Loading presentation...

Present Remotely

Send the link below via email or IM

Copy

Present to your audience

Start remote presentation

  • Invited audience members will follow you as you navigate and present
  • People invited to a presentation do not need a Prezi account
  • This link expires 10 minutes after you close the presentation
  • A maximum of 30 users can follow your presentation
  • Learn more about this feature in our knowledge base article

Do you really want to delete this prezi?

Neither you, nor the coeditors you shared it with will be able to recover it again.

DeleteCancel

Make your likes visible on Facebook?

Connect your Facebook account to Prezi and let your likes appear on your timeline.
You can change this under Settings & Account at any time.

No, thanks

Os delírios da razão: médicos, loucos e hospicios

apresentado à disciplina História da Psiquiatria no Brasil
by

thiago moreira

on 29 January 2013

Comments (0)

Please log in to add your comment.

Report abuse

Transcript of Os delírios da razão: médicos, loucos e hospicios

ENGEL, Magali G. Os delírios da razão: médicos, loucos e hospícios. Rio de Janeiro; FIocruz, 2001 No terceiro capítulo do livro, (Estratégias e Artifícios) a autora procurou situar e discutir, de um lado, as principais estratégias tóricas e metodológicas que orientam os rumos tomados pelos alienistas brasileiros na construção da loucura como doença mental e, de outro, os confrontos tavados e as alianças firmadas no decorrer dessa trajetória. Foucault - diferenças entre os séculos XVII/XVIII e o XIX no que se refere à associação entre loucura e doença: “Pode ser que, de um século para outro, não se fale ‘das mesmas doenças’com os mesmos nomes, mas isso é porque, fundamentalmente, não se trata da mesma doença” (Foucault, 1978:214) século XVIII A partir de meados do século XVIII surgiriam numerosos tratados médicos sobre a loucura, nos quais esboçavam-se modalidades de medicalização distintas e algumas até conflitantes. Além disso, na situação de internamento, a loucura passa a ser objeto de uma percepção mais médica e as práticas a respeito dos insanos começam a diferenciar-se das que se destinam aos outros reclusos Philippe Pinel - construir a “síntese alienista”, por meio da articulação de três dimensões que, embora presentes nas diretrizes anteriores da medicalização, assumiriam novo significado: classificação do espaço institucional; arranjo nosográfico das doenças mentais; imposição de uma relação específica de poder entre o médico e o doente. Lenda de Pinel:
“... identificava o alienismo como missão libertarista visando aliviar a condição de um dos segmentos da sociedade mais dignos de piedade, o qual, segundo eles [os médicos], era injusta e brutalmente maltratado” (Harris, 1993:16) Loucura passa a ser concebida como uma doença, buscando-se, desse modo, transformá-la em objeto de conhecimento e de intervenção exclusivos do médico. A loucura torna-se um campo de problema da medicina. Como se dá essa transformação? século XIX Em meados do século XIX o Dr. Antonio L. da Silva Peixoto defendeu a primeira tese sobre alienação mental produzida no Brasil. A partir de suas colocações a qualificação da loucura como doença específica ganharia caráter mais nítido e inequívoco, aparecendo explicitamente identificada como moléstia mental ou como alienação mental. Mas como esse médico definia a moléstia ou a enfermidade mental? Aquilo que
"perverte e aniquila à espécie humana o que ela tem de mais precioso, tal é a ação fisiológica da inteligência... cuja sede, natureza e tratamento, apesar dos repetidos esforços dos médicos mais recomendáveis por suas luzes e incansabilidade em propagar os conhecimentos da arte, ainda hoje é problemática" (Peixoto, 1837:II)
Peixoto então dá uma certeza importante: a loucura era uma doença que atingia a inteligência Segundo Foucault ( 1978), a oposição entre razão e loucura remetia o louco à condição de animalidade, despojando-o do que nele houvesse de humano para estabelecê-lo no grau zero de sua própria natureza. Por meio dessa concepção, o saber médico retirava do louco a condição de ser humano completo – ao qual faltava a razão, ou seja, o traço essencialmente distintivo da espécie – , abrindo profundas brechas para o exercício de um poder absoluto e irrestrito sobre ele Enquanto na época clássica a presença da animalidade revelaria a dissociação entre louco e doente, na perspectiva evolucionista do XIX ela seria concebida como a própria essência da doença Desde a década de 20 do século XIX, alguns médicos franceses revelaram preocupação quanto a se descrever a alienação mental como doença física. Tal perspectiva rompia, em parte, com a síntese médico-filosófica e com o sistema de classificação das doenças desenvolvidas por Pinel, e viabilizava a aplicação do método anátomo-clínico ao conhecimento da doença mental Oposição ideológica entre duas correntes: a Espiritualista (vitalista); e a Organicistas (anatomica) A partir dos anos 60 do século XIX, a opção pela abordagem materialista da insanidade seria claramente definida e discutida na memória apresentada pelo Dr. José Luiz da Costa à Academia Imperial de Medicina (AIM) em 1861. Para este médico, as faculdades, intelectuais e morais – especificamente humanas – não poderiam ser vistas como produto exclusivo da alma, uma vez que "numerosos e concludentes” fatos já teriam demonstrado que o encéfalo é a condição física indispensável para a sua manifestação O estudo da loucura teria, então, um perfil definido a priori: “Sejamos médicos somente: estudemos o homem como um corpo físico, e reservemos à filosofia para reforçar com as suas doutrinas psicológicas as expressões físicas, que vamos ler no organismo humano" A difusão da abordagem materialista ou anatômica da alienação mental entre os médicos brasileiros, a partir das quatro últimas décadas do século XIX, apresenta-se como sinal dos novos tempos da medicina mental francesa, inaugurados com o advento da teoria da degenerescência, desenvolvida por Auguste Morel em fins de 1850. A partir da publicação do seu Traité des Dégénérescences, em 1857, no qual procura “apresentar uma nova síntese que unia hereditariedade, ambiente e declínio racial”, Morel daria origem a uma tendência que passaria a predominar no âmbito do alienismo, assinalando o advento da chamada “segunda psiquiatria”. As reflexões de Morel sobre a degenerescência teriam origem num contexto marcado pela ênfase na relação entre hereditariedade e alienação mental. As degenerescências – definidas como desvios doentios em relação ao tipo normal da humanidade, transmitidas hereditariamente – passa a ser concebidas como as principais causas da loucura, rompendo-se definitivamente com a concepção pineliana que a definia como “um erro de julgamento” ou “desvio da razão” A nova perspectiva emergente no âmago da medicina mental implicaria, pois, alargamento significativo da noção de insanidade mental, tornando ilimitadas as possibilidades de rotulação das mais variadas condutas, individuais e coletivas, como“anormais”. Além disso, as noções de degenerescência e de constituição enfatizariam a perversidade do louco, redimensionando o sentido de sua periculosidade, a partir do estabelecimento de uma estreita associação entre criminalidade e loucura A importância e a necessidade da psiquiatria aparecem, então, explicitamente vinculadas, de um lado, à perspectiva de definir as fronteiras do território demarcado pela associação entre crime e loucura, assegurando seu controle à autoridade médica; de outro, à necessidade de afirmar e legitimar a intervenção do médico sobre o espaço urbano que, marcado por tensões e conflitos sociais – sinais reveladores da “doença” da cidade –, tornava-se cada vez mais “perigoso” A consolidação da psiquiatria no mundo ocidental esteve, de um modo geral, profundamente marcada pela ampliação da interferência do psiquiatra nas questões jurídicas, determinando, certamente, muitos conflitos, mas também muitas alianças entre os médicos-psiquiatras e legistas e os advogados e juízes Em nome da ciência e dos princípios humanitários era preciso, então, que a lei incorporasse e ratificasse uma das grandes descobertas da psiquiatria: muito além do delírio e do furor, a doença mental encontrava-se, freqüentemente, oculta sob o disfarce de inteligências parcial ou integralmente perfeitas Os conhecimentos desenvolvidos no âmbito da medicina mental tornavam-se cada vez mais indispensáveis para o esclarecimento de questões situadas nas searas da pedagogia, da sociologia e do direito, devendo, por isso, se constituírem, segundo alguns especialistas, numa exigência para a formação dos médicos-clínicos em geral. No Brasil, as próprias origens da psiquiatria como especialidade autônoma seriam justificadas por meio da ênfase na importância do psiquiatra para uma correta e segura avaliação da responsabilidade legal de indivíduos acusados de crimes ou delitos.
Transformados em peritos, os psiquiatras aproximavam-se dos legistas e assumiam uma missão que transpunha os muros do hospício, proferindo pareceres, muitas vezes decisivos, sobre a capacidade civil e a responsabilidade criminal o fato de se ampliar os limites da normalidade/loucura, acarretara em uma maior dificuldade em diagnosticar. Fazia-se necessário, portanto, elaborar métodos e técnicas mais eficazes O observador deveria, primeiramente, assinalar o aspecto geral do doente – sua configuração, estatura etc. – e definir sua fisionomia – expansiva, deprimida ou sem qualidades distintivas –, bem como o seu estado – calmo ou agitado, alegre ou triste –, atentando-se para o modo pelo qual ele respondia às perguntas. Os aspectos observados durante essa primeira fase do exame poderiam indicar a presença de traços degenerativos e/ou de marcas deixadas pelas alucinações.

A segunda etapa consistia no exame físico do paciente dando-se ênfasevespecialmente ao crânio, à face, às orelhas, ao nariz, aos olhos e à cavidade bucal

Por fim, a etapa mais subjetiva que incluía uma pesquisa minuciosa dos seus dados anamnésticos, das suas condições de vida – noções éticas, procedimentos na sociedade etc. –, bem como a observação de sua memória, do seu modo de falar e do seu grau de inteligência.
Além da fala e da análise física do paciente, cartas pessoais diários, livros e artigos publicados também eram analisados afim de viabilizar a elaboração de um diagnóstico seguro( As produções dos pacientes eram vistas como expressões inequívocas de um estado mental perturbado). associação à escuta psiquiátrica à escuta confissionária Os primeiros médicos brasileiros que se dedicaram ao estudo dos fenômenos mentais já apontavam a hereditariedade como uma causa importante da alienação mental. Entretanto, a predisposi- ção hereditária tenderia a ser cada vez mais enfatizada a partir de fins dos anos 50 do século XIX, com a disseminação da teoria da degenerescência de Morel. Impregnados por tal concepção, os especialistas em medicina legal e em psiquiatria tornar-se-iam cada vez mais obcecados pela genealogia de seus pacientes, buscando estabelecer uma relação entre a hereditariedade e os desvios mentais detectados (CONCLUSÃO) Inspirados nos mais variados matizes teóricos que caracterizariam a medicina mental européia desde suas origens até o princípio do século XX, os psiquiatras brasileiros produziriam e difundiriam um conhecimento profundamente eclético, marcado por muitas ambigüidades e contradições, mas que buscaria alinhavar uma coerência não apenas por meio de sua aplicação prática no âmbito especificamente médico, mas, sobretudo, das possibilidades de intervenção política e social abertas por (e para) esse saber específico.
Full transcript