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"Condições do lugar: Relações entre saúde e ambiente para pe

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Thiago Calil

on 16 September 2015

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Transcript of "Condições do lugar: Relações entre saúde e ambiente para pe

Apresentação
Saúde Ambiental: necessidade de estudos em escala local e micro (Nardocci et al, 2008)

Meu Lugar -









11 anos atuando como redutor de danos no território pelo Centro de Convivência É de Lei.
2009/2010 - “Circuitos de uso de crack nas cidades de São Paulo e Porto Alegre: práticas, regulações e cuidado” (Raupp, 2011).

2010 - chamada “Da cracolândia aos nóias: percursos etnográficos no bairro da Luz” (Frugoli, Spaggiari, 2011).

2011 - “Corpos Abjetos: etnografia em cenários de uso e comércio de crack” (Rui, 2012).

2011 - “Usuários de Crack: agenciamentos e usos em territórios urbanos” (Adorno et al, 2012).

2011 - “Perfil dos usuários de crack nas 26 capitais, DF, 9 regiões metropolitanas, municípios de pequeno e médio porte e zonas rurais”
Método
Contribuição etnográfica
Inserção em 2 imóveis do bairro. uma por 8 noites + acompanhamento por 6 meses.
http://www.policiamilitar.sp.gov.br/hotsites/centrolegal/localizacao.html
Como um “mergulho profundo e prolongado na vida cotidiana desses outros que queremos apreender e compreender” (Uriarte, 2012).

A etnografia possibilita amplo contato com a cultura local, que extravasa o simples acompanhamento dos movimentos de personagens do cotidiano, mas que também é capaz de tornar aparente especificidades locais invisíveis (Magnani, 1996).

Busca de sentidos e significados dos comportamentos no espaço. Busca um “engajamento no mundo e uma educação da percepção para as múltiplas possibilidades dos organismos humanos e não humanos de existir e de estar no mundo” (Carvalho, Steil, 2013).

Etnografia
correspondente à proposta do Mestrado Profissional Ambiente, saúde e Sustentabilidade na perspectiva de propor alguma inovação em processos de gestão e intervenção.
Etnografia
Desenhos
Diálogo entre academia e população - desenhos para além de meras ilustrações que adornem o texto, mas sim como:
Como documentos que, assim como os demais, constroem modelos e concepções. Não como reflexo, mas como produção de representações, costumes, percepções, e não como imagens fixas e presas a determinados temas ou contextos, mas como elementos que circulam, interpelam, negociam. (Schwarcz, 2014 p. 393).
A intenção com os desenhos é estimular o imaginário, e a imagem “se comportar como uma privilegiada instância formadora de representações” (Schwarcz, 2014 p. 393).
"Condições do lugar: Relações entre saúde e ambiente para pessoas que usam crack no bairro da Luz,
especificamente na região denominada cracolândia."

Thiago Calil
orientador: Rubens Adorno

desenho: Marcelo Maffei.
Estratégia de controle da produção, comércio e consumo de determinadas substâncias.

Determinações legais não pautadas somente em critérios para garantir saúde pública. E estudos evidenciam ser uma política não apropriada para a proteção desta (Boiteux, 2006).

No Brasil, Lei 11.343/06 – aumento de encarceramentos (Boiteux, Pádua, 2012) Política de encarceramentos: gera cada vez mais uma população excluída e seu espaço social.

O Proibicionismo

Ações embasadas pela segurança pública.

Não distingui traficante de usuário e não reflete sobre o uso, relação do sujeito com a substância.

Segundo psiquiatra Dartiu Xavier, no máximo 20% das pessoas que fazem uso de drogas apresentam prolemas relacionados ao uso.

Desconsidera a ótica da saúde.
Frustrações garantidas - Política de cuidado insustentável.

“uma ordem cínica, que zomba de si mesmo e convive bem com o
explicitamento de suas contradições e inadequações”
(Delmanto, 2013).

(1) Contexto: A política de drogas, a trajetória do bairro, a territorialização do consumo de crack, o imaginário e discurso produzido pela sociedade e as políticas praticadas pelo poder público;

(2) Texturas da Cracolândia: mergulho no cotidiano deste território com percepções de risco, vulnerabilidade e bem-estar para a população local, assim como a identificação de como as condições de saúde e o consumo de crack se relacionam com o espaço e com as políticas oferecidas e, por fim;

(3) Apontamentos Finais: alternativas de cuidado e novas perspectivas de atuação.

Etapas do estudo
Antes da estação rodoviária
1879 - Bairro surge como área residencial para elite cafeeira.
(Estrada de ferro Sorocabana).

1929 - crise do café . Crescimento urbano associado a questão geográfica acentuam os contrastes. consequente desvalorização e instalação de uma população de menor poder aquisitivo. (1º marco)

1930 - Plano de Avenidas de Prestes Maia (Av. Rio Branco, Duque de Caxias e Barão de Limeira. (2º marco)

1953 – Meretrício. Intervenção do governo de Lucas Nogueira Garcez = “degradação moral”. (3º marco)

Torre do relógio. Estação Julio Prestes. Desenho: Beatriz Figueira
Histórico da Luz ( Campos Elíseos)
Depois da estação rodoviária

1961 – Inauguração da estação Rodoviária.
- Grande fluxo de pessoas e automóveis/ônibus. Intervenções urbanas e surgimento de uma economia informal. Dissolveu por completo identidade residencial aristocrática do bairro.

1982 – transferência da rodoviária para a Marginal Tietê.
- Instalação de empresas de transporte clandestino (MA e Paraguai) e estrutura ociosa de hotéis = degradação urbana e social da área.

1990 – uso do crack no centro da cidade se territorializa na região - Luz e Campos Elíseos. 2ª "degradação moral"

- Prostituição, transporte clandestino e uso de drogas ilícitas = bairro sustentado por economia informal/ilegal.
- fragilidade identitária pode ser fator que contribue para a degradação social e urbana e a produção desta espacialidade.

O crack: das folhas ao ‘bloco’
1859 - o professor alemão A. Niemann isolou o princípio ativo
da cocaína. Logo, o médico francês Ch. Fauvel

- ultrapassou as fronteiras da esfera médica e farmacêutica e, em 1890
já haviam muitas bebidas que continham extratos condensados de cocaína, como o vinho Mariani e a Coca-Cola

- início do século XX = proibição

- crack surge no fim de 1984 e 1985 / alternativa de uso (fumada).

- Em SP, 1990 primeira apreensão em São Mateus.

- pesquisa FioCruz -
menos de 1% da população total do país.
- Uso tradicional
“o termo cracolândia enfatizaria certa dimensão territorial, com uma tendência a ser fixado espacialmente do ponto de vista da representação, como ocorreu efetivamente no bairro da Luz, que praticamente passou a ser sinônimo de cracolândia…” (Frugoli e Spaggiari, 2010, p.16).
Discurso, imaginário e produção do espaço
- Processo comunicativo -
ingrediente da representação social sobre este lugar e produção deste espaço.
mídia / linguagem
A cracolândia
Espaço de resistência e termo se aproxima cada
vez mais ao nome do bairro.

Território psicotrópico / região moral “territorialização funcional do espaço”(Fernandes, 2004)

Acentua degradação moral e Estigmatização local e
das pessoas- figura do ‘nóia’



O Problema
A nocão Psiquiátrica de dependência é a base para políticas de repressão e confinamento. Dependência e abstinência = maior sentimento de fracasso, incapacidade e exclusão.

O crack ao mesmo tempo representa como dá sentido a uma situação de extrema exclusão e precariedade.

As relações entre o histórico, a economia e as dinâmicas morais em torno da construção da noção de dependência interferem nas relações cotidianas, podendo potencializar, refazer e inclusive reduzir as possibilidades de vida das pessoas que fazem uso de drogas. (GARCIA, 2010)

A noção de dependência é um movimento inspirado por múltiplos fatores “e deve ser vista como uma trajetória das experiências que atravessa o biológico e o social, o médico e o legal, o cultural e o político” (Raikhel and Garriott, 2013)

"Todas estas linhas se entrecruzam nas práticas sociais, no plano das famílias, da economia doméstica e das redes sociais, e aí o jogo social se faz em conexão com outros tantos circuitos que embaralham ainda mais as fronteiras do legal e do ilegal, do formal e do informal, do lícito e do ilícito. É nesse plano que o varejo da droga encontra seus pontos de ancoragem, enreda-se nas tramas urbanas em que o fluxo de dinheiro, mercadorias, produtos legais e ilícitos se superpõem e se entrelaçam nas práticas sociais e nos circuitos da sociabilidade popular" (Telles, 2011 p.163).

Globalização - efeitos locais
Desqualificação crescente da força de trabalho. Impactos em categorias morais e papéis de gênero.

Formação de populações à margem (pop. de rua nas grande cidades). Mais de 17.000 pessoas em situação de rua em São Paulo.

Sobrevivem dos descartes e dos circuitos ilegais/informais urbanos.

Embaralhamento do legal e do ilegal no cotidiano.
As práticas políticas

Operação Limpa: 2005
Operação Centro Legal: 2009
Operação Sufoco: 2012
paradoxo: Para qual direção estavam indo os investimentos públicos?
Objetivos
Compreender a relação entre ambiente e saúde para usuários de crack e subsidiar a formulação de políticas públicas mais eficientes.

Compreender em que sentido a degradação espacial, ou ambiental se relaciona com a degradação da identidade. Identidade formada a partir do proibicionismo e da estigmatização.

Avaliar em que medida a melhoria das condições ambientais e de vida interferem na identidade estigmatizada do sujeito.
desenho: Marcelo Maffei
Programa Braços Abertos: 2014
Diversas Intervenções: poder público, Instituições Religiosas e Organizações da Sociedade Civil. “Campo de forças” (Adorno, Raupp, 2011)
As práticas políticas
Desmontagem barracos / intervenção no território
oferecimento de direitos: moradia, trabalho, alimentação e renda.
perspectiva de RD e intersetorial.

Porém, falta de projeto singular / precariedade
Jogo político
Presença constante da Polícia. contra "feira livre de crack".
Confinamento, ônibus com 30 câmeras- vigia ambiental/pessoal.
dificuldade de distinguir traficante de usuário.
Esta cronicidade atua por meio das experiências traumáticas típicas como humilhação rotineira, a interiorização de estigmas, a falta de perspectiva de vida, a perda do respeito e da integridade corporal, subjetiva e comunitária. Nestes espaços sociais, tanto as condições de pobreza e marginalização, como os circuitos de violência, produzem corpos frágeis, e a multiplicação de adoecimentos, enfermidades, ameaças e perigos para a saúde e a sobrevivência (Epele, 2010, p.228).
Onde a vida é vivida.

-
Rua
= múltipla conexão contínua entre tudo que habita determinado espaço, sejam nós, os humanos, mas também tudo que é material e imaterial que compõem o processo e os movimentos que chamamos de vida (Ingold, 2011).

Além da ideia de ‘cracolândia’ que permeia o imaginário público. Lugar vivo, onde valores, emoções e negociações de todo tipo transbordam pela vida cotidiana.

atividades sustentam modos de vida e articulam eficientes inserções no território, contrapondo a noção reducionista e desgastada do senso comum sobre a figura do dependente químico.

Costurado nesta vida comunitária está o ‘fluxo’.

Vida Nômade

2 - Texturas da
cracolândia
Por dentro da `Cracolândia`
“Aqui é o lugar dos excluídos, dos renegados. Aqui é o lugar de se viver o que dá para viver, o possível”.
Amélia / Morgana / Jayme
“Aqui na cracolândia não importa da onde você veio, a sua história. Aqui é como um gráfico, onde está desenhada uma linha na horizontal. Ninguém é melhor que ninguém. É todo mundo igual por aqui. ”


“Aqui eu uso o ‘uniforme de nóia’, uso estas roupas, não me preocupo com a limpeza das minhas mãos, das minhas unhas. Aqui a vida funciona assim mesmo. Eu vou fazendo o corre e lidando com o que eu preciso. Compro duas pedras e se precisar de alguma coisa eu vendo uma parte. Mas a única coisa que eu não faço... peço desculpa aí para a Lady (Roberta), mas é roubar e dar a bunda. Independente do que você faça, ou de onde você venha, a sociedade vê todo mundo aqui como uma coisa só. ”
Me pergunta como e eu digo:
“como nóia”
. Jayme diz:
“exatamente”
.
desenho: marcelo Maffei
Textura = geógrafo Torsten Hagerstrand, que na leitura de Tim Ingold valoriza a ideia de entrelaçamento de trajetórias pessoais e ambientais (Ingold, 2011 p. 84).
Muitas das pessoas que ocupam o bairro da Luz, sendo usuárias de crack ou não, são generalizadas como um grande grupo de ‘nóias’, e consequentemente têm suas origens, trajetórias, valores e particularidades totalmente esvaziadas. As inúmeras rupturas emocionais e sociais, somadas ao momento atual marcado pelo forte estigma, evidenciam a falta de perspectiva e a necessidade de escuta, compreensão e respeito.


Apesar da escassez material e condições de extrema precariedade, as pessoas também usufruem a vida, e é pautando-se em diferentes parâmetros que nos cabe repensar quanto as realizações e limites da população local.
Tudo pode acontecer e nada é indiscutível
Jony
Volto para casa refletindo... porque não depositar tempo e energia para cuidar de um ferimento tão grave? O que faria chegar a este ponto, praticamente já em decomposição? Fico pensando que quando Jony me mostrou a ferida ele disse com um tom aparentemente conformado:
“é uma ferida que eu tenho aqui”
. Disse como se ela fizesse parte dele, parecia já acostumado com ela, não lhe parecia ser uma questão a resolver. O que seria prioridade então para Jony neste momento? Quais questões o preocupavam? O que de fato traria risco à sua existência que não sua própria perna em putrefação? (Diário de campo – janeiro de 2014).
Definição clássica de risco: século XIX
RD anos 80
Porém enfoque epidemiológico não dá conta dos fenômenos socioculturais, complexos e subjetivos que as pessoas vivenciam.

Necessidade de refletir sobre a Ccnstrução Social do risco: possibilidade de 'colocar-se em risco' = LYNG, anos 80.
Oportunidade de desenvolver técnicas que permitam negociar as fronteiras inerentes às atividades de risco, sob a recompensa de se sentir mais em controle de sua própria vida e seu contexto. Torna-se então a oportunidade de controlar o que para muitas pessoas é ‘incontrolável’, e criar sentido para uma existência até então sem sentido (McGovern, 2011 p.488)
O que de fato seria correr risco neste contexto?
Michel
Não me parecia seguro voltar. Não parecia lógico voltar. Seria como “voltar para a boca do Leão”.
A experiência de se colocar em risco pode proporcionar uma sensação ampliada de si, podendo ocorrer uma suspensão no tempo e no espaço enquanto desenvolve esta prática. Segundo os McGovern, “suspendendo tempo e espaço, usuários podem experimentar o bloqueio/embaçamento de vivências passadas e presentes que poderiam ser causas de dor emocional. O furor do momento diminui a mágoa vivenciada em outros espaços como os espaços geralmente ocupados pela família ou trabalho” (McGovern, 2011 p.490). É neste cenário que o ‘colocar-se em risco’ oferece alternativas de compreensão para a decisão de Michel.
De certa forma, neste contexto voltar para a ‘cracolândia’ o fortalecia.
Experiências empíricas de que a percepção de risco varia entre pessoas e grupos. Os resultados, ou consequências, de determinada ação podem ser “a princípio, positivos ou negativos, dependendo então dos valores que as pessoas associam a eles” (Renn, 2008 p. 02).

Inevitavelmente, viver implica correr riscos, e as percepções pessoais fazem emergir as reais preocupações das pessoas, incluindo detalhes do cotidiano que as análises técnicas de risco geralmente não se atentam.

Estudo Califórnia - Campus

A relação entre o uso de crack e risco no contexto da cracolândia está associada aos também pela experiência subjetiva do uso de crack, que em determinados contextos atribuem efeitos e consequências adicionais (Jacobs, 2004).

que forças atuam na construção da noção de risco na cracolândia? Quais percepções então deveriam ser utilizadas para decisões que dialoguem com a proteção das pessoas?
Resistência: “cuidado para não cortar o galho em que se está sentado”
‘territorialidade itinerante’
, “que significa situá-la numa certa área urbana, mas sujeita a deslocamentos mais próximos ou mais distantes, a depender do tipo de repressão ou intervenções exercidas, além das dinâmicas de suas próprias relações internas” (Frúgoli, 2010, p.03).

de forma relativamente silenciosa, a dinâmica do crack persiste neste espaço urbano já por mais de 2 décadas. Sem uma organização formalizada, é perceptível um processo coletivo no esforço pela perpetuação desta dinâmica. “Este lugar sem a gente não existe”

“o que falta em termos de coordenação central é compensado pela flexibilidade e persistência. Essas formas de resistência podem não ganhar batalhas premeditadas, mas são admiravelmente eficientes em campanhas de confronto de longo prazo” (Scott, 2002 p. 28).

“aqui vem gente buscando de tudo, fazer fita, corre, procurar alguém, se esconder, acertar as contas, se proteger, conversar, se acolher, ser aceito, se aceitar e etc... aqui é de fio à pavio”.
A resistência pelo território e a resiliência, assim como o pássaro, de histórias de vida que se misturam em situações de extrema vulnerabilidade. Neste cenário, se apresenta justificável o interesse pela preservação do território por seus atores sociais. A resistência que se concretiza pela existência cotidiana, como uma atitude política limite, em que a resistência se expressa por um saudável interesse em sobreviver.
desenho: Rafael Trabasso
desenho: vanessa Pens
desenho: vanessa Pens
Sobrevivência criativa: fluxos da vida
Luis

Hoje a reciclagem é minha vida. Não largo isso. Não dependo de ninguém e não quero depender de alguém. É engraçado, as pessoas leigas acham que não fazemos mais nada. Eu faço o meu corre. Pode ser de graça, mas eu que fui atrás e consegui. (Relato de campo – Luis, 08/07/2014).
desenho: Marcelo Maffei
A partir de experiências reais e concretas como a de Luiz podemos avançar e pensar a relação com substâncias psicoativas atrelada a trajetórias de vida e ao contexto onde as emoções e subjetividades são experenciadas.

O uso ou abuso de drogas pode ser entendido como elemento da vida cotidiana de algumas pessoas em situação de rua como forma de afirmação e sustentação de uma identidade, como uma “forma de experimentação ou intervenção da própria vida” (Raikhel, Garriott 2013: 28). Uma estratégia que dá sentido ao acúmulo de perdas em um cotidiano de extrema precariedade.

Para se pensar uma política orientada para as pessoas em situação de rua, é necessário considerar a segregação desta população na organização espacial e urbana (Varanda e Adorno, 2004), e a partir de aproximações como esta aqui apresentada visar uma melhoria da saúde que se relacione com o modo de vida das pessoas. -
circuito de sobrevivência.

A ‘cracolândia’ como um lugar que acolhe indivíduos com trajetórias de vida em comum, e que a partir de uma eficiente leitura da cidade abrem possibilidades para desenhar e redesenhar trajetos que dão contorno a modos criativos de sobrevivência. Caminhos que podem sim relacionar-se com o uso de drogas, mas este sendo apenas um detalhe na diversidade de negociações possíveis no território e nas vidas que o ocupam.
A várzea dos direitos: rua, bares e carroças
RUA:
“muito bacana o acesso a todos estes direitos, mas se para ter essas coisas for necessário eu perder o meu direito de ficar aqui na rua eu não quero. Muito obrigado! ”

amplifica as possibilidades de inserção no espaço e agenciamento individual em relação às políticas oferecidas.
DBA:
trabalho, renda e moradia
BARES:

Lacram os bares sem aviso prévio, reabrem 90 dias depois e comerciantes arcam prejuízos.
Porém, hotéis conveniados também estavam sem alvará.
CARROÇAS
29 - abril 2015: apreensão de carroças

Estariam tendo o cuidado de diferenciar as carroças utilizadas para o tráfico e as que são utilizadas para a prática da coleta e venda de material reciclável?

"A carroça é a minha casa, meu trabalho, onde eu organizo as minhas coisas. Não tenho muitas coisas, mas são as minhas coisas. Eu me organizo na minha bagunça. Agora não tenho nada... sinto até um desgosto. Tenho que ficar pedindo dinheiro, cigarro e outras coisas para os outros... você sabe que eu gosto de me virar sozinho. Nem sei por onde começar. É como se eu estivesse nu e com as mãos e os pés amarrados."
(Diário de campo – 26 de maio 2015).
intervenção criminalizadora que viola direitos humanos na cracolândia. Segundo Guia de Saúde e Direitos Humanos (HHR) :
criminalização da posse e uso de drogas “cria mais danos que os danos que buscam prevenir”. Legislação de drogas repressivas e políticas que desproporcionalmente punem pessoas que fazem uso de drogas e traficantes. Políticas que perpetuam o estigma, formas de uso menos seguras, e consequências de saúde e sociais negativas – não apenas para aqueles que fazem uso de drogas, mas para toda a comunidade no entorno. (HHR, 2015).
Situações cotidianas como estas podem diluir a preocupação e oferta de direitos proporcionada pelo programa Braços Abertos. Em um território onde o que é legal ou ilegal é negociado a todo instante são possíveis violações de direitos silenciosas para determinados atores sociais. Na questão dos direitos humanos, o território parece uma várzea em todos os sentidos. Tanto pela informalidade de parâmetros, como pela dificuldade de a luta pela garantia de direitos caminhar neste terreno encharcado de interesses.
desenho: Marcelo Maffei
3 - ESCUTA, RESPEITO E CUMPLICIDADE NA BUSCA DO CUIDADO
A partir do vínculo construído, é possível estabelecer diálogos com as pessoas que usam crack e desenvolver estratégias de cuidado e insumos de prevenção para minimizar riscos e estimular o autocuidado.

Projeto-Piloto MS:
contato com a 'forma de uso' local, e inevitavelmente o cachimbo de madeira não foi incorporado como uma alternativa de uso mais seguro na ‘cracolândia’, mas foi ferramenta potente na abertura de um diálogo que expandiu as possibilidades.

sabendo-se dos riscos relacionados ao uso de crack, o que podemos fazer para minimizá-los?


Alternativas
técnicas pessoais:

porta-cinzas
"Ele&Ela"
"busca longe"
Estretar casinha
cinzas medicinais
vidro/lâmpadas/resfria
cobre

Insumos
1926 /
anos 80 - JunkyBonds

Uma prática que extrapola a lógica preventivista funcional do controle dos riscos, e que abre possibilidades para que relações inéditas se estabeleçam desconstruindo os papéis mecanicamente rígidos entre médico-paciente (Ayres, 2004).

“estabelecer um diálogo entre aqueles que avaliam e gerenciam o risco e aquelas pessoas que de fato o vivenciam” (Di Giulio et al, 2010 p.283).

construção conjunta.
Produção do cuidado: a Redução de Riscos e Danos como perspectiva sustentável
Segundo Meyer:
A intencionalidade de construir estratégias educativas que permitam investir
em possibilidades de transformação das condições de vida nas quais crenças, hábitos e comportamentos ganham sentido demanda apreender, compreender e dialogar com a multiplicidade de aspectos que modulam as crenças, os hábitos e os comportamentos dos indivíduos e grupos com os quais interagimos (Meyer et al, 2006 p. 1340).

Fenomenologia existencial:
"o homem compreendido como o ser-existindo-aí. Dasein é sempre uma possibilidade na qual se encontra uma abertura para a experiência” (Sodelli, 2007 p.638).

Assumir a responsabilidade pelo atual momento de vida, e o contato com o que é intimamente essencial para si, pode abrir possibilidades e alternativas de se colocar no mundo.

“não é possível cuidar de si sem se conhecer. O cuidado de si é certamente o conhecimento de si” (Foucault, 1984 p. 269).

“criar condições e possibilidades para que as pessoas cresçam e se desenvolvam”. (Liz Evans)

A permeabilidade entre o conhecimento técnico e o saber local torna possível o diálogo entre a normatividade funcional médico/sanitária com uma normatividade de outra ordem, oriunda do mundo da vida (Habermas, 1988 in Ayres, 2004 p.22). É preciso resgatar o sentido existencial das práticas terapêuticas de cuidado.
4 - Apontamentos Finais
O uso do crack é relativamente recente e ainda temos poucos estudos relacionados a este tema.

busquei explicitar a gama de relações que caracterizam o espaço da cracolândia, e como o uso de crack, que se especializou neste espaço, é um detalhe nas complexas relações com a história, a moral, as políticas, a produção do espaço e a constituição de diferentes modos de existir.

não existe a possibilidade de existir organismos e coisas sem um ambiente, e como também não é possível existir um ambiente sem a presença de coisas e organismos (Ingold, 2011 p. 77).

O espaço não é o ambiente (real ou lógico) em que as coisas se dispõem, mas o meio pelo qual a posição das coisas se torna possível. Quer dizer, em lugar de imaginá-lo como uma espécie de éter no qual todas as coisas mergulham, ou de concebê-lo abstratamente com um caráter que lhes seja comum, devemos pensá-lo como a potência universal de suas conexões” (Merleau-Ponty, 1999 p. 328).

Neste emaranhado de relações entre coisas, pessoas e os espaços que constituem a vida, o uso de drogas passa a ser uma forma de se expressar. Uma forma de se apresentar para os outros e de se fazer presente socialmente.
Busco considerar a complexidade, a diversidade e a liberdade ética do modo de ser do humano. É nesta complexidade e diversidade de se relacionar com o mundo que temos campo valioso na busca de alternativas de cuidado possíveis em diferentes contextos. Alternativas que considerem uma gama mais ampla de relações, inclusive subjetivas entre o ambiente, a existência humana, as drogas e o cuidado.

As trajetórias de Jayme, Amélia, Morgana e Luis nos trazem elementos particulares que podem auxiliar na compreensão da população que ocupa regiões marginalizadas como a cracolândia. Muitas vezes as políticas oferecidas, apesar de darem certo contorno ao ambiente em que vivem, não dão conta das questões e dificuldades individuais, podendo ainda se tornarem empecilhos a mais no cotidiano.

Apesar das recentes conquistas na oferta de serviços no território da cracolândia, ainda perpetuam práticas criminalizadoras que colocam o cuidado às pessoas que usam drogas em segundo plano.

Mostra-se evidente a necessidade de se respeitar, escutar e valorizar a história e experiência cotidiana destas pessoas que buscamos cuidar, afinal elas precisam se reconhecer nesta prática. É deste ponto que precisamos partir.
Uma produção do cuidado que entenda e aceite as pessoas como são sem julgamentos e expectativas, e que ofereça a elas o que precisam, quando precisam, e na forma em que precisam.

O
legítimo ‘cuidar’
acontece não da forma que queremos ou impomos, mas sim da forma em que nós ou o outro nos sentimos cuidado, e revela-se mais potente quando reconhecemos e sentimos o que é melhor para nós. Boas intenções e possibilidades de oferecer algo sem saber o que o outro necessita pode ser arriscadamente inócuo. A relação dialógica cria oportunidades de reflexão e de construir e fortalecer “cumplicidades na busca de proteção” (Meyer et al, 2006 p. 1341).
Valeu!
1- O Contexto
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