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Lógica e Argumentação: a distinção validade/verdade

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José Joaquim Fernandes

on 14 October 2018

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Transcript of Lógica e Argumentação: a distinção validade/verdade

A
lógica
é a disciplina filosófica que estuda os argumentos.

- eis o problema central de que se ocupa a lógica.

Apresentar
bons argumentos
é fundamental para fundamentarmos o nosso ponto de vista sobre um dado problema e levarmos os nossos interlocutores a aceitarem as nossas teses.
Um argumento é um conjunto de proposições relacionadas entre si de tal modo que seja possível, mediante um
raciocínio ou inferência
, defender ou justificar uma delas -
a conclusão
- com base na outra ou nas outras, que se chamam
premissas
.
Se amanhã o tempo estiver quente, vou até à Praia Grande.
Não fui à Praia Grande.
Logo, o tempo não esteve quente.
Eis dois exemplos de argumentos:
Premissas
Conclusão
Reparem num argumento como o seguinte:
Nenhum aluno do 10º ano tem mais de 17 anos de idade.
O Edmilson é aluno do 10º ano.
Logo, o Edmilson não tem mais de 17 anos.

Se alguma das premissas for falsa, nada nos garante que a conclusão seja verdadeira.
Mas, pergunto:
Se as premissas forem verdadeiras, alguém pode duvidar que a conclusão é verdadeira?


Qualquer prática humana que provoque intencionalmente dor nos animais é inaceitável.
As touradas provocam intencionalmente dor nos animais.
Logo, as touradas são inaceitáveis.
Vejam os exemplos seguintes.
Será que estamos a raciocinar corretamente?
Como poderemos "arrumar" este argumento?
Tentem, agora, apurar o vosso sentido lógico formalizando os seguintes argumentos:

1) Não acredito que Deus exista. Se Deus existisse, o mundo não estaria cheio de injustiças, violência e e doenças que afectam tanta gente. Ora, infelizmente esse é o mundo que existe...
2) "Garanto-vos: qualquer aluno que siga com atenção o que se passa nas aulas de Filosofia, consegue bons resultados no final do ano. O problema é que muitos de vocês não vão conseguir fazer isso! E esses arriscam-se a não obterem bons resultados e a reprovar..."
Convém que fique bem claro o seguinte:
um argumento pode ter uma ou mais premissas
. Todavia,
só pode ter uma conclusão.
Como veremos, é importante, num argumento, identificar com clareza as premissas e a conclusão para o podermos avaliar logicamente.
Uma proposição é o pensamento verdadeiro ou falso literalmente expresso por uma frase declarativa.
Isto significa que mediante uma qualquer proposição afirmamos algo sobre o mundo e, isso que afirmamos tanto pode ser verdadeiro como falso.
Isso quer dizer que
a verdade é uma propriedade das proposições
.
Dado que um argumento é constituído por proposições, é relevante sabermos se essas proposições são verdadeiras ou falsas.
Como parece óbvio, se uma ou mais premissas são falsas esse argumento perde força, dado que somos levados a não aceitar a conclusão.
Atenção, agora, ao seguinte:
Um argumento é um conjunto de proposições articuladas logicamente entre si mediante uma
inferência
.
O modo ou
a forma lógica
como essa inferência está feita não é verdadeira nem falsa: pode estar logicamente correta ou não.
Isto significa que
os argumentos não são verdadeiros ou falsos
.
O conceito de designa, em lógica, o modo de relacionar as proposições que constituem um argumento.
A
lógica

investiga os modos válidos de relacionar proposições nos argumentos permitindo distinguir os válidos dos inválidos.
De acordo com o que acabamos de dizer, existem duas formas de encarar os argumentos:
1.
Podemos interrogar-nos sobre o valor de verdade de cada uma das proposições que o constituem.
Por ex.: será verdadeira a 2ª premissa?
2.
Podemos interrogar-nos sobre a forma lógica como está desenvolvido o raciocínio.
Estará bem desenvolvido o raciocínio?
Se fizermos o mesmo exercício sobre o seguinte argumento, a que conclusões podemos chegar?
Todos os alunos do 10º Lh1 são adolescentes
Alguns adolescentes são indisciplinados
Logo, alguns alunos do 10º Lh1 são indisciplinados.
Nos exemplos de argumentos que acabamos de analisar, esses argumentos aparecem bem organizados: temos duas premissas seguidas de uma conclusão.
Acontece que, numa normal troca de argumentos, raramente os intervenientes apresentam os seus argumentos assim bem organizados.
Voltemos, por um momento, atrás...
O normal é que um argumento como este, possa aparecer no meio de um debate, apresentado por alguém que diz o seguinte:
"Sou completamente contra as touradas! É uma prática desumana inaceitável! Como é que se pode estar de acordo com o sofrimento infringido aos animais? Cá para mim qualquer dor infringida intencionalmente a animais é inaceitável e é isso que se passa nas touradas."
Para sabermos se a pessoa que está a argumentar está a raciocinar de modo correto,
para sabermos se o seu argumento é válido
, é importante "limparmos" o seu discurso e organizarmos ou formalizarmos o seu argumento.
O problema é o seguinte: como saber quais são as premissas e qual é a conclusão?
Se Deus existisse, o mundo não estava cheio de injustiças, violência e doenças.
O mundo está cheio de injustiças, violência e doenças.
Logo, Deus não existe.
Todos os alunos que sigam com atenção o que se passa nas aulas obtêm bons resultados no final do ano.
Alguns alunos não seguem com atenção o que se passa nas aulas.
Logo, alguns alunos não obtêm bons resultados no final do ano.
Cuidado!
Este argumento é inválido!!!!
Alguém é capaz de me dizer porquê?
Vamos a outro exemplo um pouco mais simples:
"
Dado que
qualquer aluno para entrar em medicina necessita de uma nota de candidatura acima de 17,5 e
visto que
a Andreia concorreu com uma nota de 16,4
,
daí se segue
que ela não entrou em medicina"
.
Indicadores de premissas
:
porque...
pois...
dado que...
visto que...
devido a...
a razão é que...
admitindo que...
supondo que...
já que...
Indicadores de conclusão
:
logo...
portanto...
por isso...
daí que...
segue-se que...
conclui-se que...
consequentemente...
como tal...
Uma última questão: acontece, por vezes, que quem está a argumentar defesa de um certo ponto de vista não apenas não nos apresenta os seus argumentos de forma organizada, mas nem sequer nos apresenta alguma ou algumas das suas premissas.
Um
entimema
é um argumento que tem pelo menos uma premissa oculta.
Vamos a um exemplo:
A Beatriz disse-me, no final da aula passada:
"Professor, ouvi dizer que vem todos os dias para a escola de bicicleta. Se isso é verdade, então o professor deve ser amigo da natureza!"
Há aqui uma premissa que a Beatriz não explicitou mas que está suposta no seu argumento.
Esse argumento devidamente organizado consiste no seguinte:
"Todas as pessoas que vêm para a escola de bicicleta são amigas da natureza.
O professor vem para a escola de bicicleta.
Logo, o professor é amigo da natureza."
Organizem os seguintes entimemas, explicitando as respetivas premissas e conclusão:
1. "O Bernardo Silva está no Manchester City porque é um jogador fora de série."
2. "Têm visto a quantidade de selfies que o presidente da República tem tirado por todo o lado? Deve ser por isso que ele é tão popular."
Apurem o vosso sentido lógico apresentando os seguintes argumentos com as respetivas premissas e conclusão:

1. "Os gatos aprendem uma infinidade de coisas e são capazes de memorizar muita informação. Ora, se isso acontece, isso quer dizer que eles têm vida mental porque um animal que aprende e tem memória é sinal de que é capaz de pensar."
2. Os relatórios médicos indicam que o número de portugueses que tomam antidepressivos é muito grande.
A mãe da Ana, desde que perdeu o emprego, é um exemplo dessa realidade: ela tem andado triste e deprimida. Como poderia ser de outro modo? Qualquer pessoa nessas condições, vendo-se privada de recursos para ter uma vida digna, se deve sentir desesperada.
Os filósofos investigam certo tipo de problemas. Dado que estes problemas não podem ser investigados com suporte em informações vindas do observação, o instrumento fundamental utilizado pela filosofia são
os argumentos
.

Um outro exemplo de um argumento:

Trabalhar numa empresa é sempre uma experiência enriquecedora
. (Premissa 1)
A Madalena esteve, este verão, a trabalhar numa empresa.
(Premissa 2)
Logo,
ela teve uma experiência enriquecedora
.

(Conclusão)
Como acabamos de ver, um argumento é constituído por
proposições
: umas são premissas e a outra é a conclusão.
Há certas frases que não são proposições dado que não afirmam ou declaram nada sobre o que existe. É o caso das seguintes frases:
Quantas vezes vão ao instagram por dia?
Quem me dera ganhar o euromilhões!
No próximo fim de semana, se o tempo ajudar, talvez vá à praia...
Quais as premissas e qual a conclusão deste argumento?
Lógica e argumentação
Validade/verdade

Exercício:
Tentem escrever um argumento com sentido lógico no vosso caderno.
Se estiverem atentos nas aulas, terão positiva a filosofia.
A Inês Costa não teve positiva a filosofia.
Logo, não esteve atenta nas aulas.
Alguns jogadores de futebol ganham imenso dinheiro.
O Leonardo Baía joga futebol.
Portanto, ganha muito dinheiro.
E, se este argumento fosse apresentado assim:

Qualquer jogador de futebol ganha imenso dinheiro
O Leonardo é jogador de futebol.
Portanto, ele ganha imenso dinheiro.

Este argumento é válido: está bem construído. O anterior é inválido. A lógica explica-nos por quê.


Agora um exemplo um pouco mais complicado:

Há alunos que não respeitam os professores. Querem saber por quê? Porque estão sempre a falar nas aulas e com isso a prejudicar o seu trabalho. Ora, digam-me lá: prejudicar o trabalho de uma pessoa não é faltar-lhe ao respeito? Claro que é!
Quais as premisssas e conclusão deste argumento?
O que é um argumento?
O que é um bom argumento?
O que é uma proposição?
validade
Quais dos seguintes enunciados são proposições e quais não são proposições?
1.
Gosto muito da música de Benjamin Clementine!
2. A música de B. Clementine tem alta qualidade estética.
3. O Benfica perdeu 2 a 1 com o Bayern no primeiro jogo da fase de grupos da Champions.
4. Prometo que vos envio esta apresentação hoje à noite.
5. Impor uma dieta vegetariana a crianças é biologicamente errado.
6. O Estado deve obrigar os pais a vacinarem os filhos?
7. As vacinas do plano nacional de vacinação são obrigatórias por lei.
8. Quem me dera ter dinheiro para comprar um bilhete para ir ver os U2 em Lisboa!
Quando definimos proposição como o pensamento que exprimos através de uma frase que declara algo sobre o mundo, isso significa que podemos exprimir uma mesma proposição mediante enunciados verbais sinónimos.
Ex.
1.Mário Soares é pai biológico de João Soares.
2. Mário Soares é o progenitor de João Soares.
3. João Soares é filho biológico de Mário Soares.

3.
As frases «A foz do Tejo é em Lisboa» e «O Tejo desagua em Lisboa»
(A) representam duas proposições verdadeiras.
(B) representam a mesma proposição.
(C) não representam qualquer proposição.
(D) representam duas proposições válidas.
Reparem na seguinte pergunta que saiu no Exame Nacional de 2017:
Vou organizar de modo ligeiramente diferente este argumento de modo a tornar mais claro e simples o raciocínio:
1. Todas as mulheres são donas do seu corpo e podem fazer com ele o que quiserem.
2. Um embrião nas fases inicias do desenvolvimento faz parte do corpo da mulher .
3. Logo, qualquer mulher pode fazer o que bem entender com o embrião nas fases iniciais do seu desenvolvimento.
É muito provável que não se tenham dado conta de que, neste último argumento, há um problema, ou um erro no raciocínio...
A estudarmos a lógica vamos identificar esse erro e isso vai permitir-nos recusar esse argumento.
Podemos criar argumentos a partir de diversos
tipos de proposições
. Analisaremos isso um pouco mais à frente.
Validade
e
forma lógica
dos argumentos
Eu tinha dito que, neste argumento, existe um erro!
As mulheres são donas do seu corpo e podem fazer o que bem entenderem com ele
.
Ora, dado que
um embrião nas fases iniciais de desenvolvimento faz parte do corpo de uma mulher
,
ela pode fazer o que bem entender com ele.
Vamos a um conhecido exemplo dos defensores da legalização do aborto.
Estudar
lógica
é importante porque a lógica garante-nos que, se num argumento o raciocínio estiver bem construído (respeitar as regras lógicas) e partirmos de premissas verdadeiras, a conclusão a que chegamos é necessariamente verdadeira.
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