fato muito importante nessa mandala deve ser explorado: as muletas, que por sua vez indicam as colunas de sustentação da fé. Mandala esquerda inferior: o nascimento de Jesus como acontece em Lk 2, 1-20.

Também aqui é possível identificar mais um objeto que funciona como índice: a bolsa de viagem indicando a trajetória bíblica de peregrinação. Mandala esquerda superior: a ascensão de Cristo como acontece em Mt 25, 34.

Ainda nessa mandala, é possível conferir o pão e o jarro que fazem referência ao conceito bíblico de dar de beber a quem tem sede e dar de comer a quem tem fome. Mandala central superior: a captura de Cristo como acontece em Lk 22, 47-51. Mandala direita superior: a crucificação de Jesus como acontece em Lk 23, 33-34. Mandala direita inferior: a celebração da Eucaristia. O que cabe ser entendido é que cada mandala analisada de forma separada possui indícios do contexto empírico vivido por Bruder Klaus em sua religiosidade, mas, o mais importante, é atentar ao fato de que cada mandala também é uma indicação da mandala seguinte em um processo indicativo infinito que gira em torno do nascimento, ascensão, morte e ressureição.

Enfim, Bruder Klaus demonstra um anseio em dar corpo a suas alucinações e para isso parte do princípio de realidade de objetos preexistentes em seu repertório. Com isso demonstra o momento de porosidade mental tido na imaginação criativa que busca existencialidade em perceptos já apreendidos em sua cognição, o que evidencia a necessidade de dar continuidade nos estudos da percepção e da cognição de esquizofrênicos no campo lógico. O lógico
na esquizofrenia O cunho lógico da linguagem parte dos princípios de terceiridade na teoria peirceana, já que se trata dos valores representativos. Isso demonstra que os valores lógicos da linguagem são tidos no âmbito simbólico, ou seja, partem do princípio da reprodução de aparência como forma de representar algo. Tendo em vista essa relação simbólica, é possível entender que as relações da percepção e da cognição de esquizofrênicos, ao ter um ato criativo, trabalham perante a mediação de perceptos alucinados. A associação de ideias que faz com que o símbolo seja interpretado tem como referente um objeto que faz parte do campo percptual da alucinação. Assim, essa associação de ideias, o hábito, trata de uma representação figurativa que parte do princípio dos objetos que apenas são tidos na percepção e cognição singulares do indivíduo que passa por um determinado evento alucinado. As categorias lógicas da linguagem podem ser analisadas a partir dos seguintes aspectos:
Mediação ou terceiridade , o ser de uma lei que irá governar fatos no futuro (qualquer princípio geral ordenador e regulador que rege a ocorrência de um evento real, como, por exemplo, a lei da gravidade governando a queda da pedra que rola da montanha;

[...] Representações, isto é, signos ou fatos de terceiridade, por exemplo, a palavra céu como signo do céu, uma fotografia do céu como signo do céu, uma pintura do céu como signo do céu;

[...] Concepção ou mente nela mesma, quer dizer, sentido de aprendizado, mediação o signos de terceiridade, por exemplo, nestes parágrafos que o leitor está lendo, o aprendizado que eles trouxeram a mim ao escrevê-los e provavelmente também para o leitor ao lê-los. (SANTAELLA, 2005a:35) Ainda é possível entender que, para um esquizofrênico, a ocorrência do evento real citada por Santaella é gerada a partir de objetos não reais. Sendo assim, essa mediação e representação externam dados alucinados, a fim de simbolizá-los a partir de um repertório empírico que não distingue cognitivamente os estímulos gerados por eventos reais dos estímulos causados pelas disfunções da dopamina no funcionamento cerebral. Para exemplificar esse processo, tem-se a obra de David Nebreda. Recluso em sua casa, Nebreda pratica queimaduras, feridas, perfurações e diversos outros tipos de lesões em seu próprio corpo fotografando-se como forma de simbolizar a narrativa que constrói a partir de seus eventos alucinados. David Nebreda O corpo nu, muitas vezes velado por tecidos brancos, mostra a influência direta das obras Caravaggio ao simbolizar Cristo durante a flagelação, o que demonstra representar suas alucinações a partir de um repertório prévio adquirido ao longo dos anos que estudou arte; um aspecto da representação por analogia, ou seja, a semelhança. David Nebreda O corpo magro e flagelado também mostra a influência dos simbolismos da crucificação tão presentes na arte, porém é abstinência sexual que intensifica os valores simbólicos que unem a Igreja e a arte na obra de Nebreda. O uso da simbologia e a prática do celibato demonstram as características de esterilidade e suas relações com o catolicismo, o que evidencia a busca que David Nebrada faz em dar lógica aos perceptos alucinados relativos à divindade. Isso fica ainda mais evidente no constante uso do triângulo equilátero em sua obra: O triângulo equilátero tem uma simbologia muito abrangente, porém, tendo em vista que Nebrada tem um repertório empírico adquirido da arte barroca, pode-se demonstrar que o uso dessa forma geométrica acontece diante da representação da divindade, da harmonia e da proporção; assim, simbolizando Deus. A arte de Nebrada pode ser vista como uma forma de representação simbólica que contém o sentimento (sugestivo) que tomou corpo nos sentidos (existencial) para demonstrar a lógica de sua realidade dada por eventos alucinados. O que é expressado da forma mais visceral em uma narrativa na qual o próprio criador é condensado por seus símbolos: Por fim, a lógica se mostra no ato criativo de esquizofrênicos como “um meio para atingir um fim que a transcende” (SANTAELLA, 2005a:40). Pois, somente assim será possível uma compreensão harmoniosa sobre as infinitas possibilidades do ser. O importante, acima de tudo, é demonstrar que a estética e a ética desaguam nos parâmetros lógicos para que seja possível um mundo no qual os pressupostos unilaterais sejam deixados de lado, abrindo as portas para a compreensão de que um ato criativo pode ser a ignição para que qualquer ser humano adentre às infinitas possibilidades de vida que pode ter. Considerações finais A junção das ciências aplicadas com as ciências teóricas se acentua para a continuidade infinita e necessária à qualquer utilização em pesquisa. O que é evidenciado, nesse momento, é a necessidade das ciências cognitivas aplicadas, como a psiquiatria e a neurociência, buscarem fontes em ciências cognitivas teóricas, mostrando, assim, a possibilidade de se trabalhar a semiótica peirceana em estudos antes tidos dentro dos muros das áreas biológicas. Com isso, torna-se possível iniciar uma vertente de estudo que possibilite a pesquisa sobre pessoas com irregularidades psíquicas no campo da comunicação, porém que não caracterize esses termos como dependentes mútuos ou mesmo como fatores geradores e consequentes de si mesmos, mostrando que pensamento e linguagem estão presente em cada ser humano de maneira distinta, independentemente da existência das diferenciações neurobiológicas. Obrigado! digo.morais@gmail.com
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