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Universidade Federal de Santa Catarina

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by

Ângelo Luiz Brüggemann

on 14 June 2017

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Transcript of Universidade Federal de Santa Catarina

Universidade Federal de Santa Catarina
Centro de Desportos
Programa de Pós-Graduação em Educação Física
SER CRIANÇA NA COSTA DA LAGOA:
MEMÓRIAS, BRINCADEIRAS E NATURE
Z
A

Miraíra Noal Manfroi
Profa. Dra. Alcyane Marinho
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
Era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele
para mostrar aos irmãos.
[...]
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando
ponto no final da frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho, você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas peraltagens.
E algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos.
Manoel de Barros (2010, p.469 – 470)

Estudar crianças, brincadeiras e natureza.
Costa da Lagoa como campo de pesquisa:

Localização geográfica.

Possibilidade de alugar uma casa.

Existência de uma natureza abundante.

Presença de crianças.

Relativa facilidade de ir e vir, assegurando a participação nos grupos de pesquisa e demais atividades do mestrado.

A pesquisa procurou responder aos seguintes questionamentos:

Quais cenários e brincadeiras fazem parte da memória individual e coletiva dos velhos moradores da Costa da Lagoa, homens e mulheres?

O que significa ser criança na Costa da Lagoa?

Quais são as principais formas de brincar dessas crianças?

Quais os significados da natureza para as crianças?

Quais experiências acontecem no cotidiano da Costa da Lagoa envolvendo a natureza?


Objetivo geral

Desvendar os sentidos e os significados encontrados nas relações estabelecidas pelas crianças, moradoras da Costa da Lagoa em Florianópolis (SC), entre o ser, o brincar e a natureza.

Objetivos específicos

o Ouvir as narrativas dos velhos moradores sobre as suas memórias de infância, com foco na infância de outrora e nas brincadeiras.

o Encontrar os espaços de brincadeiras existentes na Costa da Lagoa voltados às crianças residentes nessa comunidade, bem como se dão as suas apropriações.

o Buscar os significados das diferentes formas de brincar das crianças moradoras da Costa da Lagoa.

o Experimentar o cotidiano dessas crianças, detectando suas experiências com e na natureza.


Primeiras aproximações com o campo de pesquisa:

Levantamento inicial dos últimos estudos realizados na Costa
(MALUF, 1992, 1993; GIRARDELLO, 1998; CARUSO, 2011; PEREIRA, 2012;
SANTOS, 2013; LUZ, 2014; CARRERO; HANAZAKI, 2014).

Contato com Maria Fernanda Salvadori Pereira.

27 de fevereiro de 2014 visita com a Maria Fernanda à Escola e Casa da Flor.
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO

2 COSTA DA LAGOA: ESPAÇOS E TEMPOS NUM LUGAR ENSOLARADO DE VIVER
2.1 Camadas do tempo histórico e das memórias de outrora
2.2 Contextos e cenários de agora
2.3 Trilhas e travessias metodológicas: “deixei uma ave me amanhecer.”
2.4 Costa da Lagoa: vejo-te viva e cercada de natureza

3 MEMÓRIAS DAS CRIANÇAS DE OUTRORA: PUXANDO AS REDES DO TEMPO AO CONTAR HISTÓRIAS DE ANTIGAMENTE

3.1 A Costa da Lagoa que está guardada do lado esquerdo do peito
3.2 Entre recordações e saudade, as brincadeiras , as traquinagens e os brinquedos
3.3 “Imagens são palavras que nos faltaram”
3.4 “Os ventos levam-me longe... longe...”

4 AS CRIANÇAS DE AGORA: ENTRE AS BRINCADEIRAS, AS CONVERSAS E OS RISOS, OS EXERCÍCIOS DE SER GENTE
4.1 As crianças: seres de direitos, históricos, sociais, políticos, culturais
4.2 Narrativas que dizem de imaginação, de liberdades e de sonhos
4.3 Desenhos: “hoje eu desenho o cheiro das árvores.”
4.4 “Eu gosto do absurdo divino das imagens.”
4.5 “Meus passos não eram para chegar porque não havia chegada.”

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS: “NÃO PRECISO DE FIM PARA CHEGAR.”

REFERÊNCIAS

Comunidade com aproximadamente 800 moradores, sendo em sua maioria descendentes de açorianos (LUZ, 2014).

Localizada ao norte-leste de Florianópolis (SC), na região da Lagoa da Conceição.

Acesso somente por barcos ou trilhas.

Constituida por cinco vilas.

Economia baseda na pesca, rendas, cooperativas de barcos, resturantes, pequenos comércios, empregos públicos e outros.
Vila verde
Encontram as ruínas de um antigo engenho e local no qual mora o maior número de pessoas que não nasceram na Costa, ou seja, os não nativos.
Vila da Praia Seca

Local onde moram muitas crianças, sendo possível encontrar alguns restaurantes.
Vila da Baixada e Vila Principal

Na união destas duas localidades se encontra a Cachoeira, a maior concentração de restaurantes, a Escola, o Posto de Saúde, a Igreja, o Salão Paroquial e o maior número de moradores, inclusive de crianças.
Vila da Praia do Sul

Local onde tem somente um restaurante e no qual as moradias ficam muito
próximas umas das outras, também
com muitas crianças.
Prainha
Praia do Saquinho

TRILHAS E TRAVESSIAS METODOLÓGICAS:
“DEIXEI UMA AVE ME AMANHECER”

Etnografia:

Para exercitar o “olhar de perto e de longe, de dentro e de fora” (MAGNANI, 2002).

Para realizar a "descrição densa" (GEERTZ, 1989).

Para compreender a cultura em suas manifestações cotidianas, visto que a vida diária se apresenta como grande potencialidade de movimentos transgressores e criativos, sendo capaz de se ressignificar e de buscar outras formas de viver (MARINHO, 2003).




Caminhos percorridos:

Definição do campo de pesquisa.

Submissão e Parecer Consubstanciado Nº 701.067/2014.

Morar na Costa.

Apresentação da proposta de pesquisa, suas implicações e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

MEMÓRIAS DAS CRIANÇAS DE OUTRORA:
PUXANDO AS REDES DO TEMPO
AO CONTAR HISTÓRIAS DE ANTIGAMENTE
As
narrativas
dos velhos moradores, ao serem transcritas, se tornaram densas, predominando sobre as observações e as imagens.

O que foi vivido está guardado do lado esquerdo do peito.

As famílias eram muito numerosas, seus membros trabalhavam juntos e as crianças inventavam jeitos de brincar.

Os namoros aconteciam entre os próprios moradores, sendo comum fugir para depois casar.

Forte presença de benzedeiras, benzedores e parteiras.

As memórias dos mais velhos em relação às suas infâncias e às infâncias de seus filhos e netos, tendo como pano de fundo o brincar e as brincadeiras como construções e aprendizagens históricas e culturais (BROUGÈRE, 1998, 2000; HUIZINGA; 2004).

Brincadeiras que eram só serviço, infâncias roubadas (SILVA, 2000). Tudo era brincante e tudo era trabalho.

Casamento simbolizava a passagem do mundo infantil para o mundo adulto.

Os velhos moradores da Costa, embora alegres, carregam em si um tempo de infância encurtado e diminuído, mas ao mesmo tempo alargado porque vivem as crianças que foram e são.

Os brinquedos eram artesanais, feitos pelos adultos da família e compartilhados entre as crianças (bonecas de pano ou das folhas de bananeiras, carrinhos de lata, andar com os pés sobre duas latas, pegar frutas nos pomares alheios, escorregar de cascuda, pular corda, esconde-esconde, passar anel, Ratoeira, bandeira salva, tomar banho na lagoa, subir nas árvores, fazer trilhas, pescar e outras invenções).
Bela, Gaia, Isa, Leon e Flor, em momentos diferentes, foram descrevendo os seus brinquedos e brincadeiras com e na natureza:

“Apanhava o umbigo da banana, fincava dois pauzinhos e fazia boizinho igual no engenho.”

“Brincava de boneca que a gente fazia de bananeira.”

“Nós puxava um galho do café para baixo, cuidando pra não quebrar. Tudo era a nossa fase.”

“Quando a gente subia no pé de café ou no pé de laranja pra pegar laranja a gente gostava, mas naquele tempo a gente não fazia arte, que nós tínhamos medo.”

“Os meninos pegavam um mamão, colocavam patas de palito e saiam puxando achando que era um boi.”.
Leon fala que, além das outras brincadeiras, também brincavam de cascuda:

“Quando a mata era bem lisa e nosso pai fazia a roça, aí a gente pegava aquela cascuda que solta do tronco do coqueiro.
Aí a gente embarcava dentro daquela casca como se fosse uma canoa, balançava e vinha embora morro abaixo. Muita emoção.”.

As brincadeiras com as águas eram mais delicadas, pois no imaginário dos pecadores e de suas mulheres, há sempre uma possibilidade de ir e não voltar,

As brincadeiras eram mediadas pelo trabalho, mas qualquer folga era para as traquinagens e as peraltices. Criança sempre encontra jeitos.

AS CRIANÇAS DE AGORA:
ENTRE AS BRINCADEIRAS, AS CONVERSAS
E OS RISOS, OS EXERCÍCIOS DE SER GENTE
Com as crianças houve mais observações, “experiências vividas” (BENJAMIN, 1980), fotografias, filmagens, pequenos diálogos e desenhos.

A Costa se constitui em um “território sagrado do brincar” (HORTÉLIO, 2014).

As crianças brincam nas matas, na lagoa, nos raros campos de grama existentes, nos barcos, nos trapiches, nas casas uns dos outros, nos galhos de árvores, nas lojas, na rampa do Posto de Saúde, no pátio da escola, no caminho que perpassa a comunidade. Transformam espaços aparentemente não brincantes em locais de traquinagens e felicidades, (re)significando lugares, objetos.


“As crianças, [...] lembram ao adulto que o cabo de vassoura também pode ser um cavalo e uma caneta pode ser um foguete ou avião, que pode levar-nos a lugares e mundos jamais conhecidos, conhecer pessoas, experimentar novas relações.” (DEBORTOLI, 2004, p.24).

De uma maneira diferenciada das prosas dos velhos moradores, que foram mais ouvidos, com as crianças houve mais observações, “experiências vividas”, fotografias, filmagens, pequenos diálogos e desenhos.
Concepções norteadoras:

Inexistência de padrões estabelecidos
a priori
, para observar e conviver com as diferentes maneiras das crianças se relacionarem, de estarem com e na natureza, de brincarem e de se apropriarem dos diferentes conhecimentos.


“Desidades”, relativizando a faixa etária das crianças e dos antigos moradores como parâmetro para a participação social e a realização de qualquer atividade (NOAL, 2006).

Fotografias e desenhos sem legenda, na concepção de que ultrapassar os limites da racionalidade pode permitir que se perceba as possibilidades transgressoras da imaginação, mais um vez inspirada na poética de Manoel de Barros.
Concepções norteadoras:

Crianças como seres de direitos, históricos, sociais, políticos e culturais (AGUIAR, 1994, 1998; FARIA, DEMARTINI, PRADO, 2002; FARIA e FINCO, 2011; ABRAMOWICZ, 2011).

Brincadeiras como atividades vividas no presente, com significados em si mesmas, sem buscar, intencionalmente, um resultado (VERDEN-ZÖLLER, 2004) e como construções e aprendizagens históricas e culturais (BROUGÈRE, 1998, 2000; HUIZINGA, 2004).

Natureza entendida sob dois sentidos distintos: a) como sinônimo de ambiente natural referindo-se ao ambiente físico; b) como representação de tudo o que nos cerca e suas inter-relações sem hierarquizar a vida humana e as demais manifestações de vida, na busca da unidade (CORNELL, 1996; TIRIBA, 2013).
Participantes

Velhos moradores (33), homens (13) e mulheres (20), indicados e/ou reconhecidos com “experiências vividas” na Costa que os tornam memórias vivas dos tempos de outrora.

Crianças (36), meninas (16) e meninos (20) que vivem as suas infâncias nos tempos e espaços da Costa.

"Conceder a palavra às crianças não significa fazer-lhes perguntas e fazer com que responda aquela criança que levantou a mão em primeiro lugar. Dessa forma, conseguem-se somente lugares comuns e estereótipos, isto é, a primeira coisa que vem à mente, e suscita-se, entre elas, uma forte competição: quem sabe responde primeiro. Conceder a palavra às crianças significa, pelo contrário, dar a elas as condições de se expressarem." (TONUCCI , 2005, p. 17).
Narrativas que dizem de imaginação, de liberdades e de sonhos

Crianças, barcos e travessias
Coisas desimportantes, um sofá descartável, aprendimentos
Quantas horas eu levo para ir à escola de dinossauro?
Sem presente? Não acredito!
Chuta aí! Sempre há uma possibilidade de gol
Macacos que mamam, crianças desmamadas
Procura-se um cágado visto pela última vez embaixo da ponte
Siri assustado assusta?
Correio elegante em tempos de WhatsApp?
A metade de um barco nos leva para onde?
Bergamota azeda, limão doce?

A metade de um barco nos leva para onde?
Era um dia lindo de sol, estava fazendo as minhas primeiras andanças pela Costa tentando ser a mais discreta possível. Caminhava com um sorriso amarelo, tímido. O fato de eu estar sem mochila, com uma chave, um caderno e uma máquina de fotografia nas mãos, fazia-me, no mínimo, ser bem estranha. Caminhava sem rumo, sem saber aonde ir, mas estava ansiosa para ver crianças. Então fui até a igreja, dei uma volta pelos restaurantes e voltei. Em frente a uma das lojas de roupa e artesanato, em um terreno baldio, avistei a metade de um barco. De madeira, vermelho, com Marquinhos dentro. Achei um lugar para sentar, no meio fio. Comecei a observá-lo discretamente. Arrisquei tirar uma foto. Ele viu e não reagiu. Continuei. Ele então se colocou de frente para a ponta do barco, com as mãos segurando nas laterais.
Marquinhos começou a balançar, de um lado para outro, de um lado para outro, de um lado para outro, repetidas vezes. Aurora, menor do que ele olhava de longe. Foi se aproximando. Chegou até o barco. Marquinhos a colocou dentro, de frente para a ponta. Ensinou a segurar nas laterais. Ele ficou atrás dela e continuou a balançar de um lado para outro, de um lado para outro. Começou a fazer um barulho com a boca “bum, bum.”. Imitava o barulho do motor. Havia adultos em volta. Ninguém disse nada. Observavam. As crianças continuaram naquele balanço. Para o timoneiro as águas estavam calmas pelo ritmo e barulho do motor. Até que chegaram ao lugar desejado, desceram e ancoraram o barco para a próxima viagem. A metade de um barco, com imaginação, nos leva para qualquer lugar.
Bergamota azeda, limão doce?
Saí de casa para dar uma volta pela Costa. Parei e vi que havia muitas crianças em um terreno gramado, fora da escola e de frente para a Lagoa. Desci para ver, estava tendo aula de Educação Física. Algumas crianças estavam brincando de futebol, outras de pular corda, umas sete no slackline e umas cinco estavam grudadas no pé de fruta, que não era muito grande. Acabei ficando por ali, pedi permissão para o professor e fui brincar com as crianças. Com o tempo, a árvore foi enchendo de crianças.
Umas ficavam só com os dedos do pé no chão e com as pernas bem esticadas, tentando alcançar os frutos que estavam nas pontas dos galhos. Outras estavam empoleiradas no pé, escoradas e penduradas nos galhos. Ainda havia aquelas que ficavam embaixo gritando para conseguir ganhar um fruto. Elas descascavam aquele fruto e falavam: “Hum, que delícia de bergamota!”. Muitos já haviam descascado e chupado o caldinho do fruto. Não demora veio uma menina e falou: “Mira, descasca pra mim?”. Tentei descascar por diversos lados, mas realmente estava difícil. A casca estava muito grudada aos gomos do fruto, mas como muitos já haviam conseguido, persisti.
Durante esta tentativa, a Beatriz se aproximou de mim e disse: “Mira, olha que delícia de bergamota, prova!”. Eu nem olhei muito bem e dei uma mordidinha no fruto. Quando eu senti, fiz um uma cara de que estava ruim e azedo. As crianças riram muito e começaram a falar:
“É limão, Mira!”.
Fui sacaneada ou já fazia parte do grupo? Fiquei com a segunda opção, sem descartar a primeira. Crianças fazem as suas peraltices...
Desenhos

Direcionamento mínimo ao solicitar que se desenhassem fazendo algo que gostam de fazer, sem demarcação de tempo para terminar.

Folha sulfite A4, lápis preto, lápis de cor e borracha.

Participantes: 36 crianças (16 meninas e 20 meninos).

As crianças desenharam livremente e, ao entregarem contavam o que haviam desenhado.

Anotações atrás das folhas.

As falas descreveram detalhes não desenhados.

Ser criança na Costa, sem negar as contradições inerentes a qualquer vida humana, significa crescer cercada de sabedorias, de "hibridismo cultural" (CANCLINI, 2011), de “experiências vividas” (BENJAMIN, 1980, 2009, 2012) e “desidades” (NOAL, 2006).

Ser criança na Costa é ter a chance de brincar, imaginar, conversar, rir, chorar, cuidar de animais, tomar banho de lagoa, andar de bicicleta, descer de cascuda, jogar bola, andar de caiaque...

CONSIDERAÇÕES FINAIS:
“NÃO PRECISO DE FIM PARA CHEGAR.”
Apesar das contradições, dos espaços ameaçados, a Costa ainda é um lugar e uma morada de paz e tranquilidade para seus velhos, adultos, jovens e crianças.

Envelhecer na Costa é passar por perdas, tristezas, disputas, desavenças, mas também é ter um lugar no coletivo para ser respeitado e viver intensamente.

Na Costa há espaços e tempos para as crianças.

Estão por todos os lugares, são olhadas e ouvidas. Agem e constroem, junto com os demais, os traços, os costumes, a cultura da comunidade, assim como também sofrem a influência desta cultura.

As crianças da Costa são natureza.

A infância na Costa é mágica, cheia de encantamentos, mesmo que esteja impregnada das limitações inerentes a qualquer vida.

Chegando ao fim desta dissertação, mas longe de saciar as curiosidades e as inquietações como pesquisadora, avalio que a etnografia me oportunizou uma caminhada consciente e significativa pelas trilhas e travessias da Costa. O convívio com as pessoas, em especial com os antigos moradores e as crianças, fizeram-me sentir que “Os homens deste lugar são uma continuação das águas.” (BARROS, 2010, p.199).
BENJAMIN, W. (1892-1940) Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8. ed. rev. São Paulo: Brasiliense, 2012 (Obras Escolhidas v. 1).

BENJAMIN, W. Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação. 2. ed. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2009.

BENJAMIN, W. Textos escolhidos. In: BENJAMIN, W. et al. Textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1980. p. 1-85.

BROUGÈRE, G. Brinquedo e cultura. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2000.

BRUHNS, H. T. A busca pela natureza: turismo e aventura. São Paulo: Manole, 2009.

BRUHNS, H. T. Meio ambiente. In: GOMES, C. L. Dicionário crítico do lazer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004b. p.152-157.

CANCLINI, N. G. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. 4. ed. São Paulo: UNESP, 2011.

COHN, C. Antropologia da criança. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.


Referências
Gratidão
Para possibilitar a rememoração e a compreensão de "experiências vividas” (BENJAMIN, 1980).

Para privilegiar a busca dos significados e das subjetividades (MINAYO, 1996; 1999).

Para descrever o grupo a partir de observações sistemáticas e participativas (TRICHÊ; MORETTI-PIRES, 2012; MANFROI; MARINHO, 2014), conversas informais (BENJAMIN, 1980, 2012; QUEIROZ, 1988; POLLAK, 1992; PORTELLI, 1997; VON SIMSON, 1988), fotografias e filmagens (BITTENCOURT, 1998), desenhos (GOBBI, 2002) e registro no caderno de apontamentos (BRANDÃO, 1982; LAGROU, 1992, 1994; BARROS, 2010).

Para gestar as narrativas (BENJAMIN, 1980, 2009, 2012; GIRARDELLO, 1998). "Era uma vez..."

Aproximações (informalidade, espera, respeito, simplicidade, participação nas brincadeiras e nas reuniões da associação, contribuição com as lutas e reivindicações, companhia na volta da escola, travessias em diferentes horários, trocas de quitutes, visitas, almoços, ajuda na escola, auxílio ao carregar compras, receber em minha casa, levar roupas para ajustar na costureira, visita as casas das rendeiras para encomendar faixas de cabelo, encomenda de doces, carne de siri e camarão, passeios com meu cachorro).

Distanciamentos (ida frequente a universidade, problematizações, releituras e novas leituras, reuniões de orientação, escrita e rescrita do texto).

Registros no caderno de apontamentos.

Conversas frequentes com os antigos moradores (memórias e opiniões).

Observações participantes no cotidiano da comunidade.

Registros de imagens (equipamentos visíveis, observação da expressão corporal, pedido de permissão oral antes de fotografar e filmar).

Elaboração de desenhos com as crianças.
Influência das estadas dos homens no Porto de Rio Grande/Rio Grande do Sul (Tatuagens).

Trabalho, convivência e brincadeiras como expressões da vida familiar e coletiva.

Rememoração da infância que traz brilho aos olhos e faz a memória criar asas e voar.

Cacau arremata:


Antigamente aqui nascia, crescia e aqui casava. Não saia
ninguém pra fora, era muito difícil sair uma moça ou um moço daqui
pra fora, casava tudo aqui. Então era uma família só.
”.

(GOBBI, 2002)

Meu aquário, mas eu não tenho. Tem peixe, duas águas vivas, dois limos e uma pedra.

(Bela)

Eu e meus amigos jogando bola no campinho.
É só você abrir a janela que você vai ver o campo.

(Cauã)

Meu irmão grandinho pulando na água e depois eu fui!

(Alice)
Olha, se eu fosse criança nesse momento, gostaria de ser criança na Costa. Ser criança na Costa da Lagoa é poder ser autenticamente criança, poder usufruir dessa fase da vida com toda a intensidade e liberdade que ela exige.

(Sofia, caderno de apontamentos)

Passar os primeiros anos de vida na Costa é um privilégio, é ter a chance de viver uma infância recheada de matas, águas, bichos, histórias, brincadeiras, brigas, desentendimentos, harmonias, direito de se expressar e dever de calar e ouvir.

As crianças da Costa, em sua maioria, parecem ter consciência da infância que vivem, pois ao serem questionadas se tinham vontade de ser adultas, imediatamente respondiam:


Adorooo ser criança!



É muito mais melhor ser criança.



É mais melhor ser criança pra brincar. Essas coisas de dinheiro, esses problemas, não precisamos pensar.

Posso afirmar que minha estada na Costa foi uma “experiência vivida” (BENJAMIN, 1980, 2012) em minha trajetória pessoal, como estudante e profissional. Também sei que foi para os moradores, principalmente os velhos e as crianças que participaram da pesquisa.

As conversas fluíram, as relações flutuaram, as fotografias mergulharam e meu ser segue a sua navegação sabendo que há laços e compromissos que são para sempre, pois, na companhia de Manoel de Barros (2010, p. 348): “Não preciso de fim para chegar.”.

CORNELL, J. Brincar e aprender com a natureza. São Paulo: Melhoramentos, 1996.

GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.

GIRARDELLO, G. Televisão e imaginação infantil: histórias da Costa da Lagoa. 1998. 223 f. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação/Jornalismo) - Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1998.

HUIZINGA, J. Homo ludens. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 2004.

MAGNANI, J. G. C. De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 17, n. 49, p. 11-29, jun. 2002.

MAGNANI, J. G. C. Festa no pedaço: cultura popular e lazer na cidade. 2. ed. São Paulo: Hucitec/UNESP, 1998.

NOAL, M. L. As crianças Guarani/Kaiowá: o mitãreko na Aldeia Pirakuá/MS. 2006. 353 f. Tese (Doutorado em Educação) Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2006.

TONUCCI, F. Com olhos de criança. Porto Alegre: ARTMED, 1997.

TONUCCI, F. Quando as crianças dizem: agora chega! Porto Alegre: ARTMED, 2005.

O rio que fazia uma volta
atrás da nossa casa
era a imagem de um vidro mole...

Passou um homem e disse:
Essa volta que o rio faz...
se chama enseada...

Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás da casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

BARROS (2010, p.360)

COSTA DA LAGOA:
ESPAÇOS E TEMPOS NUM LUGAR ENSOLARADO DE VIVER
“Mira, como a folha é pequena, não te coube, por isso imagine que você está vindo logo atrás de mim, e estamos caminhando em um parque, que não tem balanço, mas tem lago, peixe e trepa-trepa.”.

Os amigos, as brincadeiras e a natureza foram os aspectos mais presentes nos desenhos.

FRUTOS DA PESQUISA

Revista Pensar a Prática (2015)
POR OUTRA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR: NATUREZA, CULTURA E EXPERIÊNCIAS NA COSTA DA LAGOA (SC)

Revista Brasileira de Estudos do Lazer (2014)
COSTA DA LAGOA: REFLEXÕES SOBRE AS CRIANÇAS, AS BRINCADEIRAS E A NATUREZA
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